Conjuntura

ONG afirma que insultos à imprensa são marca de Bolsonaro

O Brasil retrocedeu quatro posições no Ranking da Liberdade de Imprensa 2021, organizado pela ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF), caindo para a 111ª entre 180 países, e entrando na zona vermelha, classificada como de “situação difícil”. “O contexto tóxico em que trabalham os profissionais da imprensa brasileira desde a chegada ao poder de Jair Bolsonaro, em 2018, explica em grande parte essa degradação. Insultos, estigmatização e orquestração de humilhações públicas de jornalistas se tornaram a marca registrada do presidente, sua família e seu entourage”, afirma a ONG.

No Brasil, continua o relatório de Repórteres Sem Fronteiras, o acesso aos números oficiais sobre a epidemia tornou-se extremamente complexo devido à falta de transparência do Governo Bolsonaro, que tentou por todos os meios minimizar a escala da pandemia, gerando inúmeras tensões entre as autoridades e os meios de comunicação nacionais.

O relatório ressalta, nesse contexto, o papel relevante dos veículos de imprensa durante a pandemia. “Diante das mentiras compulsivas do presidente e da falta de transparência do governo quanto à gestão sanitária, uma aliança inédita reunindo os principais meios de comunicação do país foi criada em junho de 2020, com o objetivo de obter informações diretamente de autoridades locais nos 26 estados do país e no Distrito Federal, para elaborar e comunicar seus próprios boletins”. 

A ONG critica, ainda, o fato de que tanto Jair Bolsonaro quanto o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, tenham promovido medicamentos cuja eficácia nunca foi provada pela medicina, como foi o caso da cloroquina. 

Especificamente no caso brasileiro, o relato envolve a disseminação pelo presidente de informações falsas sobre o uso de Ivermectina (vermífugo cuja eficácia no combate ao coronavírus nunca foi comprovada e que foi desaconselhado pela OMS), além de criticas às medidas de isolamento social, em desrespeito a medidas sanitárias. A divulgação de notícias falsas por Bolsonaro o levou ao constrangimento de ser censurado pelo Facebook e pelo Twitter. 

“O jornalismo é a melhor vacina contra a desinformação”, afirmou o secretário-geral da RSF, Christophe Deloire. “Infelizmente, sua produção e circulação são frequentemente cerceadas por fatores políticos, econômicos, tecnológicos e, às vezes, até culturais. Diante da viralização da desinformação além-fronteiras, nas plataformas digitais e nas redes sociais, o jornalismo é a principal garantia de um debate público fundamentado numa diversidade de fatos verificados.”

O ranking

O Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, que avalia a cada ano a situação da liberdade de imprensa em 180 países e territórios, mostra que o exercício do jornalismo, principal vacina contra o vírus da desinformação, está gravemente comprometido em 73 dos 180 países do Ranking elaborado pela RSF e restringido em outros 59, num total de 73% dos países avaliados. Esses dados correspondem ao número de países classificados em vermelho ou preto no mapa mundial da liberdade de imprensa, ou seja, aqueles em que o jornalismo se encontra em uma “situação difícil” ou “grave”, e aqueles classificados na zona laranja, onde o exercício da profissão é considerado “sensível”.

O controle do jornalismo é revelado pelos dados do Ranking, que mede as restrições de acesso e os entraves à cobertura jornalística. A RSF registrou uma flagrante deterioração deste indicador no período. Os jornalistas estão limitados no acesso tanto ao campo quanto às fontes de informação, por conta da crise sanitária ou tendo ela como pretexto. Será que este acesso será restabelecido após o fim da pandemia? O estudo mostra uma dificuldade crescente dos jornalistas em investigar e divulgar temas delicados, principalmente na Ásia e no Oriente Médio, mas também na Europa.

O barômetro Edelman Trust 2021 revela uma preocupante desconfiança pública em relação aos jornalistas: 59% dos entrevistados em 28 países acreditam que os jornalistas tentam deliberadamente enganar o público, divulgando informações que sabem ser falsas. No entanto, o rigor e o pluralismo jornalísticos permitem combater a desinformação e as “infodemias”, ou seja, os boatos e as manipulações de informação.