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Mais de mil dias de desgoverno, mas de quem é a culpa?

A Anistia Internacional catalogou 32 situações que levaram ou aprofundaram graves violações de direitos humanos no país nos mil dias de governo Bolsonaro (Imagem: Anistia Internacional)

Nos últimos dias, pipocou nas redes sociais vários posts com alusão à face nefasta e contraditória, porém intencional, do desgoverno de Jair Messias. O teor resume exatamente a sua natureza devastadora, direcionada a fragilização das instituições do Estado de Direito e da democracia, de ataque aos movimentos sociais da sociedade civil organizada e aos direitos dos grupos minoritários, de fomento a degradação do meio ambiente, de precarização do trabalho, empobrecimento em massa e índices de desemprego históricos. Tudo isso, aliado a uma pré-disposição em projetar o país como pária internacional. Nesse sentido, vejamos alguns exemplos desses pouco mais de mil dias que Bolsonaro frequenta o Palácio do Planalto.

Começamos aleatoriamente pela Secretaria de Cultura, quando nomeia um simpatizante do modus operandi nazista que não resiste após uma malfadada e patética representação de um discurso de Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, em vídeo sobre premiação de obras artísticas.  É sucedido pela namoradinha do Brasil, tão breve no posto quanto um “pum do palhaço”, cedendo o lugar para um ator medíocre como gestor, movido a ofensas à classe artística, incapaz de zelar pela cultura nacional e atuar na preservação de seu patrimônio.

Ainda dentro da mesma pasta, é alçado à frente da Fundação Palmares um negro racista, que despreza a cultura afro-brasileira e é inimigo do movimento negro, agora afastado pela Justiça do Trabalho, acusado por funcionários da entidade de assédio moral. Para as relações exteriores, passou por lá um diplomata olavista, que acredita numa conspiração comandada por uma ordem cultural globalista marxista sob a égide do comunismo internacional. No Meio Ambiente, a pasta foi ocupada por um agente de madeireiros interessado em desmantelar os órgãos de fiscalização e driblar a legislação para “passar a boiada”.

No Ministério da Educação, um sujeito da mesma laia de Ernesto Araújo, seguidor de Olavo de Carvalho, sem educação e sem compostura para a investidura do cargo, gerou repugnância e asco com seu comportamento abjeto e intenção declarada de atacar as políticas públicas da educação e difamar a memória de pessoas como Paulo Freire, reconhecido em todo mundo por sua vida e obra dedicadas à educação. Ao cair, deu espaço a um professor pastor metodista fundamentalista. Quando aparece em público, é para criar um fato novo e gerar polêmica, típico das táticas bolsonaristas de sempre estimular o conflito e alimentar a belicosidade política.  Mantém a inépcia de seu antecessor e costuma chamar atenção por declarações segregacionistas, ao defender o ensino superior para castas de privilegiados e ter o descaramento de dizer que crianças e jovens especiais prejudicam o ensino regular.

No Ministério da Economia ainda sobrevive por lá um “Chicago Boy” neoliberal, especulador do qual nem mesmo o posto Ipiranga deve agora fazer gosto de o ter como garoto propaganda, de ver sua marca atrelada a uma figura que multiplica fortuna em paraísos fiscais às custas do encarecimento do custo de vida e empobrecimento da população. Não se mostra capaz ou não tem interesse em promover uma política econômica séria e eficaz para enfrentar a crise econômica e social porque passa o país. Afinal, a alta do dólar que gera aumento dos preços e da inflação por aqui, significa capitalização milionária de offshores acolá.

Mais recentemente, outro episódio desumano da série de horrores do desgoverno, defendido pela ministra da cidadania ao concordar com o veto do executivo à lei de distribuição de absorventes às mulheres de baixa renda. Segundo levantamento de parlamentares em Brasília, estima-se uma dotação de cerca de R$ 84 milhões do orçamento anual para a aquisição e distribuição do item de higiene feminino em todo o país. Ou seja, diante do valor considerado modesto para os cofres públicos, comprova-se uma atitude deliberada de misoginia, de preconceito e descaso pelas as mulheres mais vulneráveis, desvirtuado do dever constitucional do Estado em promover políticas públicas de proteção social.

