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Do lado de fora

Quando o poetinha, do alto de sua simples genialidade, escreveu que “a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida” talvez não imaginasse que a ressalva do coração viria a ser um dia conceito pragmático de obras públicas voltadas para o afastamento e a exclusão sistematizada de diferentes. Ao ler a consistente reportagem da amiga Flávia Lopes para O Pharol, sobre a arquitetura hostil de nossas cidades, especialmente de Juiz de Fora, não pude deixar de pensar em Vinícius e de refletir sobre qual sentido estamos dando para nossas interações com o outro, com o tempo e com o espaço.  

Zygmunt Bauman, em Modernidade Líquida, fala do projeto do arquiteto inglês George Hazeldon, de criação do Heritage Park, uma cidade do futuro, protegida por muros, cercas elétricas, vigilância eletrônica, barreiras e guarda fortemente armada. Uma fortaleza, habitada por pessoas de mesmo padrão social, e provida de todo o aparato de diversão, consumo e trabalho “necessários” aos moradores, que poderiam passar boa parte da vida ou toda ela dentro dos portões desta terra prometida sem terem noção do que acontece do lado de fora.

Alguns pilares sustentam a ideia do Heritage: a sensação permanente de medo da violência e da rebeldia do outro, do diferente, do que não pode estar ali; a venda de todo tipo de segurança como uma das garantias do paraíso permanente; e a determinação, pelo sistema de planejamento e controle local, portanto externa à vontade de cada um, do que é preciso para se sentir feliz. Neste caso, o agrupamento de indivíduos de padrões e expectativas similares formaria uma “comunidade” de “pessoas certas” para aquele lugar.

Estamos do lado de fora, precisamos de encontros e desencontros com os outros, os diferentes, os expulsos dos viadutos, os que conseguem ter alguma civilidade.

O que vemos hoje nas grandes e médias cidades é a arquitetura hostil, tão bem descrita na reportagem da Flávia, como braço de um sistema ainda mais duro, voltado para a hostilidade das relações. No Brasil, temos condomínios num espaço-tempo longe-perto dos grandes centros de trabalho, cercados de segurança e com transporte público precário (para os empregados para os quais ali é longe). Há ainda a elitização do lazer – vide os estádios padrão Fifa, o auge da descaracterização que teve como um dos marcos iniciais o fim da “geral” no Maracanã -; e a subtração de espaços de convivência livres, como a extinção do campo da Curva do Lacet para atender a um shopping; ou mesmo o afastamento dos desfiles de Carnaval da região central, estes últimos em Juiz de Fora. “A cidade não pode parar” e isto implica em inibir ou mesmo extinguir a presença de “eventos e pessoas estranhas” a uma rotina dirigida para o trabalho e o consumo. 

Richard Sennett descreve “uma cidade como um assentamento humano em que estranhos têm chance de se encontrar”. Aqui a obra do sociólogo dialoga com a do poeta. Se Vinícius vê na arte do encontro a essência da vida, enquanto lamenta os desencontros; Sennett, por sua vez, diz que os encontros entre estranhos são justamente os desencontros, pois diferentes de algo marcado com parentes, amigos e conhecidos. Nossa civilidade deveria ser então capaz de transformar tais desencontros em reciprocidade amistosa e colaborativa entre grupos e indivíduos. Mas caminhamos na direção contrária.

Ao definir quais são as “pessoas certas” para estar em determinados locais, com políticas privadas e públicas de exclusão das “pessoas erradas”, os gestores transformam encontros em não-encontros, lugares em não-lugares, desconfortáveis para qualquer diferente que tente ali permanecer. Desta forma, jardins, parques, praças e até mesmo praias são receptivos a apenas determinados grupos que, no fundo, são não-grupos, a reunião artificial de potenciais consumidores. Vivemos atrás das grades que falsamente nos “protegem” e não nos damos conta de estar mais próximos das “pessoas erradas” que cercamos e não daquelas aspirantes aos Heritage Park tropicais. 

Estamos do lado de fora, precisamos de encontros e desencontros com os outros, os diferentes, os expulsos dos viadutos, os que conseguem ter alguma civilidade. E, mesmo em meio à vociferação contra manifestações democráticas, tendo como um dos argumentos a interrupção por algum tempo da fria rotina programada das “pessoas certas”, resta-nos fazer da esperança a essência, a arte, o pulsar, a vida, antes que tirem de nossos velhos e de nós mesmos a chance de uma partida de xadrez na praça, rodeados de amigos ou de desconhecidos que por ali param e somem para nunca mais.