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Colunas

Planta que é livro

(Foto: Suad Kamardeen/Unsplash)

O brasileiro lê pra caramba e vai um tanto de empirismo aqui, com explicação.

Primeiro, os números: o Sindicato Nacional dos Editores de Livro divulgou que o primeiro semestre de 2021 teve um aumento de 48,5% na venda de livros em relação a 2020. O número parece surpreendente e não deixa de ser otimista, mas é importante lembrar que a base de comparação não é das melhores: início de pandemia, incertezas, esperanças de medidas sustentáveis…

O fato é que o brasileiro voltou a ler (parou?) e ler mais. Só que o brasileiro sempre leu pouco se comparado a outros países do mundo. Existem vários rankings e os critérios são diferentes. Alguns colocam o Brasil em 8°, com critérios mais quantitativos (claro, aqui tem mais gente), outros lá pra trás, lidando com médias de leitura (franceses leem aproximadamente 21 livros por ano).

O negócio aqui não é falar de números, mas de letras. Vamos com três pontos de vista.

O primeiro é a rua. Dá uma olhada na rua, agora que a rua tá liberada e sem máscara, porque o Brasil é igual a Nova Zelândia no tratamento da Covid-19. Quantas pessoas estão lendo nos ônibus, trens, nas filas de espera, nos intervalos de trabalho? Tem, sempre tem. E também o espírito de porco da exceção: “toda vez que entro num café tem alguém lendo.” Tá, foda-se. E na pastelaria? Nesse ponto é que entra o busílis: cê tá pensando em livro, né? A gente volta pro livro no terceiro ponto, mas aqui vale também jornal, revista e celular. Bora pro próximo item.

O segundo ponto de vista é o da internet. Pra ter conseguido eleger um presidente analfabeto funcional, muita gente tem que ler WhatsApp. Muita gente. Isso é leitura. Sem processamento, sem senso crítico, sem capacidade argumentativa além do clichê, do óbvio e do senso comum, mas não deixa de ser leitura. Quando uma pessoa lê parte de um livro é considerada leitura pelo relatório Retratos da Leitura no Brasil. Por que um leitor de meias palavras na internet não seria um leitor da internet? Esse argumento nem precisa de muito alongamento, estamos na merda por causa dele, taí.

O terceiro olhar sobre a leitura no Brasil vai lidar com a imersão, o mindfullness e essas coisas de coach ou de meditação. Ou de estudo e de Leitura com L maiúsculo, feita por escolha e prazer. Voltamos ao livro. Livro é uma tecnologia e tanto, fácil de usar e nem precisa de bateria (tem livro com bateria hoje em dia, mas nosso papo é raiz). Ler um livro é motivo de orgulho, porque requer dedicação, tempo, vontade e conhecimento. Qualquer livro, até livro bosta. “Estou lendo um livro” (em qualquer tempo verbal) é frase que dá respaldo em mesa de bar.

Essa leitura dialoga demais com a sociedade, porque entender um livro requer contexto. Se o sujeito lê Filosofia ou autoajuda, só consegue entender se tem vida fora das páginas. Nem é à toa que a expressão “ler o mundo” é tão complexa. Ler de que ponto de vista? Por exemplo, novembro: tá cheio de gente lendo o mundo a partir da consciência negra. E depois isso acaba? Volta ano que vem? Não deveria. Quem lê o mundo soma vocabulário, mistura o setembro amarelo com o mês da criança e fala de consciência negra.

Um professor tava dando aula, disciplina opcional de Literatura num curso de Jornalismo. Citou um livro e perguntou quem leu. Livro clássico, importante, referência. Nada. Uma aluna falou com o vizinho de cadeira que leria em breve, que adorava o autor (Joyce). O professor continuou comentando conteúdo e citou outro livro, novamente sem manifestações. A aluna falou que adorava literatura, que se não fizesse Jornalismo, faria Letras. No terceiro momento da mesma pergunta e sem resposta favorável, o professor lamentou num suspiro quase mudo: “vocês estão precisando ler mais…”

Clássicos são clássicos porque importantes até hoje. Tem livro difícil, mas que talvez fale mais pros dias atuais do que muito lançamento best seller que virou filme. E tem livro novo também, que é escrito hoje e fala pra hoje e além. Nessa mistura de referências, começou esta semana a Festa Literária Internacional de Paraty. Só que na sua casa. As mesas estão online, dialogando Literatura e diversos assuntos, como todo ano, e neste com o respeito à natureza, sobretudo às plantas, como tema. Tantos olhares possíveis sobre o mundo podem vir dali, tantas leituras possíveis pro futuro podem ser indicadas ali, que a tecnologia volta a ser parceira da literatura. E se for pra usar o WhatsApp nessa brincadeira, que seja pra compartilhar o link da programação aqui.