Diversidade

Panela de pressão: como a pandemia afeta mulheres de forma desigual

Desde seu início, a pandemia de Covid-19 teve um impacto contundente no acirramento da desigualdade de gênero em todo o mundo, sob os mais variados aspectos. Com a crise sanitária, as mulheres perderam mais empregos, mais qualidade de vida e mais autonomia – para ser sucinta – do que os homens.

Nem com muito esforço daria para afirmar que tais desigualdades surgiram com a tomada do planeta pelo Coronavírus, mas impressiona a velocidade e a intensidade com que a pandemia tornou o abismo de gênero não apenas visível, mas gritante.

“Na verdade isso já é uma estrutura, que tem a ver com a organização de gênero na sociedade, e também dentro das famílias, na distribuição das tarefas e na responsabilidade.  Num contexto de pandemia, além do trabalho remunerado (realizado fora de casa ou em home office, para as mulheres que têm essa opção),  o acúmulo de funções dentro da casa ficou mais evidente, com as crianças e mais gente em casa por mais tempo”, aponta a socióloga Célia Arribas, professora da UFJF.

Neste sentido, o último Fórum Econômico Mundial divulgou, em março deste ano, que a crise mundial do coronavírus criou o que vem sendo chamado de “shecession” (algo como recessão feminina). O fenômeno aponta que 5% de todas as mulheres do planeta perderam seus postos de trabalho entre março e dezembro de 2020, em comparação a 3,9% dos homens. O dado representa o aumento acelerado de pelo menos uma geração da lacuna de gênero, que saltou de 99,5 anos (relativos a 2019) para 135,6 anos, e com isso, a diferença econômica de gênero deve levar mais de inacreditáveis 267 anos para ser fechada.

Os números sobre renda e emprego são atravessados por diversos outros marcadores. Segundo dados da pesquisa “Sem parar: o trabalho e a vida das mulheres na pandemia”, da organização Gênero e Número e da SempreViva Organização Feminista, realizada em abril e maio de 2020, para 40% das entrevistadas a pandemia e suas consequências ameaçaram a manutenção econômica de seus domicílios. Não surpreendentemente, o mesmo levantamento aponta que metade das mulheres do país ficou responsável pelo cuidado de  de alguém (crianças, idosos, doentes e pessoas com necessidades especiais) durante a pandemia. Trabalho que é invisibilizado e cuja responsabilidade é atribuída às mulheres sob a pecha de amor, instinto ou aptidão “natural”.

“São as mulheres que, no limite, produzem os trabalhadores que compõem a força de trabalho. Isso torna a casa uma panela de pressão, com mulheres exaustas não apenas fisicamente, mas mentalmente e emocionalmente também. Além disso, por causa e consequência deste trabalho de cuidado, muitas mulheres perderam seus empregos e/ou não conseguiram se realocar no mercado durante a pandemia”, destaca Célia Arribas.

“Esse trabalho que recai historicamente sobre as mulheres, de lavar, passar cozinhar, limpar, cuidar, ensinar, organizar e planejar é visto como algo pequeno, são afazeres tornados invisíveis mesmo, mas requerem uma quantidade razoável de tempo e energia das mulheres. E é justamente a realização que permite a manutenção dos homens em seus postos de trabalho, porque são tarefas centrais para a vida de um lar. Então são as mulheres que, no limite, produzem os trabalhadores que compõem a força de trabalho. Isso torna a casa uma panela de pressão, com mulheres exaustas não apenas fisicamente, mas mentalmente e emocionalmente também. Além disso, por causa e consequência deste trabalho de cuidado, muitas mulheres perderam seus empregos e/ou não conseguiram se realocar no mercado durante a pandemia”, destaca a socióloga.

“Embora a violência doméstica atravesse as classes econômicas, é claro que as mulheres de maior vulnerabilidade e baixa renda estão em uma situação mais preocupante. E na situação atual, é ainda mais difícil pensar políticas públicas que dêem suporte material e imaterial para que aquela mulher consiga sair de situações de violência”, destaca Célia Arribas (Foto: PPGCSO/UFJF)

Célia chama atenção para outro agravante da crise sanitária, o de que a violência contra a mulher aumentou, num já conhecido contexto em que os principais agressores são os companheiros, pais, irmãos ou outros homens de convívio próximo. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) no estudo “Violência doméstica durante a pandemia de Covid-19”, apresentado em maio, o feminicídio cresceu 22,2% no Brasil durante a pandemia. Já as denúncias ao 180 subiram 40%. Três mulheres foram vítimas de feminicídio por dia, conforme levantamento da Revista AzMina.

