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Holofote

Como o vereador Sargento Mello emparedou o Governo na Câmara

Mello conseguiu dez assinaturas para apresentar emenda com limitações para cotas (Foto: CamaraJF)

Quando o vereador Sargento Mello (PTB), no início de julho, falou que seria oposição e estava aprendendo a ser de direita com o presidente Jair Bolsonaro, ele estava falando sério. Sua declaração soou como necessária aos ouvidos de seus pares, afinal, havendo dificuldades, a cotação das facilidades aumenta.

No Executivo, a reação não foi diferente. Ainda na euforia dos assédios de muitos dos demais vereadores por atenção e benesses, a posição de Mello, se não passou despercebida, foi vista como fato isolado. Para manter o slogan “Tudo é pra todos”, apostou-se no diálogo com o vereador.

Pouco mais de quatro meses após seu posicionamento como oposição de direita bolsonarista, Mello apresentou uma emenda reduzindo o alcance do projeto de lei que previa reserva de 20% das vagas em concursos públicos do município para pardos e negros. Assinam com ele a proposta de mudança outros dez vereadores.

O novo texto reduz as vagas para 10% e ainda exige formação educacional completa em escola pública. Para o movimento negro, o percentual não contempla a proposta de democratizar à população negra e parda o acesso aos cargos e empregos públicos. Já quanto à formação, há possibilidade de conversa.

As vereadoras Laiz Perrut (PT), Tallia Sobral (PSOL) e Cida Oliveira (PT), autoras do projeto de lei, passaram o último fim de semana tentando manter os 20%, mas em vão. As tratativas não conseguiram demover os vereadores que subscreveram a emenda, tampouco ecoou na Prefeitura.

Nem a presença do líder do Governo, vereador Marlon Siqueira (PP), entre os signatários da proposta de redução do alcance das cotas, comoveu o Executivo. Até a noite de ontem (29), a melhor aposta das autoras do projeto de lei era no sentido de retirar a proposta de tramitação e recomeçar a remar do zero.

A aprovação da emenda ou retirada do projeto de lei se favorecer alguém esse será o Sargento Mello. Para conseguir esse feito, ele se valeu de algo caro para um militar: o domínio da tropa.

Se valendo da revolta dos vereadores com uma postagem nas redes sociais feita por uma assessora de uma vereadora, que tratava aqueles contrários à proposta como racistas, Mello chamou para si a defesa da tropa. Para isso, não precisou nem trocar a farda, pois as redes bolsonaristas nunca foram afeitas às cotas.

A cada passo da tramitação do processo na Casa, Mello colocava-se como resistência em defesa dos seus pares contra os “ataques desferidos por aqueles manipulados pela esquerda”. A confiança no defensor era tamanha que ele se sentiu à vontade para, além da exigência de formação em escola pública, reduzir para 10% a reserva das vagas.

A mudança em dose dupla assustou boa parte daqueles que subscrevem a emenda. A maioria hoje aceita conversar, mas não quer contrariar o defensor da tropa. Mello, por sua vez, até para não deixar de ser referência, sinaliza para o entendimento, mas terá que conter as dissidências. Pardal (PSL) e Bejani Júnior (Podemos) estão irredutíveis.

Se a pauta, que nasceu no Legislativo, pelas mãos de Laiz, Cida e Tallia, não sensibilizou o Executivo a ponto de mobilizar sua base, quiçá o seu líder, talvez seja bom colocar as barbas de molho. A facilidade com a qual Sargento Mello recrutou dez assinaturas para desfigurar uma pauta tão cara à esquerda, na mais otimista das hipóteses, revela que alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem municipal.

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