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Se a minha morte hoje chegasse…

(Arte: Jornal da USP sobre foto Wikimedia Commons)

Se a minha morte hoje chegasse, amanhã seria o enterro. Amigos, colegas ou coveiros conduziriam o caixão. Talvez houvesse lamento em uma nota oficial de três linhas, alguma postagem nas redes e nome no obituário. A instituição mandaria e-mail até para quem não conheço. Mais tarde abriria uma vaga se o governo autorizasse. Em casa não haveria briga pela parca herança deixada. Seria desgaste demais por quase nada prestável. Os livros da minha estante enfeitariam paredes. E, depois de concretado no túmulo, passados dias ou meses, viria a segunda morte, a de nunca mais ser lembrado. O tempo inviolável, enfim a eternidade.

Se eu vivesse depois que os vermes devorassem meu corpo, tal qual o defunto Cubas, poderia escrever, com galhofa, a essência de minhas memórias. Buscaria no infinito o score desta estada e algumas respostas pra nada, só pra me divertir. Quantas moças namorei sem informá-las do fato, na inocência ou no vinho, imaginando as estórias? De quantas fui namorado? Casas que frequentei sem querer estar ali. Outras que quis invadir, quando não tinha convite.

Quantas músicas ouvi – embriagado ou sóbrio? Se era tudo tão óbvio, por que eu não percebi? Como seria o final de cada sonho esquecido? Planos que foram abortados, amigos certos e errados. De qual ponto saí? O que deixei para trás? Por que alguns riram de mim, supondo que eu não fosse capaz a cada conquista pouca? E aquele beijo na boca, qual seria seu gosto se eu tivesse coragem? 

Entrariam na minha contagem todos os gols que eu não fiz, o samba que não compus e o desfile imaginado. Que dia guardei meus brinquedos para nunca mais procurar e aposentei a criança que às vezes me sorri no espelho? Como foi a despedida no bar com a velha turma? O último abraço sincero, o entender no olhar? Quando eu fui mais feliz? Quando escapei por um triz? Como foram os dias ao meu redor antes da primeira lembrança menino? Quantas luas me seguiram sem que eu soubesse a verdade? 

Quantas vezes morri para iniciar outra vida? Recortes congelados no tempo a cada ciclo encerrado, velhas fotografias de pessoas e lugares que não são mais como antes. Na outra ponta, um futuro, que de tanto ser adiado, foi cancelado pra sempre. Momentos em que me achei forte, mesmo sendo o mais frágil e também casos contrários, com posições invertidas. 

Quantos inimigos matei, com requintes de crueldade, em pensamentos dissipados para a vida seguir em frente? Aprendi mais que ensinei, isto é fato, mas o presente reconta tudo o que nos foi passado. Desaprender o ensinado nem sempre tende a ser fácil. Mais complicado ainda é tentar ensinar diferente para os que não querem saber.

Os cheiros da minha infância eu sentiria de novo. Chuva e terra molhada, quintais, galinheiros, cachorros, fogão a lenha chamando, a simplicidade da mesa, a felicidade no prato. Me informaria também se meus cães foram abrigados. Quanto aperto no peito de preocupação com esses anjos. Ah, como agradeceria por pessoas que pude ajudar. Veria num grande clarão todos os lugares aonde fui, paraísos esculpidos de uma forma inexplicável. 

Eu ainda perguntaria, se encontrasse um responsável, por que a miséria da fome, por que a maldade do homem e essa tragédia sem fim? No fundo, se já não sei, desconfio, sobre qual seria a resposta, mas com todo tempo pra mim, eu dobraria a aposta só pra poder questionar. Buscaria saber da família e da meia dúzia de amigos. Foram tantas rupturas com almas boas de fato por coisas miúdas da vida, tamanha a estupidez, que só alguns deles ficaram. Por outro lado, veria todo o tempo perdido com cada falsa amizade que bem para mim nunca fez.

Depois de reler este escrito, talvez suprimisse o capítulo se texto de livro fosse. Narraria um velório festivo, assim não seria enfadonho. Ou largaria esse vício de querer detalhar muito. Mas, tendo o deadline desta coluna estourado, melhor publicar deste jeito e salvar em alguma pasta. Assim, adiando esta morte bem mais pra frente – sem data -, sobreviverei por pirraça, como a gente aqui já faz. Porém com uma boa vantagem para o juízo final. Além daquele epílogo que vocês todos já sabem, restaria mais um saldo: Nunca usei Deus para armas, o nome do bem para o mal, e nem tampouco ajudei a eleger a desgraça.