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Holofote

Medo dos blindados? Por que Júlio Delgado e Charlles Evangelista votaram pelo voto impresso?

Não, as eleições de 2022 não acontecerão com cédulas de papel depositadas em urnas de papelão colocadas sobre velhas cadeiras. O tempo das intermináveis apurações não vai voltar para alegria dos servidores da Justiça Eleitoral. Caso seja derrotado em seu projeto de reeleição, o presidente Jair Bolsonaro saberá do resultado antes do noticiário das 22h do dia eleição.

De nada adiantou os blindados na rua, as ameaças e as motociatas. O plenário da Câmara dos Deputados rejeitou a Proposta de Emenda à Constituição 135/19 – PEC do voto impresso – com 218 votos contrários. Houve ainda 229 votos a favor e uma abstenção. Para a proposta avançar, eram necessários votos favoráveis de 308 parlamentares.

Estavam presentes na votação 449 deputados dos 513 eleitos com voto eletrônico em 2018. Entre eles, Charlles Evangelista (PSL) e Júlio Delgado (PSB), segundo e terceiro colocados, respectivamente, na disputa em Juiz de Fora. A primeira colocada foi Margarida Salomão (PT), que renunciou para assumir a Prefeitura.

Mas o que levou a bancada juiz-forana a votar em peso de forma favorável à PEC do voto impresso?

Júlio Delgado é bem taxativo: “Nunca defendi voto impresso. Imprimir voto para que a pessoa possa enxergar e depois chantagear o outro?! Até no voto secreto você já tem medo de alguma forma de verificação. O que eu defendo é auditagem pela Justiça Eleitoral”.

Júlio Delgado: “Tentando aperfeiçoar o texto para ampliar a auditagem” (Antonio Cruz/Agência Brasil)

Deputado, não foi essa a proposta colocada em votação. “A proposta do presidente Bolsonaro, aquele que não trabalha, era inverossímil. Não tem jeito de você fazer voto impresso em todas as seções e apuração no local de votação. Então, a gente estava tentando aperfeiçoar o texto com os destaques que fiz para levar à ampliação da auditagem.”

Mas a auditagem já acontece. “Já acontece hoje em cem urnas em um universo de 440 mil urnas. Isso é feito por resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O próprio ministro (do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso) admite ampliar um pouco isso, talvez para 500 urnas.”

Então o TSE pode fazer essa ampliação? “Sim, mas eu defendia que a gente tivesse 5.475 para ter uma urna auditada em cada município. Para quê? Para aumentar a confiabilidade. Os técnicos de programação dizem que uma amostragem científica está em torno de 2%. Isso que eu defendia é apenas 1%.”

Mas derrotar o presidente que, como o senhor disse, “não trabalha”, não seria mais importante no atual momento? “Não se trata aqui de derrotar o Bolsonaro. Ele já está derrotado. Vai perder as eleições e não será por causa do voto impresso. Vai perder porque não cuidou da pandemia, deixou as pessoas morrerem. Vai perder porque não trabalha, não cuida do Brasil na área ambiental, na área de informática, na área educacional, na área cultural.”

E quem vai ganhar?  “Vejo que em 2022 nós teremos outros personagens que não essa polarização que quer continuar e que eu me recuso a admitir”.

Charlles, com a derrota em plenário, a cruzada pelo voto impresso acaba? “Sim. Acho que isso não volta mais, mesmo porque temos coisas mais importantes para nos ocupar. O país precisa voltar a crescer, precisa de trabalho, de emprego.”

Charlles Evangelista: “Tudo que tem um comprovante, que pode ter uma conferência, obviamente gera mais confiança” (Foto: Luiz Santana/ALMG)

Mas foi o presidente Bolsonaro que trouxe um tema periférico para o centro do debate. “Pode se discutir essas questões, mas a coisa ganhou uma proporção absurda, com uma turma do lado de cá e outra do lado de lá. Voto impresso e auditável não tem que ser uma bandeira de direita ou de esquerda ou de terceira via ou de Bolsonaro. Isso na verdade tem que ter a consciência de que, quanto mais segurança para as pessoas, melhor.”

É a sua bandeira? “Sou totalmente favorável ao voto impresso e auditável. Tudo que tem um comprovante, que pode ter uma conferência, obviamente gera mais confiança. O sistema vai ficar aí por muitos e muitos anos, independentemente do governante, se de direita ou de esquerda, então acho que tudo que a gente puder fazer para poder dar mais segurança é bem-vindo”.

Caso aprovado, seria um processo caro, algo próximo de R$ 2,5 bilhões, segundo estimativas do TSE. “Para fortalecer a democracia, vale. O preço é caro? É caro, mas há tanto dinheiro sendo gasto com besteira, com tanta roubalheira. Por que a gente não pode fazer uma coisa para poder trazer mais segurança?”