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Está chovendo em Macondo

(Foto: Martin Castro/Unsplash)

A fila de ciclistas avançava devagar, sob chuvisco persistente, sempre no ritmo do mais lento. Estávamos num trecho relativamente tranquilo da União e Indústria, próximo a Cotegipe. Era possível ouvir o chiado dos pneus sobre o asfalto molhado. Um fruir fragmentado, pois de quando em quando um automóvel nos ultrapassava, frequentemente anunciado pelo grito do último entre nós: “Carrro!!!”

Estes não eram, entretanto, os únicos sons que escutávamos. Emoldurada pelos ruídos da estrada e da natureza, a caravana seguia em conversa animada. Tudo motivava o debate: a beleza de certo fragmento do caminho, o rumo dos amores e da sociedade, aquele livro lido e relido, o formato das nuvens, o moer e o remoer da amizade.

Moer e remoer de uma cena que – em estradas diversas, sob climas diversos – se repetiu inúmeras vezes. Com personagens diferentes, mas sempre sob a mesma tônica. Um passeio sem rumo certo, percorrido mais pelo prazer da jornada que pela expectativa do que se encontraria no fim. Por vezes, planejávamos seguir numa direção, mas tomávamos rumo diverso. Noutras, íamos além. Ou, no meio do caminho, aportávamos nalguma birosca, a conversar e degustar um petisco qualquer.

Com nossas bicicletas desconjuntadas, éramos o oposto dos ciclistas atletas, que seguem apressados e em silêncio, na busca por melhores marcas. Comumente, eles surgiam na estrada, em roupas coloridas e ritmo apressado. Certa vez, o Ricardo, de forma jocosa, os definiu como “cruzamentos do Papa Léguas com o Frango da Sadia”.

Mantendo a metáfora das aves que povoam a ficção, eles provavelmente percebiam nossas figuras maltrapilhas e lentas como algo semelhante ao Patolino, nas vezes em que foi depenado.

A taxonomia é atividade científica das mais desafiadoras. Classificar depende de critérios. E critérios precisam de base, justificativa. Ademais, o que na superfície parecia uma coisa, o olhar aprofundado revela ser outra. Por isso, não devemos nos assustar com quem reclama ter comprado gato por lebre. Mas, a prudência também sugere não esquecer que, comumente, quem comprou lebre por gato não vê motivo algum para se denunciar.

Se o obstáculo já não é de pouca monta, mais difícil se torna quando a espécie a classificar está no passado. Porque do passado temos fragmentos, histórias pela metade soterradas pelas rochas do que veio depois. Os paleontólogos estão aí, para não nos deixar mentir. Fazer taxonomia com um quebra-cabeça onde faltam peças exige alguma noção de gestalt. Por sorte, o próprio tempo (a)cura o olhar. Fenestra vai, fenestra vem, a tartaruga – coitada – acaba defenestrada.

Tais testes de paternidade não são motivos de escandalosos quadros na TV. O ringue é outro, o dos artigos científicos. Nem por isso, deixa de haver barraco, aqui e ali. O bom é que a tartaruga, ela mesma, não liga. Nem os dinossauros, que de pelados se descobriram penados. Tudo pela pena – que ironia – de um animal peludo.

Por essas e outras, para o taxonomista precavido, a classificação da fauna humana que monta em magrelas – acima reduzida a Frangos da Sadia e Patolinos Depenados – é trabalho de muito maior complexidade. Não só pela querela dos gatos e das lebres, mas também por outra, não menos importante: a dos hábitos e dos monges. É presunção sem base na realidade definir o viajante pelas vestes que o cobrem. Ou pelo camelo em que está montado.

Tal constatação, todavia, não constitui conhecimento. Ela tão somente nos mostra a armadilha que é reduzir a compreensão do lago ao que vemos na superfície. A querela sobre as espécies que se albergam sob a alcunha genérica de ciclista, entretanto, continua em aberto.

