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Colunas

Deixa na gaveta

(Foto: Ashim D’Silva/Unsplash)

Sem essa de falar de roupa velha e que não usa: essa não fica na gaveta, porque se você não usa, alguém pode estar precisando e vai usar.

A gaveta aqui é outra, gaveta de texto.

Jornalista sabe bem o que é matéria de gaveta. Quando o Itamar morreu, por exemplo (último presidente que morreu, infelizmente, por isso a escolha), uma cacetada de jornal lançou matéria na mesma hora no ar ou reportagem e retrospectiva no dia seguinte nos impressos. Tudo tava pronto, foi só esquentar. De novo, gíria de jornalista: esquentar é pegar assunto velho e fazer com que seja novo, igual comida de véspera no microondas.

Qualquer. Vamos à ênfase: qualquer! presidente da república que morra tem um dossiê pronto em todo jornal do país. Peraí, você é jornalista e disse não pra essa afirmação? Atualize-se.

Em tempos de arquivos digitalizados, fazer busca no que tem disponível descartaria esse tipo de material pré-pronto, mas vai a pergunta: na hora do pegapracapá quem domina o conteúdo da emergência pra coordenar a edição? Melhor fazer de véspera porque, como diz o Manuel Castells com termos acadêmicos e sabemos de tempos anteriores: melhor do que saber, é ter o telefone de quem sabe.

Essa pessoa que sabe tem que saber mesmo, saber das coisas. Não é saber com internet na mão: é saber o que fazer com a internet na mão. Sacou a diferença? Tem gente que saca pra caramba dos aplicativos e tem conteúdo zero, poça de cuspe. Falta profundidade. Vídeo legalzinho, cheio de efeito e sem motivo pra estar no mundo é o que mais tem na internet.

De volta pra gaveta.

O cara aprende a usar TikTok, Instagram, YouTube, Premiere e o caralhoaquatro e acha que tem que postar qualquer merda. E que tem que fazer qualquer merda. Outro dia apareceu num grupo (malditos grupos) um vídeo duns caras se estapeando na chuva com raquetes de matar pernilongo. Um sujeito lê todos os livro do Senhor dos Anéis ou vê e revê o desenho da Caverna do Dragão e ainda joga RPG a vida inteira achando que orcs são criaturas de outros mundos e não! Quando ele se depara com um vídeo desses, percebe que os orcs estão entre nós.

E tem mais.

De acordo com a teoria da Cauda Longa, do Chris Anderson, muito mais coisa pode ficar na rede, porque tem democratização dos meios de produção e dos meios de acesso. Escritores passaram a publicar mais, mesmo que nos seus blogs. Foi o que aconteceu com o Hupokhondría, por exemplo (tem um texto de gaveta lá), só que ninguém é obrigado a ler, vai lá quem quer. Sacanagem é quando o sujeito tá lendo informações em sites oficiais ou de pessoas decentes e vem alguém falar bobagem.

Num post da Margarida outro dia, no Twitter, sobre volta às aulas, um sujeito foi perguntar do emprego dele. O cara saca zero de economia, de gestão nacional e de caderno de classificados. Acha que a prefeita é o balcão do Sine, esquece que o líder do executivo que pode dar emprego porque é empresário é o governador e nem pede emprego pro Paulo Guedes, que não vai dar, porque deixou o capital em contas no exterior, porque não confia na economia brasileira.

Nessa mistura de Umberto Eco e Roland Barthes as redes sociais seguem se (sub)desenvolvendo. Eco afirmou que um comentário num café não incomoda além da mesa, mas, nas redes sociais, vai além do aceitável. Por quê? Justamente pelo que diz Barthes: a língua é fascista, ela obriga a dizer. Quem se sente obrigado a comentar tudo o que vê pela frente é vítima desse fascismo comunicacional e acaba ajudando a idiotia a ir além dos comentários e chegar às urnas.

Escritores ao longo da história deixaram muita coisa na gaveta, alguns textos foram publicados postumamente. Kafka não queria ser publicado, deixou uma carta pro amigo dizendo que queria os originais destruídos. O amigo contrariou e publicou. Tome o exemplo: deixe toda sua produção intelectual digital (textos, vídeos, fios, reels) pra um amigo escolher se deve ou não publicar. Pergunte a ele e, em caso de sim, autorize a publicação póstuma. Quem sabe assim os imbecis aos quais a internet deu voz aprendem um pouco mais sobre significados da palavra filtro.

Gustavo Burla, 20-X-2021