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Por que o sedentarismo pode se tornar uma nova pandemia junto com a Covid-19

O sedentarismo está por trás das principais comorbidades que podem agravar o quadro de Covid-19 (Foto: ginecomastia.org)

A falta de exercícios físicos compromete o bem-estar físico e mental, levando ao surgimento de doenças respiratórias e cardíacas, que por sua vez têm uma má evolução clínica quando em contato com o coronavírus. As comorbidades estão, em sua maioria, relacionadas a quadros prévios de sedentarismo. 

“O corpo foi feito para o movimento”, explica Letícia Maria Cruz, coordenadora do projeto Movimente-se VIP (MOVIP), da Faculdade de Educação Física e Desportos da UFJF. “Então se você deixa aquele corpo em inércia, parado, a tendência é que tudo também pare de funcionar”, completa. O alerta da pesquisadora – e também atleta, praticante de triatlo e jogadora de tênis -, vem como um reforço a um recente estudo publicado por ela e outros bolsistas integrantes do projeto MOVIP. 

No artigo “Prática de exercício físico, ingestão alimentar e estado de ansiedade/estresse de participantes do Projeto MOVIP em meio à pandemia de COVID-19”, os pesquisadores relatam a experiência remota com o projeto Movimente-se VIP (MOVIP). Durante três meses de 2020, de maio a junho, o grupo orientou e monitorou a prática de atividades físicas entre 99 alunos atendidos pelo projeto. Foram avaliados o interesse ou a falta de interesse na prática de atividade física, as motivações ou mesmo desmotivações para a prática ou inatividade física, além da ocorrência do aumento de ingestão alimentar, bem como de sintomas de estresse e ansiedade. Os resultados da pesquisa e o relato da experiência completos podem ser acessados no artigo publicado pela Revista HU

A pesquisadora Letícia Cruz é praticante de triatlo e jogadora de tênis: “O corpo foi feito para o movimento” (Foto: Gustavo Tempone/UFJF)

Em entrevista a O Pharol, Letícia explica que a iniciativa de adaptar o projeto para formato remoto e virtual veio a partir de uma demanda dos próprios alunos, que relataram alguns problemas na adaptação ao distanciamento e isolamento social. “Como a gente tinha um contato direto no WhatsApp com essas pessoas [os alunos], o pessoal falava assim: ‘Nossa Letícia, agora que o projeto parou, você não sabe como eu estou engordando. Eu estou muito ansiosa, comendo demais’. E aí foi um gatilho que nós tivemos”, relata. A partir das primeiras mensagens, a equipe se dedicou a conversar com os alunos para verificar se a situação era comum entre eles. “A gente viu que não, que a maioria das pessoas, 66% dessas pessoas, estavam aumentando a ingestão alimentar, estresse e ansiedade. Começamos a perceber, quando paramos para formular o artigo e dialogar com a literatura, que isso estava global. Não era só com o pessoal do MOVIP em si”, explica. 

Em revistas especializadas, como a da Sociedade Brasileira de Cardiologia, é comum encontrar artigos discutindo a importância da atividade física, especialmente no contexto da pandemia do novo coronavírus. Há um debate sobre a forma mais adequada de abordar o tema com a população e também sobre qual seria a melhor maneira de se recomendar a prática diária – considerando que o distanciamento físico continua sendo uma orientação de medida preventiva.

O cardiologista e médico do CTI Covid da Santa Casa de Juiz de Fora, Sérgio Pontes, explica que “o exercício moderado e frequente tem benefícios pleiotrópicos, sociais e baixo custo, sendo essencial à saúde coletiva”. A própria Organização Mundial de Saúde (OMS), preocupada com os impactos do sedentarismo e da inatividade física à população, publicou, em 26 de novembro de 2020, novas orientações sobre a prática de atividades físicas e comportamento sedentário. O guia, que pode ser acessado em inglês, orienta a frequência de exercícios para cada faixa etária, incluindo pessoas portadoras de deficiências, gestantes e puérperas. 