“Essa questão também acrescenta à metáfora da panela de pressão. As mulheres acabam passando muito mais tempo com seus agressores ou potenciais agressores. E embora a violência doméstica atravesse as classes econômicas, é claro que as mulheres de maior vulnerabilidade e baixa renda estão em uma situação mais preocupante. Até porque as crises econômicas, o desemprego e a insegurança acabam criando mais instabilidade naquele lar. E na situação atual, é ainda mais difícil pensar políticas públicas que dêem suporte material e imaterial para que aquela mulher consiga sair de situações de violência.”

Nem todas no mesmo barco

Segundo o informativo “Desigualdades Raciais e de Gênero no Mercado de Trabalho em meio à Pandemia”, do Núcleo Afro-Cebrap, dos cinco setores econômicos brasileiros com maior redução proporcional de postos de trabalho ao longo da pandemia, três são majoritariamente femininos e dominados por mulheres negras (alojamento e alimentação, serviços domésticos e demais serviços). Estamos longe de estarmos “todos no mesmo barco”. Como mostram os dados, nem todas estamos.

“Não há nenhum tipo de proteção para algumas trabalhadoras. Muitas delas, sobretudo negras, receberam o auxílio emergencial por poucos meses  e depois com um valor muito menor.  Há uma desigualdade dentro da própria distribuição desigual dos trabalhos, nos efeitos da violência. Tudo isso já são fenômenos que a gente conhece, mas que a pandemia tem evidenciado, na verdade, como se tivesse potencializado tudo. Então percebemos a crise econômica obviamente em todos os estratos da sociedade, mas as mulheres de baixa renda vão sofrer muito mais.  Esse time que precisa  circular pelas cidades, que vai ter que se virar em bicos, em trabalhos bastantes inseguros, incertos e sem nenhum tipo de proteção, sem nenhum tipo de política pública”, pontua Célia.

O Pharol ouviu mulheres que vivem em diferentes bairros de Juiz de Fora e região e o impacto da pandemia acompanha a toada dos dados nacionais por aqui. Dos 879 novos empregos formais gerados em março na cidade de acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), 356 foram destinados a mulheres e 523 para homens. Entre nossas entrevistadas, houve relatos de disparidade salarial  e trabalhista por gênero, de racismo e transfobia no mercado e, invariavelmente, de uma estafa nunca antes sentida na intensidade que vem acontecendo durante a pandemia.  Não por acaso, esta matéria foi realizada entre funções domésticas, atividades profissionais, vozes de crianças e nos brevíssimos intervalos entre os afazeres que mantêm a vida em funcionamento durante a pandemia.

Num tom agridoce, todas as entrevistadas relataram também o papel fundamental da formação de redes de apoio material e imaterial entre mulheres, na superação das adversidades nascidas da desigualdade de gênero. Por fim, todas manifestaram um uníssono de esperança com o momento histórico de Juiz de Fora* que acena timidamente – embora nunca antes em tal proporção – na direção de mais representatividade feminina na política representativa. 

“É uma questão de fato importante e uma bandeira secular dos movimentos feministas: mais mulheres na política, exercendo o direito de votarem e serem votadas. Não quer dizer que mais mulheres necessariamente tragam agendas mais feministas. Mas no caso de Juiz de Fora, com uma prefeita como a Margarida (Salomão, PT) e a maioria das vereadoras,  com um discurso mais progressista e muito alinhado aos movimentos sociais e diversas lutas, começamos a perceber uma vontade de construção de políticas atentas às vulnerabilidades. Digo vontade porque nem sempre é possível realizá-las dentro do jogo político, dos orçamentos, mas os projetos, propostas e políticas que estas mulheres vêm desenvolvendo acenam neste sentido”, conclui Célia.

*Com o mandato da primeira prefeita da cidade Margarida Salomão (PT), e  de quatro vereadoras, três do campo progressista: Cida Oliveira (PT), Laiz Perrut (PT), Tallia Sobral(PSol) e Katia Franco (PSC).

(Foto: Arquivo pessoal)

Dandara Felícia, 40 anos, técnica em saúde do Hospital Universitário e mestranda em Serviço Social pela UFJF

Em janeiro de 2020, quando o Hospital Universitário começou a preparar suas equipes para a pandemia de Covid-19, Dandara mal sabia o que estaria por vir. “Nós achamos que seria algo como (a pandemia de) H1N1 em 2009, quando precisamos montar um leito aqui no hospital”, relata em um intervalo de seu plantão na instituição, que tem 13 leitos de UTI exclusivos para pacientes de coronavírus.

