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O segundo motivo de orgulho dos armênios

Para ser um Estado independente, uma nação, é preciso um território, uma população, um governo e uma equipe nacional de futebol. Essa definição (de Pascal Boniface, disseminada por gente tão boa quanto Gilberto Agostino, Franklin Foer e Andy Dougan) explica porque o reconhecimento pelo presidente norte-americano Joe Biden do genocídio dos armênios pelo Império Otomano, ocorrido no início do século passado, é “apenas” o segundo motivo atual de orgulho dos descendentes dos massacrados. O primeiro é o espetacular e surpreendente desempenho de sua seleção de futebol nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022: primeiro lugar no grupo, à frente da poderosa Alemanha, da tradicional Romênia e da ascendente Islândia; três jogos e três vitórias, contra Liechtenstein, islandeses e romenos – os dois últimos triunfos em casa, no Estádio Republicano Vazgen Sargsyan (homenagem ao primeiro-ministro assassinado em 1999), em Erevã. Com público, que reagiu aos gols e às vitórias com um júbilo poucas vezes visto.

A Armênia (em guerra atualmente com os vizinhos do Azerbaijão, por um enclave na Região do Nagorno-Karabakh) fica na Ásia e joga as eliminatórias da Copa na Europa por um desses arranjos da FIFA. A FIFA tem mais filiados que a ONU não é à toa, pois entende muito mais de geopolítica que a ONU, e as mais fortes das ex-repúblicas soviéticas jogam as eliminatórias no continente europeu, como se fosse um consolo tardio, uma reparação por ter ajudado a sufocar por anos o futebol – portanto, a identidade nacional – dos países protegidos pelo manto da União Soviética.

Sempre houve (por parte dos ucranianos e georgianos, principalmente – provavelmente também dos armênios) um rancor pelo fato de a FIFA não ter bancado essa “inscrição independente” das então repúblicas soviéticas. A Federação aceita Inglaterra, Escócia, Pais de Gales e Irlanda do Norte (e não a Grã-Bretanha como um todo, como é obrigatório nas Olimpíadas), consegue que Israel nunca enfrente, nem por sorteio, países árabes, tem como filiados países pouco aceitos (como Palestina e Kosovo), e desfilia por motivos políticos (a Iugoslávia, por crimes étnicos; a África do Sul, pelo apartheid) mas foi, desde sempre, incapaz de desafiar o poder central de Moscou nessa questão específica.

Certo é que costuma acontecer de feitos esportivos andarem paralelos a fatos históricos relevantes

Um desafio, a propósito, de outra natureza, que apenas sete equipes de fora da hoje Rússia lograram fazer: vencer o campeonato soviético durante o período comunista. Um desses times, em 1973, foi o Ararat, da Armênia – Ararat, o nome do clube, sabem os bíblicos, é o monte avistado por Noé quando o dilúvio cessou, hoje localizado na Turquia, em uma região que já pertenceu à Armênia.

Ainda é cedo para dizer se os atuais jogadores da seleção armênia repetirão, em outra dimensão, o feito dos atletas do Ararat, e estarão na Copa. Mas certo é que costuma acontecer de feitos esportivos andarem paralelos a fatos históricos relevantes: os alemães ganharam a Copa de 1954 depois que foram aceitos como não nazistas (e não por acaso aquele time do Milagre de Berna, que só se reuniu para aqueles seis jogos daquela Copa, está na cena final de “O Casamento de Maria Braun”, de Fassbinder); A Grécia ganhou a Eurocopa depois de uma crise econômica sem precedentes quebrar o país, e o Leicester só foi campeão inglês quando os restos mortais de Ricardo III foram encontrados na cidade, que “adotou” o Rei – nunca bem visto pelo resto da Inglaterra. E até em outros esportes, como no futebol americano (prática que Joe Biden abandonou, para se casar com a esposa que perdeu na noite de Natal) isso acontece: os Saints de Nova Orleans só venceram o Super Bowl no rastro do furacão Katrina. 

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Paulo Thiago, morto no sábado (5 de junho), é talvez o cineasta mais subestimado do cinema brasileiro. Deixa pelo menos três filmes fundamentais para entender o Brasil profundo: “Os Senhores da Terra” (as histórias do jagunço Judas, contratado para matar um coronel do interior de Minas, e do engenheiro que sonha construir represas e destruir o meio ambiente); “Sagarana” (da lavra de Guimarães Rosa, um duelo literal entre o Forte e o Fraco) e “Policarpo Quaresma” (baseado em Lima Barreto, sobre um “herói” brasileiro patriota, louco e visionário).