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Holofote

Os meios travessos de Michel Temer

(Ilustração: Jorge Arbach)

Se há uma pessoa com um bom nível de conhecimento a respeito do ex-presidente Michel Temer, ela se chama Tarcísio Delgado. O ex-prefeito de Juiz de Fora foi antecessor de Temer na prestigiada liderança do MDB na Câmara dos Deputados no início dos anos 1990.

Após eleger seu sucessor, Tarcísio se tornou secretário-geral do partido. Depois, no longo período que esteve à frente do diretório nacional do MDB, Temer sempre prestigiou o juiz-forano. Também por essa deferência, Tarcísio, enquanto prefeito, encontrou portas abertas em Brasília.

Quando Temer pleiteou ser vice de Dilma Rousseff (PT), recebeu uma severa crítica do amigo de Juiz de Fora. O MDB, segundo Tarcísio, não poderia se dar ao luxo de não ter candidatura própria. Mas acabou não tendo, e Temer foi eleito com Dilma.

Depois disso, em um encontro casual em Belo Horizonte, o então vice-presidente da República quis saber do velho correligionário os motivos que o levaram a sumir de Brasília. Tarcísio foi Tarcísio: “Sua agenda mudou”.

Quando Temer assumiu a Presidência após o impeachment de Dilma, o juiz-forano, já no PSB, voltou à carga. “O MDB chega ao poder, mas é por meios travessos, que não têm nada a ver com a história do partido. Pelo contrário.”

Por meios travessos Temer voltou à cena política nacional. Quando parte da centro-direita buscava um respiro para os rompantes antidemocráticos do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o emedebista aparece com discurso apaziguador.

Não lhe incomodam ainda o desgoverno, as mortes evitáveis da pandemia e o comportamento indomável do presidente e seus filhos. Por ora, a travessura tem rendido jantares cômicos e suntuosos, além da benevolência de alguns jornalistas.

Mas Tarcísio e boa parte do meio político sabem que isso é pouco para o ex-presidente. Emedebistas com mais tempo na sigla veem um aceno de Temer para a hipotética terceira via em 2022. Não necessariamente para sua candidatura, mas como forma de acumular capital político para sucessão presidencial.

Em um momento que se prima pelo conflito, a imagem de político moderado, com capacidade de negociar com diferentes correntes políticas para solucionar os problemas do país, pode ser um importante ativo. O problema será manter Bolsonaro no figurino “paz e amor”.

Com a bancada do MDB em constante desidratação, os ativos conhecidos de Temer são bem poucos, sendo que, o mais conhecido, o Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, já foi usado. Tudo bem que sua entrada no jogo lhe rendeu elogios no Senado e na Câmara, mas ainda é cedo para comemorar.

Certo é que a agenda de Michel Temer mudou mais uma vez. Se vai levar o partido ao poder como no passado recente, é esperar para ver. Caso aconteça, pode se ter certeza, será outra vez por meios travessos, o que não será mais estranho à trajetória do MDB.