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Brasilianistas no berço esplêndido

Jean-Baptiste Debret foi nosso primeiro brasilianista (Imagem: Reprodução "O regresso de um proprietário")

Há muito tempo os brasilianistas estão por aqui. Tinham a missão, às vezes inconsciente, de retratar e estudar o país e alguns deixaram registrada toda a perplexidade diante do gigante que dormia em berço esplêndido. O primeiro deles, embora ainda não tivesse esse nome, foi Jean-Baptiste Debret, um extraordinário pintor e gravurista que fez dezenas de desenhos do Brasil Império, retratando com fidelidade e arte a vida dos nobres, escravos e indígenas. Foram as primeiras imagens do Brasil da época da minha geração, vistas nas páginas da Enciclopédia Barsa.

Os primeiros brasilianistas oficiais, no entanto, aqueles que levaram o nome, surgiram durante a Ditadura Militar. Na maioria norte-americanos, eles eram muito bem preparados academicamente e tinham acesso livre a documentos não permitidos aos pesquisadores locais. Suas obras deram uma considerável contribuição à vida intelectual brasileira e constituíam um paradoxo: eram odiados por tudo que representavam de colonialismo e intromissão, mas lidos, pois com a imprensa censurada e o pensamento sobre o país cerceado era, afinal, uma visão sobre o Brasil – e os militares deixavam que eles pesquisassem e dessem palpites, porque os generais, em sua maioria, eram afeitos aos ianques e metidos a inteligentes.

O mais famoso desse brasilianista foi Thomas Skidmore, autor de dois livros essenciais: “Brasil: de Getúlio a Castelo” e “Brasil: de Castelo a Tancredo”. Tinha fama de ser “agente da Cia”, mas ganhou a simpatia da intelectualidade brasileira quando em 1970 (em pleno Governo Médici) articulou uma carta em defesa do historiador comunista Caio Prado Júnior, preso pela Ditadura Militar.

E alguns observadores do cotidiano brasileiro, embora não fossem acadêmicos ou elaboradores de teses, deixaram frases e percepções que marcaram a vida nacional. É do general e presidente francês Charles de Gaulle, por exemplo, a sentença de que “o Brasil não é um país sério” (por conta, veja só, da “Guerra da Lagosta” – bons tempos em que a seriedade do país era posta à prova por causa da pesca de um crustáceo!).

Outros dois franceses e uma norte-americana, cada um a seu tempo e modo, também entenderam rápido a alma brasileira. Jean Paul Sartre tinha um compromisso no Rio de Janeiro em uma tarde. Os organizadores da palestra resolveram aproveitar a manhã e o levaram para conhecer Copacabana. Lá chegando, em plena segunda-feira, a praia estava lotada. Sartre ficou chocado e perguntou: “Mas não trabalham”? O anfitrião, meio sem jeito, disse: “É que são estudantes” – ao que o escritor francês rebateu, aparentemente mais surpreso ainda: “Mas não estudam?”

Mais ou menos na mesma época, a escritora Elizabeth Bishop (que viveu por aqui cerca de 20 anos, em razão de seu romance com Lota de Macedo Soares) desconcertou os cariocas ao definir que “o Rio de Janeiro não é uma cidade maravilhosa, é uma paisagem maravilhosa para uma cidade”. Já Brigite Bardot irritou profundamente a esquerda e as pessoas de bom senso da época, quando, presente em Búzios no entorno de 31 de março de 1964, declarou, entre uma caipirinha e outra: “Adorei a revolução de vocês”.

E alguns, nunca definidos como brasilianistas, deixaram um grande legado na cultura brasileira. O mais notável, e subestimado deles, é o libanês Benjamin Abrahão. Chegou ao Brasil ainda garoto e se estabeleceu no interior do Nordeste. Dizia a todos que nascera em “Belém, a terra de Jesus”, e mentia sobre isso de forma tão convincente que Padre Cícero acreditou e o fez seu secretário particular. Depois ele se embrenhou no mato atrás de Lampião, com objetivos comerciais: queria filmar o bando do Rei do Cangaço e vender as imagens. Conseguiu, e os filmes, os únicos reais do cangaceiro e sua turma, fizeram enorme sucesso por retratar o que no futuro se diria “Brasil Profundo”. Não fez fortuna porque o governo de Getúlio Vargas confiscou o material, por “atentar contra os créditos da nacionalidade”. Dois anos depois das filmagens, foi assassinado, 42 facadas, em condições nunca esclarecidas, no interior de Pernambuco. A História está brilhantemente contada no filme “Baile Perfumado”, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas.