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Sabe de quem?

O narrador Luís Roberto e o comentarista Roger Flores estavam no estúdio e não viram o gol anulado do Vasco (Foto: Reprodução)

Meu amigo Ailton Alves, colunista deste Pharol, era editor de um jornal local, quando, sem escolha, teve que enviar uma repórter inexperiente na área esportiva para cobrir uma partida do time de juniores do Tupi. Era ali pelos anos 2000. O “Galinho” recebia o Atlético-MG, e uma vitória o deixaria muito bem na competição. Perto do fim do jogo, ainda empatado, pênalti desperdiçado pelo carijó juiz-forano. No dia seguinte, eu, que trabalhava em veículo concorrente, abri a matéria naturalmente dando destaque à chance perdida. Mas, do outro lado, nenhuma alusão ao fato. Tempos depois, Aílton me contou que o texto chegou “redondinho”, mas, no outro dia, quando pegou os dois jornais e questionou a repórter, ela respondeu assim: “Ah, teve uma hora lá que o jogador ficou sozinho pra bater uma bola parada na frente do gol, mas como chutou pra fora, achei que não fosse importante.”

Lembro também de um então locutor que, do estúdio de uma rádio em Juiz de Fora, narrava, “ao vivo”, os duelos realizados no Maracanã, vendo pela TV. Se não me engano, teve uma partida em que o Botafogo perdia por 1 a 0, mas conseguiu a virada. Não lembro o adversário. Porém houve queda de energia na cidade. Mesmo assim, o gaiato continuou narrando o confronto que, no rádio, terminou com o placar mínimo. No dia seguinte, quando questionado por algum ouvinte, ele jurava que havia narrado os 2 a 1, e deixava a pessoa achando que realmente não tinha prestado atenção.

A conexão entre estas histórias e outras pelo interior do país, que entram para o folclore do jornalismo e das transmissões esportivas, passa pela falta de estrutura, de equipe, de experiência e de dinheiro principalmente. Mas quando os canais de um gigante da mídia falham, de forma bisonha, em sua cobertura de um futebol que arrebata patrocínios milionários, algo está muito fora do aceitável.

A narração de Vasco x Cruzeiro, neste domingo, aliás não só a narração, mas a cobertura como um todo, feita pelo grupo Globo, entra para a história como uma das mais vexatórias na área da comunicação esportiva no Brasil. Eu estava de frente para a televisão vendo o locutor e as imagens me falarem que o Vasco estava ganhando por 2 a 0. Quando o Cruzeiro fez o gol, faltando um minuto, e o jogador foi comemorar, mandando beijinhos para a câmera, pensei comigo que se eu fosse técnico, diretor, presidente do clube, iria reclamar demais com o cara. Como pode? O time perdendo e ele comemorando ao invés de pegar a bola e correr para o meio para tentar um último lance? Egoísta, sem noção, decretei. Então o árbitro apitou o final e jogadores do Vasco foram reclamar. Aí não entendi nada. Por que estão desse jeito se ganharam? Nesta hora, o repórter de campo, Raphael De Angeli, avisou ao locutor Luís Roberto que o jogo foi 1 a 1.

Como assim? E o que tinham me mostrado? E o que tinham me falado? E o que tinham comentado? Nada disso valia de uma hora para outra? Como foi 1 a 1 se estava 2 a 0? Locutor e comentaristas de jogo e de arbitragem não estavam no estádio, mas no estúdio da Globo. O excesso de replays não deixou que vissem a anulação do gol. Tecnologia demais, câmeras demais, replays demais, criando uma realidade paralela a que acontece ao vivo são extremamente irritantes e um dia acabariam em vexame. O fato de estarem em estúdio e não no campo também não se deve à pandemia, mas a uma “economia porca”, conforme bem resumiu nas redes sociais o jornalista e professor Márcio Guerra. 

Fora isso, quando qualquer jogo passa dos 40 minutos, todos os locutores, mas principalmente Luís Roberto, simplesmente esquecem da narração, e ficam em uma agonia louca para que os comentaristas escolham o melhor jogador da partida, algo que, em 10 segundos, poderiam fazer após o apito final. Outra vergonha recente, protagonizada pela mesma TV e locutor, aconteceu quando deram o prêmio de melhor da partida ao goleiro Sidão, que não estava em um bom momento e foi votado como uma forma de ironia e deboche pelos telespectadores. Apenas a repórter Júlia Guimarães teve o bom senso de dizer a ele que estava constrangida em entregar aquele troféu. Ninguém antes se atentou para a vergonha que seria. O episódio inclusive fez a emissora mudar os critérios de votação interativa.

No Vasco x Cruzeiro, ainda há outra questão. Onde estava o repórter de campo entre a anulação do gol do Vasco e o final da partida, tempo em que todos viveram uma realidade irreal. Por que não avisou antes? Há quem jure que ouviu o repórter chamar o locutor, mas sem ser atendido. Qualquer das situações é imperdoável. Qual a moral que estes profissionais e este grupo de mídia têm agora para questionar decisões de VAR, de CBF, de administrações de clubes, de posturas de técnicos e de jogadores? O direito de transmissão dos jogos passa por questionamentos políticos e econômicos e o atual formato, ou pelo menos, o monopólio que durante muito tempo perdurou no país, pode estar com os dias contados. Erros acontecem, mas erros grotescos como estes em produtos que lidam com montante superior a bilhão, proporcionado justamente pela audiência aberta e de assinantes, são inomináveis e refletem uma cadeia de procedimentos equivocados depondo contra o tão decantado padrão de qualidade.

Este é apenas um exemplo, em um campo conhecido pela maioria dos brasileiros, o futebol, de como, mesmo com imagens ao vivo, as transmissões podem manipular nosso olhar, nossa percepção e nossas emoções. Imagine como isto se processa em outras áreas, bem mais decisivas para a nossa vida, e das quais não temos muito conhecimento. Imagine agora este poder nas mãos de meia dúzia de pessoas físicas e jurídicas…

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