Desde que a pandemia começou para cá, Dandara precisou readaptar totalmente a rotina para se evitar não apenas a sua contaminação, mas também a do marido Thiago, que por ser hipertenso integra um dos grupos de risco da doença. “Mudou tudo. Todos os dias antes de entrar em casa de manhã depois do plantão a noite inteira, preciso tomar banho, lavar os cabelos e separar toda a roupa, por minha segurança e do Thiago. Além disso, embora a gente divida todas as atividades domésticas, algumas ficaram por minha conta justamente pelo risco, como ir ao mercado e, por conseqüência, planejar as compras”, conta ela, que mora próximo à Represa João Penido, na Estrada da Remonta.

Dandara aponta que, a exemplo do quadro nacional, em Juiz de Fora a linha de frente do atendimento à saúde é majoritariamente feminina e subvalorizada. “Aqui em Juiz de Fora precisamos entrar com uma ação trabalhista da categoria porque vários hospitais vêm se recusando a pagar adicional de insalubridade de 40% para enfermeiras, técnicas e outras trabalhadoras de saúde que atuam no enfrentamento da Covid, sendo que já possuímos uma desigualdade salarial por sermos mulheres”, denuncia. “Toda a mobilização tem vindo por parte das trabalhadoras para reivindicar esse direito.”

Outro ponto destacado por Dandara, que integra o Centro de Referência LGBTQIA+, é o empobrecimento agudo das mulheres trans e travestis em Juiz de Fora durante a crise sanitária – sobretudo as negras. “Eu sou privilegiada por ter um posto de trabalho formal, mas a maioria das mulheres trans e travestis são, principalmente em uma cidade racista e LGBTQIA+fóbica feito Juiz de Fora, empurradas para a prostituição compulsória e também outros trabalhos informais e/ou vistos com preconceito. No Centro conseguimos mobilizar a doação de cestas básicas para ajudar, mas é preciso que essas mulheres sejam atendidas por políticas públicas, principalmente num contexto de pandemia”, diz ela, que vê no governo atual um importante passo nesta direção, usando como exemplo o decreto Nº 14.542, assinado no último dia 17 pela prefeita Margarida Salomão visando à criação de um Grupo de Trabalho para elaborar propostas do plano municipal de promoção e defesa dos direitos da população LGBTQIA+.

“Eu sou privilegiada por ter um posto de trabalho formal, mas a maioria das mulheres trans e travestis são, principalmente em uma cidade racista e LGBTQIA+fóbica feito Juiz de Fora, empurradas para a prostituição compulsória e também outros trabalhos informais e/ou vistos com preconceito”, diz Dandara.

Já imunizada, Dandara aguarda ansiosa pela ampla vacinação da população e reitera o caráter político do processo. “Além do desgoverno federal que temos, que negou literalmente a aquisição de vacinas, não podemos perder de vista que Estados Unidos e Europa, o norte global, só estão no ritmo de vacinação em que estão às custas de milhares de países como o Brasil”.

(Foto: Arquivo pessoal)

Karol Vieira (MC Xuxú), 32 anos, cantora

Como qualquer profissional da cultura, desde o início da pandemia Karol Vieira, a Mc Xuxú, tem se desdobrado para manter as contas em dia. Para piorar, moradora do Santa Cândida, a cantora se viu como principal fonte de renda da família quando a mãe perdeu o emprego. Como os caminhos se cruzam facilmente em Juiz de Fora, ela foi auxiliada pela mobilização de cestas básicas para as mulheres trans que Dandara ajudou a fazer no centro de referência.

“Minha renda vem da cultura, de apresentação, de show. Eu estava com vários marcados e de uma hora pra outra me vi sem renda e responsável por uma casa.  A cesta básica foi uma ajuda muito importante, e além da que vem do centro de referência para as meninas trans, vejo que no Candinha (Santa Cândida), ela em de outros lugares e na maioria pra mulheres pretas e chefes de família. O MST é um que sempre manda. E a gente vai se ajudando, colocando o nome de outras mulheres na lista para receber apoio, porque na periferia é assim, uma ajuda a outra, senão não dá”.

Segundo Xuxú, que destacou a Lei Aldir Blanc como fundamental para manter a produtividade durante a pandemia, a transfobia ainda é um enorme empecilho para o consumo de arte LGBTQIA+ Brasil.