A OMS chama atenção ainda para o risco de uma pandemia (o sedentarismo), dentro de outra pandemia (a Covid-19). De acordo com a instituição, cinco milhões de mortes poderiam ser evitadas por ano, se a população fosse mais ativa. Como alerta o cardiologista Sérgio Pontes, os fatores são inversamente proporcionais. “Um ponto interessante de equilíbrio é o comportamento de curva em U, onde os extremos (sedentarismo e estresse físico demasiado) estão relacionados a piores desfechos imunológicos”. 

De acordo com a OMS, cinco milhões de mortes poderiam ser evitadas por ano, se a população fosse mais ativa

Considerando o comportamento sedentário, o médico destaca seus principais impactos na saúde humana. “O sedentarismo traz consigo ganho ponderal, com acúmulo de substâncias nocivas como radicais livres oxidativos. Contribui para desenvolvimento de hipertensão, diabetes, dislipidemia, hipotrofia muscular, rigidez articular, baixa imunidade, depressão, ansiedade, queda do libido, dentre outros prejuízos ao corpo humano”.

Assim, o sedentarismo pode ser considerado um desencadeador das principais comorbidades da Covid-19, já que, como explica Pontes, “está diretamente relacionado ao desenvolvimento de fatores que determinam grupos de risco de má evolução clínica na ocasião da infecção pelo coronavírus”. Isso porque “diabéticos, hipertensos, obesos e imunodeficientes têm piores desfechos pela propensão à síndrome respiratória aguda grave, causada pelo vírus”, destaca o médico do CTI Covid da Santa Casa de Juiz de Fora. 

Para Letícia Maria Cruz, coordenadora do projeto MOVIP, com a pandemia da Covid-19, os problemas como sedentarismo e obesidade se tornaram ainda maiores, “uma bola de neve”. “Antes mesmo da pandemia, a obesidade e o sedentarismo já eram umas das maiores epidemias mundiais, e acredito que com a Covid isso só piorou. A pessoa está em casa, ela está comendo mais, está mais ansiosa, ela está sem perspectiva de futuro, muitas pessoas perderam o emprego. E aí vira uma bola de neve de fato.”

Mal-estar invisível

O termo “comorbidade” saiu do jargão médico e caiu nas buscas do Google quando os estudos científicos começaram a demonstrar que existem algumas doenças que agravam o quadro de infecção causado pelo vírus da Covid-19. A comorbidade representa um risco “extra” ao organismo, quando há o diagnóstico de duas doenças em simultâneo – por exemplo, uma pessoa asmática que contrai o novo coronavírus. 

No caso da Covid-19, são consideradas comorbidades as doenças pulmonares e cardíacas, como a hipertensão; as doenças cardiovasculares; a diabetes; a obesidade e as imunodeficiências. Em Juiz de Fora, de acordo com o perfil epidemiológico disponibilizado pela Prefeitura, estima-se que pelo menos 810 dos 869 pacientes que faleceram por Covid-19 até 10 de março de 2021 eram portadores de uma ou mais comorbidades. Entre os principais fatores de risco registrados no município, estão a doença cardiovascular crônica (53,95%), a hipertensão (42,47%) e a diabetes (39,51%). 

Os números assustam e também justificam a alta procura pelas vacinas contra a Covid-19, disponibilizadas prioritariamente também para os portadores de comorbidades em Juiz de Fora, conforme o Programa Municipal de Imunização contra a Covid-19. Em matéria recente d’O Pharol, apuramos que 06 em cada 10 vacinados possuem pelo menos uma comorbidade, chegando ao número de 51.929 pessoas imunizadas entre 10 de maio e 30 de junho de 2021. “Esta proporção elevada de doenças cardiovasculares (incluindo aqui hipertensão arterial de difícil controle ou com complicações) nas pessoas vacinadas por comorbidades já era esperada, pois são doenças muito prevalentes na população, são as principais causas de mortalidade”, explicou o médico Mário Círio Nogueira, professor do departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). 

Fique em casa, mas não fique parado

Na tentativa de frear o aumento do número de pessoas sedentárias, e visando alcançar a meta do Plano de Ação Global da OMS que propõe uma redução de 15% do sedentarismo até 2023, a instituição atualizou suas diretrizes sobre atividades físicas e comportamento sedentário em novembro do último ano. As novas orientações consideram também o contexto do isolamento social. “Recomenda-se a prática de 150 minutos semanais de exercício aeróbico, de moderada intensidade, para proteção orgânica. Isso seria 30 minutos ao dia, cinco vezes na semana”, explica o cardiologista Sérgio Pontes, alinhado às diretrizes da Organização Mundial de Saúde. 

