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Um silêncio bastante parecido com a estupidez

Projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, o Memorial da América Latina foi concebido para ser um espaço de integração e informação dos países latino-americanos (Foto: Governo do Estado de São Paulo)

Haitianos laçados e chicoteados pela polícia de Joe Biden (sucessor, em muitos sentidos, de Donald Trump); o presidente de El Salvador que se autointitula “o ditador mais legal das Américas”; um genocida-golpista, seus generais e sua trupe bizarra no Brasil; milhares de venezuelanos perambulando atrás de esmolas em centenas de cidades do continente (Juiz de Fora inclusive); chilenos e colombianos prontos a voltar, a qualquer momento, aos violentos protestos de rua; a Argentina em crise econômica crônica; muita gente à espreita do primeiro deslize do presidente esquerdista do Peru; a construção de um muro na fronteira entre Republica Dominicana e Haiti… As veias da América Latina continuam abertas.

Há muito tempo, quando Eduardo Galeano escreveu e lançou “As Veias Abertas da América Latina” era comum analisar todas essas mazelas pela ótica marxista da exploração capitalista e de um destino inexorável dos terceiro-mundistas. Hoje, até o conceito de Marx de que “tudo que é sólido desmancha no ar” ganha uma versão distorcida e manipuladora –  vide o documentário bolsonarista-fascista “Nem Tudo se Desfaz”, do olavista Josias Teófilo, que parte da premissa direitista de que a “culpa” do caos atual é da Constituição de 1988, que proporcionou aos cidadãos “muitos direitos e poucos deveres”.

Mas, além de levantar dezenas de casos, um inventário impressionante de como a América se curvou, o livro de Galeano é genial e perdura por ir direto ao ponto sobre os motivos do subdesenvolvimento: “Guardar um silêncio bastante parecido com a estupidez” – constatação que está, a propósito, na Proclamação Insurrecional da Junta Tuitiva da cidade de La Paz, de julho de 1809.

Quase 200 anos depois, no final de 2007, ainda se pedia silêncio e muita gente boa ficou do lado do rei João Carlos I da Espanha quando ele perguntou, em tom áspero e arrogante, ao então presidente da Venezuela Hugo Chávez: “Por que não te calas?” A despeito de todos os seus defeitos, Chávez nunca se calou e morreu com a fama apenas de ditador, repetida à exaustão pela imprensa. O rei João Carlos I se meteu em tantas falcatruas que teve que abdicar do trono em 2014, mas isso nunca foi assunto recorrente na mídia.

Dois pesos e duas medidas, sempre. O presidente Evo Morales tirou milhões de bolivianos da pobreza, mas a OEA “atestou” que houve fraude nas eleições que o deixaria no cargo – para júbilo da imprensa comprometida e até de alguns empresários de São Paulo, interessados em continuar explorando os trabalhadores bolivianos. Depois, com o objetivo cumprido, a OEA reconheceu que “houve um erro de avaliação” e que “pode não ter havido fraude nas eleições” – mas isso não saiu com destaque em lugar algum.

Além de alguns políticos, há cineastas que nunca se calaram. O brasileiro Glauber Rocha, o cubano Tomás Gutiérrez Alea, o argentino Fernando Solanas, a uruguaia Beatriz Flores e o chileno Miguel Littín entre eles.

E agora há o guatemalteco Jayro Bustamante, com “A Chorona”. Um general ex-ditador é julgado por crimes contra seu povo; o julgamento é acompanhado por mulheres sem rostos que choram seus filhos e representam os indígenas e as minorias; ele é condenado, mas o Supremo o libera para cumprir a pena em sua mansão, usufruindo do produto dos roubos; o general anda armado e gosta de atirar em alvos fáceis; sua neta quer saber do que ele foi acusado, mas isso é assunto proibido no círculo familiar; aparece na casa Alma, única pessoa que consegue atormentar o ditador… Todos os sinais e os fantasmas ainda estão por aqui.