Pobre taxonomista. Que bioma complexo ele teria a descrever. Dos tiozinhos com Barra Forte – capa de time de futebol no banco – aos comensais da gravidade, o povo do downhill. Do controle magistral do equilíbrio pelo artista circense, pairando sobre o monociclo, à criança que pouco a pouco se apruma, amparada por duas rodinhas. Do rapazote que coloca nas costas o peso do mundo – não sei se estava escrito IFood, UberEats ou Rappi –, subindo montanhas em troca de vinténs, à musa fitness, que sobre a ergométrica pedala mais que ele, sem sair do lugar. Do bêbado que traça linhas tortas na estrada de chão, sob o luar. Do entregador que, numa bicicleta com uma plataforma à frente, carrega garrafões de água e botijões de gás. Do romântico inveterado que faz de tal plataforma garupa para a amada, ao entardecer…

Muitos outros ainda fariam parte desta lista, de tal modo que o taxonomista já estaria a desistir, não fosse o objeto de nosso interesse tão somente um tipo. Um tipo que vive em muitos, ainda que nem sempre o encontremos desperto.

“Flanar é ir por aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha ali à esquina, seguir com os garotos o lutador do Cassino vestido de turco (…)”. Através destas palavras, João do Rio define a jornada do flâneur, personagem urbano que ganha destaque na Paris oitocentista, imortalizado por Baudelaire.

Descortina-se, assim, o espécime a ser descrito: o Ciclo Flaneurensis, que pratica o ciclismo como flânerie. Flâneur é todo ciclista que, ao subir no camelo, tem por objetivo tão somente “ir por aí”. Nele, “o vírus da observação [está] ligado ao da vadiagem”, completaria o genial cronista fluminense.

Flanar de bicicleta é incorporar a criança a deambular num parque de diversões. Cada magrela é um brinquedo, convite à jornada. Cada jornada tem suas histórias: do Marcelo acelerando ao som do tema da vitória – “Abre! Abre! Abre!” –, espalhando o grupinho, ao Charles que acoplou um monte de bugigangas tecnológicas à calhambike: quando caiu, os cacarecos se dispersaram em velocidade, ultrapassando até quem puxava a fila. O mais ridículo é que o tombo começou quando os dois, sobre as bicicletas e em movimento, resolveram dar vazão a um surto de fraternidade brega: “Me dá um abraço, meu amigo!”.

Do Francisco e do Ronaldo, trocando ideias na estrada para Levy Gasparian, ao Leo, sentado no bar, respondendo à tia, que perguntou como ele podia beber cerveja logo depois de pedalar: “Por que você quer que eu largue a bike, tia?”. Do Marquinho entrando no hotel fazenda – Day Use, dizia a placa afetada – mais feliz que pinto no lixo, mas não deixando de questionar “se for em português é mais barato?”, ao Bocage, encostando a barriga no balcão do boteco, com ares de nobreza: “o toalete de vocês possui bidê?”.

Memórias pueris, mas que reúnem amigos e paisagens. Todos éramos, no fim, coadjuvantes, pois o grande e magistral protagonista não era nenhum de nós, mas o que nos cercava. O cheiro da chuva despencando sobre o solo seco. A sombra das árvores filtrando o luar. O canto de certo pássaro, qual solo na apresentação de uma orquestra. A flânerie descortinava o encanto do mundo, intensificando cores e sabores da experiência.  Como bem dizia o Murilão, ao se movimentar sobre o Mapa: “tudo é ritmo do cérebro do poeta”.

Gilberto Gil proclamou, certa vez, a novidade da guerra entre felizes poetas e esfomeados. Sem a pretensão de colocar em dúvida o furo jornalístico, é necessário pontuar: Marta e Maria já se desentendiam há milênios. Na bruta poesia da vida, o que felizes e esfomeados fizeram foi escancarar a luta. Ao menino que – montado numa velha bike, a serviço de aplicativos arranca couro – arrisca a vida em meio ao trânsito da grande cidade, a cizânia entre Frangos da Sadia e Patolinos Depenados parecerá, provavelmente, uma futilidade.