Durante o distanciamento social, o MOVIP adaptou suas atividades para o formato remoto. Além das orientações via WhatsApp para os alunos, os instrutores também disponibilizaram no Instagram do projeto (@movimentesevip) alguns vídeos com sugestões de exercícios físicos para serem praticados em casa. Neste, a coordenadora Letícia Cruz apresenta uma sequência para trabalhar a mobilidade. (Fonte: Reprodução/@movimentesevip)

Para começar, médicos e educadores físicos sugerem exercícios simples e práticos, que possam ser feitos em casa, ou ao ar livre. “Não tem nada melhor do que você utilizar o ambiente à sua volta. Então não necessariamente precisamos de academia, aparelhos, barras, anilhas, para que a gente possa fazer o nosso corpo se movimentar. O simples fato de você levantar e se sentar em uma cadeira algumas vezes, agachar, levantar, pular, saltar, movimentar os braços, isso já é um processo de atividade física”, orienta o educador físico Leonardo Cipriano, que também atua como personal trainer, instrutor de yoga e de esportes radicais de aventura. 

Nesse sentido, a coordenadora do projeto MOVIP Letícia Cruz recomenda a caminhada como uma boa forma de começar a praticar atividades físicas, porém ressalta também a importância da orientação profissional antes de iniciar os treinamentos: “Acredito que o exercício em casa tem que ser orientado de alguma maneira, ou por um profissional em particular, ou em algum grupo de pessoas que estão fazendo atividade física em conjunto”, comenta. 

Cuidar do corpo é essencial 

Em um vídeo especial do canal do médico Dráuzio Varella, o sedentarismo é definido como “o pai de todos os males”, em referência à sua relação com o desenvolvimento de outras doenças. Ao final, de forma até inesperada, o médico dá uma “bronca” no próprio público. “Se você tem um dia que não te permite 20, 30 minutos para fazer exercício, você está vivendo errado, você não está levando em consideração o seu corpo. E o seu corpo é a coisa mais importante da sua vida. (…) Sem o corpo você não tem filho, você não tem trabalho, não tem pai e não tem mãe”, enfatiza. 

Longe de tornar o apelo à prática de atividade física como mais uma fonte de culpa, o objetivo é lembrar que a manutenção da saúde física também é importante, e forma um dos pilares para uma vida melhor e mais saudável. O educador físico Leonardo Cipriano considera que os benefícios estão relacionados ao bem estar físico e mental, pois com a prática de atividade física “[a pessoa] desenvolve bem estar, ânimo, se sente cada vez mais empolgada para a sua rotina funcionar de uma forma melhor. Então, a atividade física não foi desenvolvida só para você ganhar força, emagrecer, se sentir bem como o seu corpo estético, e sim, de uma forma geral, ela foi feita para auxiliar em toda a sua vida saudável”. 

Especialistas orientam para prática de exercícios que despertem prazer e engajamento (Foto: Leonardo Costa)

O cardiologista Sérgio Pontes lembra a importância de se manter ativo. “O exercício é fundamental na proteção à saúde em diversas perspectivas, seja orgânica ou mental”. No contexto da pandemia da Covid-19 e do distanciamento social, Pontes ressalta que garantir a manutenção da prática de atividade física “é fundamental não só para redução de doenças crônicas, bem como para prevenir desfechos por infecções em geral. Manter o corpo ativo, melhora a mente e ‘espanta’ o vírus”, orienta.

“A minha dica para manter uma qualidade de vida, para se manter ativo, é realmente procurar um exercício que você goste de fazer, prazeroso de uma certa forma, e que traga engajamento”, orienta Letícia Cruz, a coordenadora do projeto MOVIP e praticante de triatlo.  “Se você não tiver engajamento com aquela prática, a tendência é que você não continue. Então persistência para continuar e colocar como prioridade de vida. Tenho certeza que o corpo agradece”.