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Quando florescem os ipês

“Se eu tiver que ficar nu/ hei de envolver-me em pura poesia,/ e dela farei minha casa, minha asa,/ loucura de cada dia…” Vander Lee (Foto: Roberto Parizotti)

Setembro se anunciou, na rua da minha casa, com as flores dos ipês. Como se o sopro do criador ali houvesse bafejado, as garras ressequidas – antes içadas aos céus como mãos em desespero – coloriram-se de amarelo, qual um monge chinês, vestido para celebrar a plenitude. E sobre o tapete que já cobria o chão, reencontrei pai e filha, vizinhos anônimos que às vezes ali passeiam, nas manhãs, à hora onírica de minha saída. O triciclo da menina avançava devagar, rangendo sobre a calçada, enquanto algumas flores caíam e, no horizonte, o sol anunciava a proximidade da primavera…

O ipê, não só pelas leituras de Ganymedes José, sempre foi uma de minhas árvores preferidas. Certamente não goza da fama que tantas outras, mas não conheço nenhuma além dele que – de maneira tão pujante – proclame, ao mesmo tempo, a vitória da vida e da poesia. E olhem que várias deram sombra e sonho ao espírito dos homens…

A mais famosa, decerto, é aquela em torno da qual teria ocorrido o começo de tudo. Pivô do pecado original narrado nos devaneios infantis da humanidade, ela traz à memória muitas coisas. Desde as dificuldades de uma espécie que aprendeu a manejar a razão sem amadurecer o coração – tornando-se cega para o paraíso que herdara – até a moça bonita e sorridente, com vestidinho de chita e pintinhas maquiadas no rosto, a oferecer uma maçã do amor enquanto uma fogueira de São João crepita ao fundo, numa noite fria e enluarada de junho…

No entanto, se os rebentos de uma árvore foram pivô de tanto escândalo, a falta dos mesmos em outra não geraria menos debates. A figueira, por não dar frutos, seca de todo. Semente que não vingou, luz que não brilhou sobre a montanha, ela é a vela que se apaga sem iluminar qualquer caminho. Símbolo de todas as vezes em que o sal, podendo, não salgou, dos talentos desperdiçados nos caminhos e descaminhos da vida.

Talvez esteja aí o encanto do ipê. Gosto de imaginá-lo como a figueira seca que mergulha fundo em si mesma, buscando forças para renascer em flores, misto de poesia e oração. Nele reencontro a encarnação de tantos Van Goghs e Hugos que, sem forças para mudar o mundo, explodiram em arte por um novo mundo.

E – vejam só! – depois de lançar aos céus suas flores, o ipê recebe de volta o verde. Seria isso uma redenção? Talvez. Uma doce promessa da natureza, a nos infundir coragem para que, apesar das tempestades, façamos primavera de nossas vidas, lançando pétalas aos céus, garrafas ao mar… Para adornar nossa casa, transformá-las em nossas asas, nossa poesia…

* Texto originalmente publicado em setembro de 2007.

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