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Colunas

O despertar de Lázaro

A Ressureição de Lázaro, pintura de Giotto di Bondone (1267 – 1337)

Se na Itália todos os caminhos levam a Roma, em Minas Gerais a maioria dos cata-jecas leva a Belo Horizonte. Por isso, quem precisa se deslocar entre extremos do estado, com a capital no meio, raramente tem outra opção além de enfrentar essa epopeia mineira cujo nome causa calafrios nos espíritos mais destemidos: baldeação de cata-jecas. É a procissão dos moídos que serão remoídos.

Fui um deles, durante os três anos em que viajei entre Diamantina e Juiz de Fora. Sem alternativa direta, seguia para a rodoviária de BH, um prédio que, só de lembrar, já experimento imenso cansaço. Um cansaço que – nos dias em que precisava permanecer por mais tempo – comumente se metamorfoseava em irritação. O motivo: meia dúzia de gravações com mensagens repetitivas, vozes que de cinco em cinco minutos atravessavam o Aqueronte para assombrar o local, tornando quase impossível qualquer tentativa de tirar um cochilo.

Quase é a palavra certa, pois quando a estafa era tamanha, nem mesmo os corvos do caminho torto tinham o poder de me manter desperto. Necessário seria que falassem noutro timbre, que cantassem outra canção.

“Cristiano! Cristiano! Acorda, Cristiano!”

O chamamento trovejava repetido, sem admitir que eu o ignorasse. Por mais que meu cérebro tentasse encaixá-lo no enredo de um sonho, a voz continuava a me convocar de volta ao mundo exterior.

Dei-me por vencido e, a contragosto, levantei as pálpebras lentamente. À minha frente, na fila de bancos outrora vazia, uma mulher brincava com uma menina de uns oito anos. Ao lado delas, um homenzarrão, vestido num terno que parecia apertado, abriu um sorriso e afirmou satisfeito: “Finalmente acordou!”

“Perdão”, respondi, ainda sonolento e mal humorado com o cochilo perdido, “mas quem é o senhor? Como sabe meu nome?”

O sujeito soltou uma gargalhada e afirmou:

“De fato, depois que eu despertei, você nunca me viu!”

O sorriso continuava no rosto do homem e eu aos poucos fui refazendo aquelas feições na memória. Comecei a abrir a boca de estupefação…

“Lázaro???”

“Hahaha! Há muito tempo ninguém me chama assim!”

Sob o olhar complacente da mulher e da menina, que pareciam conhecer-lhe os rompantes, ele saltou para sentar-se ao meu lado. Em meio a esse movimento, ressurgiam as lembranças de uma festa de república, um dia no passado distante em que o vimos beber tanto que apagou às cinco da tarde. A festa continuou noite adentro. Sete da manhã, quando o sino da Catedral começou a ribombar, chamando os fiéis para a missa, ele levantou com a cara toda amassada, perguntando as horas, pois a mãe o esperava para jantar.

Logo, um gaiato respondeu…

“Que janta? São sete da manhã. A missa vai começar. Tá igual Lázaro. Jesus te acordou com a autoridade da voz. No caso, do sino! Vai para casa tomar café da manhã, Lázaro!”

Todos rimos enquanto ele disparava pela porta, sem se despedir. E o apelido pegou.

Mais de dez anos correram. Era outro o homem que tinha diante de mim. Entretanto, continuava falastrão e afobado. Pedia notícias, escutava as respostas, comentava e, num só fôlego, emendava outra pergunta. Até que o interrompi:

“De mim já falamos. Quero saber de você. Que despertar foi esse? Certamente não foi o daquele dia, em que a turma te rebatizou.”

“Hahaha! Foi não, batuta!”, replicou, me chamando pela palavra com que costumava definir todos os amigos. Ao que parece, eu continuava sendo um.

“Depois que vocês foram seguindo rumo”, continuou, assumindo um ar acabrunhado, “eu fiquei. E a bebida, que já tava demais, caiu no descontrole. Vivia de porre em porre. Sem sonho, sem nada.”

“Só parei quando a mãe adoeceu. Aí, foram meses sem uma gota. De consulta em consulta, hospital em hospital. Ela morreu feliz, achando que eu tinha me curado.”

“Mas a mãe tava errada”, asseverou, com lágrimas nos olhos, “pois uma semana depois eu tava tão triste que tomei um porre. Aí, foi ladeira abaixo. Sem mãe, sem ninguém, eu só bebia. Perdi o emprego, vivia na sarjeta.”

“Até que um dia acordei na cama, banho tomado, sem saber como tinha chegado lá. Da cozinha vinha cheiro de café. Cheguei, tinha um senhor lá, dizendo bom dia. Era o pastor Carlos. Pastor Carlos é batuta.”

