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Conjuntura

Por que ninguém quer comprar o castelo do “capitão Edmar”?

Castelo do ex-deputado Edmar Moreira em São João Nepomuceno vai para terceira tentativa de leilão (Foto: Leonardo Costa)

Vendido! Há pelo menos uma década o ex-deputado Edmar Moreira e seus herdeiros esperam ouvir essa palavra de corretores de imóveis e, mais recentemente, de leiloeiros. Mas o Castelo Monalisa, localizado no distrito de Carlos Alves, em São João Nepomuceno, está encalhado.

A mais recente tentativa de venda do conjunto arquitetônico de 7,5 mil metros quadrados, com 36 dormitórios, 50 banheiros, 36 suítes e 200 vagas de garagem vai acontecer no final deste ano. O leilão judicial está marcado para iniciar às 17h de 30 de dezembro. O lance inicial é de R$ 30 milhões.

A mesma casa de leilão tentou encontrar alguém para arrematar a propriedade em 2019 e 2020, mas não obteve êxito. Isso considerando que o preço mínimo nas duas ocasiões era bem mais em conta: R$ 20 milhões.

Tudo bem que não é todo dia que se encontra uma pessoa em busca de um castelo para morar ou mesmo investir. No site da Savills, gigante britânica de negócios imobiliários, há 29 castelos à venda na Europa. Desses, muitos já estão há algum tempo disponíveis.

No caso europeu, como há bem mais imóveis nobiliárquicos, pode ser um caso típico de oferta e demanda. Já em São João Nepomuceno, que conta apenas com o singular Castelo Monalisa, a ausência de interessados se deve a questões também singulares.

Para o corretor de imóveis são-joanense, Alisson Gruppi Lanini, da Imobiliária Conquista, os problemas começam pelo acesso. A via pavimentada mais próxima do castelo fica a 10 km de distância. Até Goianá, onde fica o aeroporto regional, são 18 km de terra batida.

Alisson, embora ressalte não ter visitado recentemente a propriedade, também considera ser necessária uma reforma após 30 anos da conclusão da obra. Isso considerando que o imóvel nunca funcionou em plenitude para nenhuma finalidade.

Outro fator adverso foi a publicidade negativa do castelo a partir de fevereiro de 2009, quando os jornais noticiaram que a propriedade não constava da declaração de bens do então deputado federal Edmar Moreira. Ele alegou ter doado aos filhos Leonardo e Júlio Moreira.

O corretor de imóveis explica que áreas com essas características costumam atrair celebridades. “Esse público, entretanto, não gosta de se ver associado a nada negativo, principalmente com ampla repercussão.”

Por fim, Alisson considera a morosidade para se viabilizar o Aeroporto Regional da Zona da Mata como mais um complicador. “Quando se fala em hotéis e resorts, que seriam outras destinações para o imóvel, você precisa saber como o público desses espaços vai chegar e será por avião.”

No site internacional Luxury Estate, especializado em negócios imobiliários de luxo em várias partes do mundo, o castelo, com fotos inéditas, aparece à venda como “hotel de luxo”.

Um castelo para quê?

Em entrevista à TV Globo em fevereiro de 2009, o ex-deputado estadual Leonardo Moreira, morto em 2020, declarou que o propósito do seu pai, Edmar Moreira, ao construir o castelo era criar um hotel de luxo e levar turismo nacional e internacional de alta renda à região.

Há pelo menos duas outras versões envolvendo a construção do conjunto arquitetônico em São João Nepomuceno. Uma delas envolve a disputa entre os irmãos Edmar e Elmar Moreira. Aliás, a relação nada amistosa entre os membros da família Moreira sempre foi pauta nas conversas são-joanenses.

Mas e a história do castelo? Júlia Fernandes, esposa de Edmar, teria ficado enciumada quando descobriu ser do seu cunhado Elmar a fazenda mais bonita da região. Para superar o feito, o que se conta é que ela propôs: “Se eles têm a melhor fazenda, então eu quero um castelo”.

O marido, então, não poupou esforços e criatividade. O mimo, que superou em área edificada o Castelo de Neuschwanstein, nos Alpes da Baviera, que inspirou o castelo da Cinderela de Walt Disney, demorou uma década para ser erguido.