“Quando a gente vê um homem que nem o Pedro Bial, com todo acesso à informação e cultura, cometendo transfobia em rede nacional, a gente entende um pouco porque isso acontece. Para muita gente as pessoas trans importam menos ou nada, e assim acontece com o que a gente produz”, dispara. Especificamente sobre Juiz de Fora, a cantora acredita que a vulnerabilidade de muitas mulheres durante a pandemia também é fruto de algum tipo de preconceito. “São mães sozinhas, travestis, mulheres negras, pobres, claro que não só elas são afetadas, mas essas têm vários perrengues pra enfrentar, mais a pandemia.”

“Para muita gente as pessoas trans importam menos ou nada, e assim acontece com o que a gente produz”, dispara MC Xuxú.

Mesmo com dificuldades, a artista tem composto e lançou vários singles (como “Bundelícia”, “Marginal” e “Grana”) e clipes durante o isolamento. O esforço por telas e bits tem, entretanto, cobrado seu preço.

“Como artista, claro que a minha vida já estava muito no digital. Mas agora toda minha possibilidade de renda está no streaming, que é pouca, mas é a maneira de continuar ganhando dinheiro com arte. Tem sido a fase mais difícil da minha vida e carreira, porque além de todas as responsabilidades da minha vida, preciso estar conectada o tempo, todo, produzindo conteúdo e interagindo todo dia, é muito desgastante, algo que me suga mesmo. Tem dias que eu tô tão cansada física e emocionalmente que é difícil fazer qualquer coisa.”

(Foto: Arquivo pessoal)

Elis Carvalho, 43 anos, educadora e coordenadora da Regional Zona da Mata do MST

Às vésperas de seu aniversário, comemorado junto com o de Juiz de Fora, Elis Carvalho fala comigo entre um abraços, brincadeiras e a mamada do filho Igor, de pouco mais de 1 ano. Ela relata que no assentamento Dênis Gonçalves, a cerca de 50 km de Juiz de Fora e situado em Goianá, o cotidiano das mulheres de aproximadamente 120 famílias que vivem lá foi violentamente impactado pela Covid-19.

“Todas trabalham muito mais horas do que deveriam e poderiam trabalhar. No caso das mulheres camponesas, isso é especialmente difícil para as que estudam na escola. A maioria das trabalhadoras atua numa produção agrícola muito diversificada, na produção e comercialização dos alimentos que aqui na região muitas pessoas conhecem pela nossa cesta do MST. E aí a mulher também estuda, e agora precisa dar suporte aos filhos que estão estudando remotamente, e precisa cuidar da casa, e tem trabalhos com a comunidade, e tem família fora do assentamento pra cuidar… Por mais que até haja uma divisão de tarefas com alguns companheiros, toda essa carga mental fica com as mulheres de qualquer jeito”, destaca ela.

Um dos agravantes para as mulheres do assentamento, segundo Elis, diz respeito a essas funções que recaem sobre elas e estão relacionadas a problemas de logística.

“a mulher também estuda, e agora precisa dar suporte aos filhos que estão estudando remotamente, e precisa cuidar da casa, e tem trabalhos com a comunidade, e tem família fora do assentamento pra cuidar… Por mais que até haja uma divisão de tarefas com alguns companheiros, toda essa carga mental fica com as mulheres de qualquer jeito”, destaca Elis Carvalho.

“A educação das crianças, tanto no sentido escolar tanto no sentido doméstico fica sob responsabilidade delas, é uma preocupação das mulheres, pois temos um acesso ruim à internet, com pontos e sinal intermitentes, e maioria dos lares não possui aparelhos dedicados para a educação das crianças. Normalmente tem um celular da família. Além disso, apesar de termos vivido um aumento de produção durante a pandemia com mais gente cozinhando em casa, as estradas para distribuição desta produção ainda são muito ruins e dificultam muito o escoamento da produção atual e a criação de mais rotas.”

Elis destaca também que a impossibilidade de reuniões amplas entre mulheres também foi um impacto fortemente sentido.

“A organização que temos enquanto movimento é direito conquistado e executado. A pandemia obrigou a gente a se reinventar. A gente quer continuar produzindo alimento saudável, distribuindo a produção e doando alimento para quem precisa. Mas não poder estar do lado das pessoas, não podermos nos organizar dificulta esse movimento. As redes de mulheres são fundamentais nas nossas lutas por direitos, e elas são mais um laço enfraquecido neste Brasil de tantas perdas, de um governo com descaso pela vida. É um processo dolorido em que só estamos perdendo direitos e pessoas. Mas nós não paramos. Até porque nem podemos.”

