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Copa América no Brasil: ‘cruel, muito cruel’

 Januário de Oliveira, morto no último dia de maio do ano da desgraça de 2021, foi o primeiro “narrador de futebol de televisão” da minha geração. Antes, no princípio, era o Verbo, os de rádio: Waldir Amaral e Jorge Curi, principalmente. E era um ritual. Chegava a hora da partida, verificava-se a qualidade das pilhas e se retirava para o fundo do quintal, para ouvir as transmissões em paz.

Processo difícil “migrar” do rádio para a televisão. Eram muitos os fatores e as desconfianças. Jurávamos todos que “futebol no rádio era mais emocionante”, como se o som fosse mais importante que a imagem.

 Mas, “migramos”, todos. Por etapas, não se entregando totalmente, com ressalvas. Mesmo porque não era tão corriqueiro assim, como hoje, futebol na TV. Tinha-se a final do campeonato e o videoteipe (uma palavra que talvez nem se use mais, em nenhuma hipótese).

Mas, como disse, “migramos”, como se fosse um processo inevitável e um tanto dolorido – era o desconhecido. E o que os locutores de rádio diziam “você, ouvinte, é a nossa meta”. “Pensando em você é que procuramos fazer o melhor”.  Os de TV não diziam praticamente nada – como se estivessem fazendo um favor em nos dar a imagem. E o que os locutores de rádio diziam, para nos orientar: “O time A está à direita do seu rádio, consequentemente o time B vai atacar para a esquerda”. Januário de Oliveira quebrou o gelo, encurtou caminhos, resumiu em “Tá aí o que você queria: bola rolando no Maracanã”.   E só no Maracanã. Januário de Oliveira era tão especial que só narrava jogos do Maracanã – nunca o ouvi dizer “bola rolando em São Januário ou em Moça Bonita”.

 No entanto, não foi esse o bordão que mais chamava atenção. E nem o “é disso que o povo gosta” (o gol – que, creio, era um chiste de Carlos Imperial mostrando suas mulatas em outro programa de televisão). A mim particularmente era o “tá lá o corpo estendido no chão” (a falta). Por conta da canção de Aldir Blanc – desgraçadamente uma das primeiras vítimas da Peste.

Inevitável que a morte de Januário de Oliveira nos remeta imediatamente à canção de Aldir Blanc, que em sucessão nos remeta a uma Copa América no Brasil dos quase 500 mil mortos.

“De Frente para o Crime”, a canção, nos tempos românticos era  o Brasil pós-jogo narrado por Januário de Oliveira; em tempos sombrios é a alegoria de uma Copa América fora de hora. De um Brasil que precisa de reza e tem praga de alguém, de bares lotados, de discursos cínicos em CPI e mentirosos em redes sociais, dos camelôs da CBF nos vendendo emoções baratas e de corpos estendidos no chão. De um Brasil que precisa de vacina e de Governo. Mas não, nunca, jamais, em tempo algum, de Copa América. Até porque duvido que os sobreviventes da Peste contem aos seus netos, algum dia, que curtiu uma competição de futebol durante a pandemia.

Como diria Januário de Oliveira: “cruel, muito cruel”.