“Mas, naquela hora, briguei. Xinguei, disse que era invasão de domicílio. Que era um desrespeito ter me dado banho.”

“Sabe o que ele respondeu?”, indagou, arregalado. “Disse que era um desrespeito mesmo um velho ter que dar banho num jovem saudável. Que a hérnia de disco iria doer por um mês. E que não era invasão de domicílio porque quem tinha dado a chave e autorizado ele a entrar tinha sido minha mãe.”

“Minha mãe, batuta! Minha mãe!”, repetiu, enquanto eu pedia explicações.

Minha mãe disse que era para eu ir comer, que se morresse de fome, não ia ter tempo para virar gente.

“Pastor Carlos disse que encontrou a mãe no hospital por acaso, num horário em que eu não tava lá. Eles se conheciam há muito tempo. A mãe fez ele prometer que, se eu tivesse uma recaída, iria cuidar de mim. Tinha até carta, batuta! Esculachando comigo e dizendo que, até eu tomar jeito, o Pastor Carlos estava autorizado a fazer o que fosse necessário. Mesmo voltando para Deus, a mãe ainda olhou por mim. Mas brigando, você sabe como a mãe era.”

O homem estava com os olhos marejados.

“Acredita que ainda teimei? Aceitei a contragosto a ordem da mãe. Mas disse que não ia a igreja nenhuma. Sabe o que ele respondeu? Que não tava ali arrebanhando fiéis, mas cumprindo a promessa que fez a uma amiga. Pastor Carlos é batuta!”

Lá fora, os primeiros raios de sol atravessavam a névoa da manhã. Dentro, o fluxo de pessoas aumentava. Viajantes apressados, cheios de malas, povoavam nosso olhar. Lázaro continuou:

“Os anos se passaram. Nunca mais bebi. E acabei indo para a igreja. Até porque, meu segundo pai tava lá.”

“Mas não acaba aí. Tá vendo minha esposa, a Maria?”, arguiu, apontando a moça no banco da frente, que respondeu com um sorriso. “A Maria é filha do pastor Carlos!”

E continuou a história, falando das lutas e alegrias acumuladas por aqueles anos. Disse que o começo do casamento foi difícil, pois queriam uma criança, mas ela não vinha. “Até que Pastor Carlos falou: ‘Meu filho, se nosso terreno não está produzindo as próprias sementes, talvez seja Deus pedindo que olhemos pelas rosas arrancadas, que murcham sob o Sol'”.

“A Aninha já tinha três anos quando se tornou nossa filha. Encheu a casa de luz. E você acredita que agora, quando ela tá pra fazer nove, a Maria tá grávida? Pastor Carlos chorou. Falou que as rosas que transplantamos para nosso quintal adubam o terreno, para que sementes possam germinar.”

Seguimos conversando por um tempo, rindo das histórias do passado, dividindo notícias. Até que a voz do além ecoou na rodoviária, informando que faltavam dez minutos para a partida de meu ônibus. Nos despedimos com abraços apertados. Trocamos contatos. E me dispus a partir.

Quando eu já estava descendo a escada, ele me chamou. Respondi, sorrindo:

“Diga, Lázaro!”

“Lembra aquele dia em que vocês me deram esse apelido? Pois é, quando cheguei em casa, a mãe tava brava como nunca. Daquele tamanico, correu atrás de mim com uma vassoura, dizendo que passou a noite em claro. Me tranquei no quarto, que a velha tinha mão pesada.”

“Meia hora depois, bateu na porta. Disse que era para eu ir comer, que se morresse de fome, não ia ter tempo para virar gente. Enquanto eu tomava café, me deu um beijo na testa. Uma lágrima dela pingou no prato. Naquele dia, pela primeira vez, tive vontade de mudar. A mãe era batuta!”

“Então, Cristiano, lembra de uma coisa: quando o sino tocar, ao despertar, mesmo se achar que perdeu a hora, corra o quanto puder. Quem te ama vai estar bravo contigo, meu amigo, mas te esperando.” Ainda arrematou: “Vai com Deus!”

Enquanto eu descia a escada, agarrada no pescoço do pai, a Aninha abriu um sorriso. Dois dentes de leite haviam caído.

Aboletei-me no meu lugar. Dormi antes mesmo do cata-jeca partir. Sonhei com campos de rosas.

Hoje, quando vejo governantes e outros cristãos insensatos comemorando o cancelamento do CPF de Lázaros falhados, apontando corrupções do mundo e negligenciando a que campeia no próprio quintal, lembro de meu amigo Lázaro, transformado, tão luminoso. Ele diz baixinho, na minha consciência, que a luta, mesmo, não é com o mundo, é comigo. E, sempre que me vê claudicante, cambaleando, ele grita: “Cristiano! Cristiano! Acorda, Cristiano!”