(Foto: Arquivo pessoal)

Vera Lúcia Assis, 60 anos, catadora de papel e uma das fundadoras da Ascajuf

Vera Lúcia de Assis, uma das fundadoras da Associação Municipal de Catadores de Papel e Materiais Reaproveitáveis de Juiz de Fora (Ascajuf), percebe nitidamente o dado nacional que aponta para o aprofundamento das vulnerabilidades de mulheres de baixa renda durante a pandemia.

“Tenho ajudado muito mais mulheres e famílias chefiadas por mulheres que estão em situação de rua. Eu mesma moro com um filho e minha neta Jamille, minha princesa. Mas em torno de mim tem muita gente que precisa de ajuda para sobreviver mesmo, com uma comida, uma roupa, e com a Covid eu tenho reparado cada vez mais mulheres em situação assim. E eu carrego pra mim, ajudo de todo jeito que posso”, diz ela, mãe de sete filhos, avó de 14 e bisavó de uma menina.

“Só posso ter esperança de verdade quando minha irmã de rua também puder ter”, diz Vera Lúcia Assis.

Moradora do Barbosa Lage, na Zona Norte, ela não parou seus trabalhos durante a pandemia, mesmo sob o risco de contaminação, e atua principalmente no núcleo da Ascajuf situado no Vitorino Braga.  “Meus filhos não dependem do meu trabalho diretamente, mas a nossa comunidade toda se ajuda. O trabalho de todo mundo conta muito e o meu também.”

Apesar de cansada com o acúmulo de funções e o trabalho dificultado pela pandemia, Vera não tem intenções de descansar ou diminuir o ritmo de suas atividades. “Só posso ter esperança de verdade quando minha irmã de rua também puder ter.”

Amanda Messias, 32 anos, publicitária, DJ e manicure

Quando tocou seu último set em março de 2020, a DJ Amanda Messias não esperava ficar tanto tempo longe das pistas ou precisar passar por uma reformulação em termos de moradia, configuração familiar, renda e profissão.

“Num dia eu toquei, e no próximo show já não havia previsão de quando o calendário cultural da cidade retornaria. Logo percebi que não poderia arcar com despesas de aluguel em um apartamento que dividia com uma amiga e fui morar com meu namorado para reduzir despesas. Também percebi que precisaria de uma outra fonte de renda, mas como mulher, negra e bastante tatuada, encontrei muita dificuldade para retornar ao mercado formal de publicidade em vagas remotas. Ia bem nos processos seletivos, mas quando chegavam as entrevistas era sempre eliminada. Sei que isso é uma realidade nacional, mas acredito que em Juiz de Fora isso acabe sendo muito evidente.”

As suspeitas de Amanda se baseiam na observação de outras mulheres negras próximas a ela que têm encontrado barreiras para (re)ingressso em trabalhos formais em setores que seguiram funcionando durante a pandemia, presencial ou remotamente.

“Como mulher, negra e bastante tatuada, encontrei muita dificuldade para retornar ao mercado formal de publicidade em vagas remotas. Ia bem nos processos seletivos, mas quando chegavam as entrevistas era sempre eliminada”, conta Amanda Messias.

“Mesmo dentro da minha bolha, que é privilegiada, o racismo aparece. O que observei foi que as meninas negras tiveram que tentar se reinventar de forma independente, empreender de alguma forma. Reparei que muitas passaram a trabalhar como trançadeiras ou manicures, por exemplo, e isso é uma forma de sobreviver em uma realidade em que a gente sabe das dificuldades que tem no mercado”, conta Amanda, que gastou cerca de R$8 mil só em materiais para improvisar um espaço de trabalho como manicure em seu apartamento, no Centro (próximo à Avenida Sete de Setembro), para evitar gastos com aluguel.

“Tive muita ajuda do meu pai para, e sei que muitas mulheres não têm essa opção. E ainda assim é difícil, porque é um risco de exposição mesmo com cuidados e com a situação financeira difícil para todas, fazer unha é uma das primeiras despesas que se corta. Mas eu não tenho outras pessoas que sustentar, que dependem diretamente de mim. Não consigo nem imaginar como está para as tantas mulheres nesta situação, num governo que não dá esperanças para que ela seja revertida.”

(Foto: Arquivo pessoal)

Mariana Paes, 35 anos, professora universitária

Entre picos de altíssima produtividade e períodos de apatia, Mariana, mãe de Ana Laura, acredita que este seja o momento de maior esgotamento mental, físico e generalizado desde que a pandemia teve início.