A outra versão para construção do castelo, bem menos excêntrica, frequentou por muito tempo os bastidores políticos e colocou o local como projeto de um suntuoso cassino. A aposta de Edmar seria de que o jogo fosse legalizado no Brasil durante o governo Fernando Collor.

De fato, as obras tiveram início no final dos anos de 1980 e avançaram pelo início dos 90, justamente quando a União e o Congresso se debruçaram sobre a possibilidade de legalização dos jogos no país. A proposta, no entanto, nunca avançou.

Mas o ‘capitão Edmar’ tinha dinheiro para construir um castelo?

Sim, no período referente à construção do castelo, Edmar Moreira possuía recursos para obras. Como disse seu filho, Leonardo Moreira, em entrevista à TV Globo: “Ele possuía lastro para construir o que quisesse”.

Edmar tornou-se milionário como dono de empresas de segurança e transporte de valores em São Paulo. Além do castelo e de outras propriedades rurais em São João Nepomuceno, tinha bens em Juiz de Fora e em São Paulo.

Filho do carteiro Daniel de Oliveira Moreira e da professora primária Eulália Batista Moreira, Edmar foi criado com oito irmãos. Após fazer o curso de perito contador no Colégio Machado Sobrinho, em Juiz de Fora, ingressou na Polícia Militar de Minas Gerais, onde alcançou o posto de capitão. 

Sua carreira militar foi interrompida por um episódio inusitado ocorrido em Juiz de Fora. Durante a festa de réveillon de 1968, no Clube D. Pedro II, o capitão foi informado que um rapaz havia se engraçado com sua mulher. O jovem, no entanto, ao perceber o infortúnio, deixou o local rapidamente.

Edmar Moreira em sessão na Câmara dos Deputados (Foto: Gustavo Lima/Câmara dos Deputados)

Edmar não titubeou e resolveu buscar o infeliz em casa. Escoltado por policiais, ele retornou como o moço de pijama para a festa, humilhando-o na frente de todos. Acusado de “abuso de autoridade”, o capitão foi punido e afastado da ativa.

Três anos depois, Edmar se formou em direito pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Com o diploma na mala, mudou-se para São Paulo, onde começou seus negócios no segmento de segurança privada e transporte de valores.

Nas eleições de outubro de 1990, elegeu-se deputado federal na legenda do Partido da Reconstrução Nacional (PRN). Exerceu outros três mandatos (1999-2002, 2003-2006 e 2007-2010) por diferentes partidos. Encerrou sua carreira na vida pública em 2014 , quando assumiu a vaga de suplente, aberta com a renúncia de Eduardo Azeredo (PSDB).

Foi sua incursão na política a responsável por mudar a alcunha de “capitão Edmar” para “dono do castelo”. Seus problemas começaram em 2009, após ter sido eleito corregedor da Câmara e 2º vice-presidente da Mesa Diretora.

Ao se posicionar de forma contrária ao julgamento dos deputados por seus pares, em razão do “vício insanável da amizade”, acabou atraindo para si e sua família todas as atenções midiáticas. Isso sem falar das insatisfações colecionadas com a candidatura à corregedoria, contrariando a indicação do seu partido na época, o DEM.

Da noite para o dia, pipocaram denúncias de toda ordem contra Edmar, como a existência de uma ação penal para apurar a apropriação indébita de valores referentes ao INSS de servidores de suas empresas. Um dossiê elaborado por um desafeto político entregue à Polícia Federal indicava problemas também com o FGTS de seus empregados, imposto de renda, e ISS.

Mas nada chamou tanto atenção quanto as imagens do castelo em São João Nepomuceno, que não constava em sua declaração de bens. Edmar conseguiu provar ter feito a doação da propriedade aos dois filhos.

Em 2013, o seu filho Leonardo Moreira, então deputado estadual, foi indiciado pela Polícia Federal por omitir o imóvel da declaração de bens apresentada à Justiça Eleitoral nas eleições de 2006. Na ocasião, ele era um dos sócios da empresa Hotel Castelo Monaliza Ltda.

No inquérito, Leonardo alegou que a empresa ainda não estava formalizada, por isso a omissão. O empreendimento foi baixado na Junta Comercial de São João Nepomuceno em 2007.