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6 em cada 10 vacinados com comorbidades em Juiz de Fora atestaram alguma cardiopatia

A proporção elevada de doenças cardiovasculares nas pessoas vacinadas por comorbidades já era esperada, pois são doenças muito prevalentes na população (Foto: Carlos Mendonça/PJF)

Juiz de Fora vacinou 51.929 pessoas com comorbidades, que integram grupos prioritários para imunização contra a Covid-19, no período de 10 de maio a 30 junho. Entre elas, 6 em cada 10 atestaram algum tipo de cardiopatia. A grande maioria encontra-se na faixa etária de 40 a 60 anos. Em segundo lugar vêm os diabéticos, com 19% do total de vacinados. As informações são do sistema Open DataSUS, onde são armazenados dados do Ministério da Saúde sobre vacinação.

As comorbidades listadas pelo Plano Nacional de Imunização (PNI) como prioritárias na campanha de vacinação contra Covid-19 incluem doenças que atingem parte significativa da população, caso das cardiopatias e das diabetes. Casos renais, de obesidade e asma aparecem com prevalência menor no total. Ao todo, a estimativa do Governo federal é de que 17,7 milhões de pessoas de 18 a 59 anos que se enquadram nesse grupo sejam vacinadas.

Fonte: Open DataSUS (Arte gráfica: Camila Matheus)

Para o médico Mário Círio Nogueira, professor do departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), a grande concentração de cardiopatas entre os casos de comorbidades era esperada. “Esta proporção elevada de doenças cardiovasculares (incluindo aqui hipertensão arterial de difícil controle ou com complicações) nas pessoas vacinadas por comorbidades já era esperada, pois são doenças muito prevalentes na população, são as principais causas de mortalidade.”

Como essas doenças têm um risco aumentado de complicações e até mesmo morte pela Covid-19, o professor comemora o avanço da vacinação. “É muito bom saber que elas já estão vacinadas, pois as vacinas protegem principalmente contra o agravamento e a morte pela doença.” Ele chama atenção ainda para o fato de que a prevalência de doença cardiovascular é maior ainda nos idosos, que foram vacinados por idade no primeiro grupo prioritário.

Embora com os percentuais de comorbidades em patamares esperados e com os idosos vacinados em outro grupo prioritário, os dados disponibilizados pelo sistema Open DataSUS não permitiram analisar como está a vacinação nas áreas periféricas do município. Ao suprimir os três números finais do Código de Endereçamento Postal (CEP), o formato utilizado pelo Ministério da Saúde acabou comprometendo a segmentação geográfica mais detalhada.

Dessa forma, não foi possível mensurar o nível de acesso à vacinação pela população com comorbidades em áreas de maior vulnerabilidade. “Acredito que não deve ter tido (problemas), pois nessas áreas geralmente está presente a Estratégia de Saúde da Família”, avalia Mário Círio Nogueira.

Lei dos cuidados inversos

O Plano Nacional de Imunização considera as pessoas com algumas doenças pré-existentes como mais propensas ao agravamento de suas condições de saúde no caso de contraírem Covid-19, por isso devem ser vacinadas primeiro. O problema é que, em áreas periféricas, portadores de comorbidades quase nunca passam por um consultório médico ou são submetidos a exames para comprovar problema de saúde.

É o que o médico inglês Julian Tudor Hart definiu como a “lei dos cuidados inversos”. Há exatos 50 anos, ele publicou um artigo no periódico científico “The Lancet” em que fazia um alerta sobre o acesso à saúde: a população que mais precisa de cuidados é a que menos tem acesso; e quem menos precisa, recebe mais.

A questão foi retomada neste ano no Brasil pelo epidemiologista Paulo Lotufo. Segundo ele, o modelo de vacinação brasileiro privilegiou as idosas brancas e ricas, isoladas desde o início da pandemia, que já estão plenamente vacinadas. O problema é que isso “não bate” com as principais vítimas da doença.

O médico sanitarista Henrique Sater, doutorando em Saúde Coletiva, considera os critérios equivocados, com o processo de imunização priorizando hipertensos ou diabéticos e deixando de fora populações e territórios mais expostos ao vírus. Em artigo no portal Outras Palavras, ele explica que a decisão sobre quem deve vacinar primeiro parte de estudos hospitalares de mortalidade.

“Isso significa que estamos, no momento, igualando e colocando como centro da vacinação todas as comorbidades consideradas fatores de risco, com exceção dos grupos específicos denominados ‘vulneráveis’ (populações indígenas e quilombolas, prisioneiros, população em situação de rua, beneficiários do BPC, dentre outros).” Essa lógica, segundo Sater, acaba deixando para depois, por exemplo, “quem utiliza transporte público lotado e simplesmente não tem alternativa de ficar em casa”.

A saída seria pensar uma forma integrada de priorização a partir de dados clínicos, territoriais e socioeconômicos. “(Hoje) o controle da pandemia está sendo feito quase que exclusivamente a partir de um fantástico mundo dos fatores de risco e comorbidades, devidamente restringido pela escassez nacional da vacina e por passaportes carimbados com CRM”, conclui o médico sanitarista.