“Mesmo sendo muito privilegiada de ter estabilidade de emprego e de renda, ter meus pais saudáveis, dividir parte das funções com o pai da minha filha e não ter conflitos com ele, sinto que cheguei a um esgotamento. É um acúmulo de stress, cansaço, tristeza e uma indisposição profundas, aprendi até o nome da expressão para descrever esse estado, ‘lassidão’. E parece que é generalizado, pelo menos nos meus círculos, que não por acaso tem, de um lado, muitas mães solo de vários universos e muitas outras professoras e mães como eu”, diz ela, titular da Faculdade de Engenharia de Produção da UFJF.

Segundo Mariana, as dificuldades inerentes aos processos de ensino remoto escancararam o abismo de gênero entre professores e professoras universitárias.

“Por mais que a UFJF tenha conduzido muito bem todo o processo de retomada do ensino no modelo remoto, as desigualdades foram gritantes. E na Engenharia, a gente trabalha com um número muito maior de homens. Antes da pandemia, a gente estava isolada, sabia que em algum pontinho daqueles prédios existia uma outra mulher trabalhando como uma louca. Mas o ensino remoto trouxe uma necessidade desesperada de procurarmos umas às outras para nos ajudarmos e nos organizarmos. Não há condições de mulheres que acabaram de parir, ou grávidas, ou com filhos e sem qualquer rede de apoio possam ter a mesma disponibilidade e dedicação do que homens que ocupam o mesmo cargo. Como dar uma aula síncrona (ao vivo)? Essas aulas não são obrigatórias. Mas para homens, a justificativa, para um departamento, de que sua disciplina era ‘prática demais’ e não se adequaria ao ensino remoto era suficiente. Mas a de uma mulher de que não tem apoio para cuidar dos filhos não era suficiente. Com nossa organização, conseguimos mostrar aos departamentos – esmagadoramente masculinos – que não somos ‘uma ou outra’, mas dezenas de mulheres que representam condições femininas estruturais. Assim, coletivamente, fomos construindo melhores condições de trabalho, nos apoiando.”

“Não há condições de mulheres que acabaram de parir, ou grávidas, ou com filhos e sem qualquer rede de apoio possam ter a mesma disponibilidade e dedicação do que homens que ocupam o mesmo cargo”, diz Mariana Paes.

Também na outra ponta da educação, Mariana relata que talvez o maior desafio durante o isolamento tenha sido o acompanhamento e o suporte ao ensino da filha pré-adolescente.

“Há todo um discurso sobre empatia com todo mundo, mas muito pouca empatia com as mães. O ensino remoto foi massacrante para a gente, porque não se resume a Português, Matemática… Eu tenho que me preocupar se a minha filha está se desenvolvendo, para que não fique sedentária diante de uma tela, para que não fique deprimida longe do convívio social. É um trabalho constante, de estar 24 horas pensando no melhor que eu posso fazer e tentando fazê-lo, o que é consideravelmente mais árduo para as mães solo”.

Na visão de Mariana, Juiz de Fora pode ser especialmente cruel com essas mães no período de isolamento. “Existe um preconceito muito grande que talvez não seja tão evidenciado ou vivenciado em centros maiores. A pandemia acentuou a solidão das mães solo que contam muito umas com as outras como suporte emocional e na prática mesmo, porque somos muito a nossa rede de apoio: ‘fica com meu filho pra eu trabalhar?’ , ‘busca minha filha aqui?’ , e por aí vai. Mesmo em pandemia, tomando todos os cuidados, algumas vezes mantivemos, com menor frequência, esse apoio, porque muitas não têm outra opção”.

Sobre o futuro para as mulheres, a professora diz ter “mais esperança que confiança”.

“Estou sim otimista e acho que estamos no início de uma transformação para melhor, a longo prazo. Aqui em Juiz de Fora, por exemplo, estamos tendo um respiro com uma campanha de vacinação organizada e várias outras ações não só contra a pandemia, tudo num curto espaço de tempo. Aí vou olhar os comentários de notícias – não sei por que ainda faço isso – e vejo a prefeita sendo atacada por ser mulher, e apenas por isso. Misoginia explícita, declarada. Converso muito com a minha filha, e ela sempre me diz que a geração dela será diferente. Mas fico pensando sempre nos filhos de quem faz esses comentários, como estão sendo crescendo? Que futuro a geração de nossas meninas terá com as crianças criadas por essas pessoas?”

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