Tal conflito, porém, não fica só do lado de fora. Sob pressão evolutiva, o coração do Ciclo Flaneurensis entra em ebulição. Olhos no espelho, ele se pergunta: “Sou eu a figueira frondosa de folhas, mas parca de flores e frutos? Sou eu a luz que se encolhe sob o alqueire, a cidade que não subiu o monte?”

Aí, Belchior, não tem jeito! Quem outrora vivera sob Lua e Sol é agora prisioneiro do dia e da noite. Erguemos a cruz sobre os ombros, trilhamos o caminho. A magrela – pneus vazios – jaz enferrujando, num canto qualquer.

Na pendenga entre Marta e Maria – entre sustentar a presença e fruir a presença – o grande filósofo do Tiberíades deu razão à segunda: “Marta, Marta, estás ansiosa e afadigada com muitas coisas, mas uma só é necessária. Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada.” Noutras passagens, ele também indica a vivência plena das possibilidades do dia, sem excesso de preocupações com o amanhã. Pássaros e lírios seguem em paz, aconchegados pela Mãe Terra.

No entanto, qual sabemos, este é o mesmo moço de olhos brandos que falou sobre figueiras que não dão frutos, sobre luzes que não iluminam, sobre mordomos que negligenciam a própria administração. Como conciliar esta estranha moral, feita de (aparentemente) tão contraditórios conselhos?

Quem me socorreu foi Marshall Berman, que certa vez lamentou o fato de que a Modernidade, outrora percebida como um amálgama de contradições e potencialidades, passou a ser descrita ora com entusiasmo cego, ora com descrença apocalíptica: “Isto e Aquilo substituídos por Isto ou Aquilo”.

Desde então, percebi que Marta e Maria não são possibilidades excludentes. Marta e Maria estão dentro de nós. Ai de quem reduz o próximo a uma Marta. Ai de quem negligencia a Marta que há em si. No entanto, triste é aquele que, diante dos lírios da “melhor parte”, perde a chance de se fazer Maria, sorridente e feliz.

Há uma cena, em Cem Anos de Solidão, de singeleza absoluta, mas de imensa significação. Localizados em cidades distantes, os coronéis Gerineldo e Aureliano, conhecidos de velhas lutas, conversam longamente ao telefone. São temas de rotina, questões práticas de trabalho. É quando Gerineldo contempla o horizonte com olhar perdido e diz: “Aureliano, está chovendo em Macondo.”

Nessas horas, é Maria quem fala. Ela vê a chuva e o vento. O Sol e a Lua. Ela quer flanar pelas estradas de chão, no dorso de uma velha magrela. Ela sabe que o veículo em que perambulamos pelo mundo é “nuvem passageira”, é “cristal bonito”, é “castelo de areia” fustigado pelo mar. Por isso mesmo, ela quer “dançar na chuva”. Pobre de quem suprime a própria Maria. O Eu-Marta é capaz de feitos inestimáveis. Mas é o Eu-Maria quem cuida dos tesouros que as traças não podem consumir.

Comentando o I Ching, Confúcio fala sobre aquele que acumula responsabilidades no mundo: “Preocupações ainda o envolvem ao anoitecer. Perigo.” O perigo é ser engolido por Marta. Por isso, é preciso reagir. A reforma da calhambike está na lista. Não pode tardar.

Só que não será hoje. Antônio quer passear na rua, apesar da chuva que cai. Ele me incentiva a ser o melhor combo Marta/Maria que puder alcançar. Quando o chuvisco fica bem fraquinho, saímos do prédio. “Só pertinho, hein! Pode piorar!” Quando o coloco sobre os ombros, vejo pequeninas gotículas acumuladas nos fios de cabelo. Hoje não flano. Ainda assim, hoje danço na chuva. Hoje sou o camelo, para o flanar de alguém.

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