O maior exemplo da desfaçatez, arrogância e desumanidade bolsonarista foi posta em curso após o início da pandemia, com a cumplicidade do Ministério da Saúde. Depois da saída dos médicos Luiz Henrique Mandetta e NelsonTeich, instalou-se na pasta um militar, conhecido na caserna por sua competência em logística, mas sem nenhum conhecimento na área da saúde, de protocolos sanitários e do funcionamento do SUS e da infraestrutura vacinal do país. Pazuello manteve-se alinhado ao discurso negacionista de seu chefe defendendo o tratamento precoce da Covid, contrariando orientações para o uso de máscaras e distanciamento social. Foi negligente com os estoques de testes para a doença, além de postergar ao máximo a compra de vacinas e dar início ao Programa Nacional de Imunização. O general insistiu em menosprezar orientações técnicas e científicas para conduzir as ações necessárias ao combate da pandemia e preservação de vidas. Preferiu manter-se como fiel escudeiro do capitão cloroquina até a sua queda do ministério.

Em meio às pressões, improbidades e omissões que levaram a abertura de inquérito no STF contra o ministro, Pazuello caiu em março desse ano sendo substituído por um médico, alguém em tese com conhecimento técnico e científico para minimamente reverter o quadro alarmante da pandemia naquele momento e dar mais lucidez às ações do Ministério. Ledo engano! Continuou seguindo a cartilha bolsonarista do negacionismo e do desprezo pela vida, dando um dedo do meio para mais de 600 mil famílias enlutas pela perda de seus entes queridos. Não teve a hombridade de Mandetta e Teich em seguir o juramento médico e atuar com discernimento, em prol da vida. Preferiu servir ao chefe incondicionalmente, como fizera o general, sem querer se indispor com o mandatário sob a máxima do “um manda e o outro obedece”.

Um presidente da República que não trabalha, que não se ocupa dos problemas que o país enfrenta em meio a uma pandemia, que se esquiva das reponsabilidades como chefe de Estado e, de forma covarde e oportunista, sempre transfere para terceiros a culpa pela crise que o país atravessa. Ora são os governadores, acusados de gerar desemprego por causa das medidas de isolamento e provocar o aumento dos preços dos combustíveis através do ICMS; ora é a conjuntura internacional, de desaceleração do crescimento e desabastecimento global, portanto, um problema mundial com o qual ele não pode fazer nada. Sobra até para São Pedro, pela estiagem e a crise hídrica e energética que coloca o país sob o risco de um apagão. Ah, claro! E como não? A essa altura do campeonato, sobra ainda para o PT. Sempre o PT, os esquerdistas e comunistas de plantão que servem como principal bode expiatório para os devotos do ódio e suas alucinações golpistas.

Miséria, fome, inflação, recorde no preço do dólar, da energia elétrica, dos combustíveis, desmatamento e queimadas recordes, política de ódio e negação, gabinetes paralelos, milícias, racismo, misoginia, machismo, homofobia, violência, corrupção e mais de 600 mil mortes pelo coronavírus. A amplificação da tragédia humana e social que vivemos nestes mais de mil dias de desgoverno Bolsonaro é resultado de uma malta de gente incompetente e mal-intencionada, à imagem e semelhança de seu mandatário. São colocadas à frente de ministérios, secretarias, postos de gestão e comando de primeiro, segundo e terceiro escalões do governo federal e, como ele, costumam se esquivar de qualquer responsabilidade. Bolsonaro e seus asseclas representam o que de pior uma sociedade pode reproduzir quando está doente, e a história mostra como a cura para esse mal pode ser dolorosa.

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