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Colunas

A verdade está lá fora

Com exigência de vacina e sem estar imunizado, Bolsonaro come pizza na rua, em pé, em Nova York (Foto: Reprodução/Instagram)

Fox Mulder, célebre agente do FBI que acreditava em Ovnis, estava certo: precisamos olhar pra fora na hora de procurar a verdade. Sem essa de onfalocentrismo (aprendi com o Rubem Fonseca: acreditar que o umbigo é o centro do mundo), e não confunda com falocentrismo, seu velho fescenino. Com o segundo conceito lida a tradicional família brasileira.

Esta semana o presidente do Brasil falou na Assembleia Geral da ONU, depois de comer pizza com seus acéfalos (porra, corretor, digitei asseclas!) em pé em algum lugar onde não serviam pão com leite condensado. Aliás, leite condensado tem pouca demanda os EEUU, motivo pelo qual brigadeiro por lá não tem comando no executivo.

Como o pessoal de lá sabe inglês, porque foi colônia da Inglaterra, estabeleceu contato com os bolsominions, que sabem inglês porque são colônia de fungos. Espalharam por imagens em caminhão ou no metrô que o liar lousy loser Bolsonaro is in town, com a imagem do ícone que gerou uma galera curvada pra merda (corretor, corretor… era meca, assim mesmo, em minúscula, pra não confundir).

Depois de baterem continência pra estátua do velho da Havan, na ilha em frente a Manhattan, e de se benzerem diante de um iPhone 13 porque… é 13, fizeram arminha na frente do revólver com um nó na frente da ONU (disso tem foto, antiga, de um zero-algo, do resto não há confirmação, mas a verdade está lá fora). E o Bozo entrou na ONU. Bozo is in the house! Gritaram os alto-falantes. E todos se afastaram, de máscara.

E diante de uma plateia ele atualizou a lista de compras que havia feito um ano antes pra uma câmera. Cê já ouviu ou leu um discurso de chefe de estado de verdade, de liderança política de verdade, na ONU? É um discurso, é diferente. Pode até ter muito item, mas a lista de compras fica boa de ouvir. Se procurar na internet vai achar um monte, do Che Guevara, do Lula, e até, pra mostrar que não é questão de lado, do Bush (pai, o filho é outra besta), tudo tem coerência, cadência, algo além de tópicos. Mas a pauta é o Bolsonaro.

A verdade estava lá, na fala dele, quando disse que jornalista é imprestável, porque “diferente daquilo publicado em jornais ou visto em televisões” ele estava ali para afirmar que o Brasil vivia “há 2 anos e 8 meses sem qualquer caso concreto de corrupção”, quando “estávamos à beira do socialismo”. Será que o Carluxo não falou pra ele citar a internet? Caso concreto só se aplica à construção civil, não às vacinas? Socialismo!? Sigamos…

Se é verdade que as “estatais davam prejuízos de bilhões de dólares, hoje são lucrativas”, por que “leiloamos, para a iniciativa privada, 34 aeroportos e 29 terminais portuários”? Uma afirmativa é incontestável; “Em nosso governo promovemos o ressurgimento do modal ferroviário.” Sim, estamos tomando ferro, e de modos diferentes a cada dia.

Lá fora descobrimos que houve a “redução do custo Brasil, em especial no barateamento da produção de alimentos” e se isso acontecesse na pecuária, ninguém estaria na fila pra comprar osso, mas “nossa moderna e sustentável agricultura de baixo carbono alimenta mais de 1 bilhão de pessoas no mundo”, o que tira o Brasil do… mundo.

Parece frase de jogral, mas foi na ONU: “O Brasil é um país com dimensões continentais, com grandes desafios ambientais.”

E a verdade matemática: “Na Amazônia, tivemos uma redução de 32% do desmatamento no mês de agosto, quando comparado a agosto do ano anterior.” Pulou a parte que dizia o quanto a Amazônia diminuiu desde então (mas o caminhão com o texto em inglês sabe).

A pergunta que não quer calar: “Qual país do mundo tem uma política de preservação ambiental como a nossa?” Bora responder: tão liar lousy loser como a do Brasil de Bolsonaro é difícil afirmar. Não entendeu? Então atenda ao convite, mas rápido, enquanto ela ainda vale: “Os senhores estão convidados a visitar a nossa Amazônia!”

Um ponto de decadência ficou claro no discurso, quando o presidente afirmou que “concedemos um auxílio emergencial de US$ 800 para 68 milhões de pessoas em 2020”, mas no discurso do ano anterior havia comunicado que “concedeu auxílio emergencial em parcelas que somam aproximadamente mil dólares para 65 milhões de pessoas”. Presidente, diminuir a quantidade de dinheiro pra poder ajudar mais gente é praticamente um comunismo!

Outras verdades sobre racismo, intolerância, preservação de territórios indígenas, liberdade serviram de pano de fundo pra grande verdade, os problemas do início do governo que foram resolvidos: o vírus e o desemprego, porque “ambos deveriam ser tratados simultaneamente e com a mesma responsabilidade.” Foram, cresceram, proliferaram. Promessa cumprida.

Diante da fome, do desemprego, da PEC 32, das mortes por Covid, da falta de pizza pra tanta gente ter como acabar o dia, precisamos torcer pra que a verdade que está lá fora chegue logo. E venha do espaço, num meteoro. Enquanto isso, vivemos neste país de mentira.