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Colunas

O golpe anunciado e a banalidade do caos

(Foto: Maria Fernanda Pissioli/Unsplash)

Nunca na História, nem mesmo nas repúblicas de bananas do final do século XIX e início do século XX, houve algo parecido: um golpe de estado anunciado para o dia da independência do país. Não deve acontecer, mas a situação é tão surreal que não será surpresa se o genocida se internar novamente, alegando ainda as consequências da tal facada (dando aos seus talibãs uma “narrativa” bem “plausível”: não aconteceu porque “nosso líder ainda sofre os efeitos do atentado comunista”). No limite, pode ser que aconteça algo ao modo Donald Trump: um bando de lunáticos invadindo o Congresso e o prevaricador acompanhando o desenrolar pelo WhatsApp. 

Mas, independente do que acontecer, a partir de 8 de setembro será preciso discutir seriamente o país, sob pena de perder para sempre a decência e o conceito de nação civilizada. É preciso investigar porque chegamos a esse ponto. Não será mais aceitável que se conviva com essa banalidade do caos, como se fosse algo normal.

Bolsonaro foi eleito (mesmo num processo eleitoral completamente atípico como o de 2018) e é preciso respeitar as urnas, sempre, mas há muito tempo deixou de ser Democracia. E são tantos os sinais, aqui e ali, que é quase impossível determinar o que exatamente deu um fim definitivo aos princípios democráticos: Quando não se comprou vacinas? Quando se empurrou brasileiros para a morte com os tratamentos precoces? Na incompetência dos generais da saúde? Nos super-salários dos militares de todas as patentes?  No nazista instalado na Cultura? No incentivo às queimadas e ao desmatamento? Na brincadeira do voto impresso? No racista da Fundação Palmares? Nos arroubos incentivados dos simpatizantes? Na “normalidade” como se trata as rachadinhas seculares, a fortuna das ex-mulheres e as mansões dos filhos? Na interferência na Polícia Federal? Nos ataques ao Supremo? No fuzil ao invés do feijão? 

Muitos dos eleitores de Bolsonaro e aqueles, imprensa e entidades, que o ajudaram a se eleger sabiam que ele, em 27 anos como deputado federal, foi um dos mais medíocres e despreparados parlamentares da História. Votaram nele e fizeram campanha então por quê? Por “pena”? Pela “simplicidade”? Para estancar os progressos populares de um governo de esquerda? Ou porque o medíocre sempre é mais fácil de manipular? – a justificativa do “voto contra a corrupção” nunca se sustentou, pois os eleitores são os mesmos que já escolheram políticos envolvidos em todo tipo de irregularidade: Collor, Sarney, Maluf, Aécio, Sérgio Cabral…

Muitos dos eleitores de Bolsonaro e aqueles que o ajudaram a se eleger sabiam do ódio dele pelas mulheres (as feias, as “bonitas dá até pra estuprar”), pelos negros (considerados apenas pela arroba) e pelos homossexuais (ele sempre disse preferir o filho Carlos morto a gay). E a maioria sabia de seu amor pela violência, tortura e morte. Votaram nele e o apoiaram então por quê? Pelo espelho? Para ver o circo pegar fogo? Ou porque acham mesmo que mulheres e negros são inferiores e os gays destroem a família? 

Agora é hora de parar. Por ingenuidade, credulidade, más intenções, jogo político ou viés fascista já se brincou demais à beira do precipício. A partir de 8 de setembro, pós tensão e sobressaltos do Dia da Independência, dizer algo como “Bolsonaro hoje mudou de tom” (como adoram dizer, se esforçam para dizer, os jornalistas condescendentes) será considerado uma perigosa venda de ilusões. Será a mesma coisa que dizer que os generais americanos “mudaram o tom” nos dias 7 e 8 de agosto de 1945, depois de jogar a bomba atômica em Hiroshima e antes de despejar um outro artefato nuclear em Nagasaki.