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Cadê a história sagrada do Granbery?

Instituto Metodista Granbery teve seu primeiro curso fundado em 1890 (Foto: Arquivo IBGE)

Foi um pastor, uma esposa de pastor ou uma filha de pastor metodista quem: as igrejas querem acabar com as instituições educacionais e manter somente os templos. Isso foi agora, esta semana, em 2021, não em 1021. Sim, mesmo uma instituição secular, com credibilidade mundial, tem medo da educação.

O Granbery é um patrimônio de Juiz de Fora. Tem um prédio conhecido e (acho) tombado, uma instituição de ensino com credibilidade presidencial (pergunte pro Itamar quem for médium) e um bairro com o próprio nome. Caramba! Um bairro. Tem gente que fala que a USP, uma das mais importantes universidades do mundo, é do tamanho de uma cidade, mas ninguém fala que mora na USP. Tem gente que mora no Granbery! E mais ainda: é bairro de boa qualidade de vida, numa das maiores cidades do país, região residencial e colada no Centro! E este texto nem é de corretor imobiliário.

Quem estudou no Granbery, pelo menos até pouco tempo atrás tinha orgulho de ter passado por lá. Era uma Instituição com I maiúsculo, com todos os clichês de Família, Casa, Acolhimento… Sem a empáfia de outras escolas, o uniforme do Granbery sempre trouxe respeito, com o G serifado dourado (ou amarelo, mais barato pras fábricas de roupa) e todos os adereços, que iam da escola de esportes (frequentei) ao hino cantado por mais de século (sei cantar de tanto ouvir meu pai e meu irmão, estudantes… claro, nem preciso dizer).

Quem passa pela frente do prédio lindo da reitoria do colégio (sim, havia um reitor lá, o Mister Moore inclusive, da rua e do shopping no Centro, procê ver a importância), só não vê os vidros das janelas quebrados se não prestar atenção alguma. Um dos princípios da arquitetura diz que os vidros quebrados em uma construção são um dos sinais mais claros de abandono. O abandono do Granbery, de Juiz de Fora, é real, e não é local.

A origem é difícil de especificar, porque a cada relato parece mais antiga, mas o descaso com as instituições de ensino da Igreja Metodista têm sido crescente e chegou a um patamar insustentável e por diversos motivos. Hoje a empresa…

peraí, vamos dar nomes aos bois

Se as escolas metodistas fossem empresas, saberiam gerir seus negócios, porque possuem inclusive cursos de Administração entre seus portfólios nacionais. Se isso é mentira, os cursos são ruins, não se matriculem.

Se as escolas metodistas fossem espaços educacionais das igrejas preocupados com a instrução, receberiam investimentos de diversas fontes pra aprimorar seus trabalhos, com respeito ao ser humano e à ciência.

Se as escolas metodistas fossem imóveis ocupados por pessoas que nada mais são do que seres que podem achar seus rumos em outros lugares, elas seriam descartadas, vendidas, deixadas de lado.

Voltando pra onde paramos: se a imobiliária metodista estivesse amparada em valores como cuidado com o indivíduo, a família, o próximo e outras falas recorrentes nos altares, não deixaria à míngua os trabalhadores (professores e toda a estrutura logística que ocupa e faz funcionar os imóveis), que passaram meses sem receber o salário completo enquanto trabalhavam respeitando horários e funções, que deixaram de receber férias e 13°, direitos (ainda) trabalhistas no Brasil, que têm família, casa, contas, vida fora da sala de aula no imóvel da instituição.

Quando pessoas da própria igreja se sentem indignadas com o que acontece dentro do patrimônio da instituição, mesmo com tudo sendo ocultado ao limite dessas pessoas, significa que é hora de parar de se preocupar em apenas pagar o dízimo pra cumprir sua missão, porque o dízimo não tá levando pão pra mesa de quem precisa.

Hoje, nacionalmente, várias instituições metodistas de educação (educação graças aos profissionais do chão de sala de aula, não aos administradores) estão devendo aos trabalhadores. Devendo muito, quase um bilhão de reais se vale arredondar pra cima sem esforço. Alguns sindicatos (Sinpro-JF, Sinpro Minas, Sinpro ABC, Sinpro Campinas e Região, Sinpro Rio, SINAAE-MG) e a Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (Contee) têm trabalhado diuturnamente pra defender os trabalhadores, vítimas de um processo de Recuperação Judicial que, se vingar como as instituições metodistas querem, vai parar de dever a todo mundo, porque a justiça pode decidir que não é mais preciso pagar.

Se a justiça for justa, o resultado será outro. Se a fé metodista quer seguir incólume depois de tantos séculos, vai clamar pelo que é justo.