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Colunas

Os olhos e as estrelas

Atrações do Festival, o Palhaço Gibinha - que tentou fugir de Matias para o circo - na companhia do Palhaço David - que se aposentou do circo para viver em Matias (Foto: Arquivo pessoal)

Naquela segunda-feira, mais uma vez o velho astrônomo subiu a colina para admirar as estrelas. Lentamente, foi arrumando seu telescópio. Lá embaixo, a pequena cidade se movimentava. Dois palhaços giravam, pulavam e cantavam.

– Loucos – disse o astrônomo – prefiro minhas estrelas.

E se perdeu em outros mundos.

Enquanto isso, a cidade acontecia. E um filósofo – quem diria? – descia do pedestal da ciência para reverenciar o palhaço.

Nos dias que se seguiram, a arte de novo deu as caras. Da mesma forma, o velho astrônomo seguidas vezes subiu a colina para admirar as estrelas. Pela lente de seu telescópio, penetrou em galáxias, estrelas, cometas, planetas, luas…

Perdido nas maravilhas do alto, não percebeu que, a seus pés, algo mágico acontecia. Era a criatividade humana se condensando em pinceladas sobre uma tela, em esculturas, em versos de poemas, em passos de dança, em peças de teatro.

E pobre do astrônomo que não viu Lamartine fazer carnaval em julho e nem Jesus Cristo menino de rua. Que não sonhou sob os compassos da valsa e nem vibrou ao som de um tango. Que não se perdeu nas cores de uma tela. Que não viu a arte quebrar a barreira da língua.

Mas como a magia a todos alcança, houve um momento em que um brilho intenso envolveu o astrônomo. Irado, ele gritou:

– Quem ousa ofuscar meus astros? E olhou para a cidade lá embaixo.

Ainda sem entender, viu, numa praça, umas pessoas vestidas de forma esquisita, pulando sobre uma velha lona. Em volta destas pessoas, uma pequena multidão estava reunida. A um canto, escondida, uma criança sorria. Sorria com a boca, com o corpo, com a alma. E seus olhos brilhavam mais que qualquer estrela jamais vista.

* Texto produzido em julho de 1998, por ocasião do 1° Festival Cultural de Matias Barbosa. O evento contou com a participação do filósofo Tiago Adão Lara e de grupos teatrais nacionais e estrangeiros, com apresentações em clubes e praças da cidade. Houve também exposições de arte, saraus, entre outras atrações. O Festival continua a ser realizado e já soma mais de vinte edições.