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Nem a Black Friday é sagrada

O cara sai do elevador e encontra uma árvore de Natal no hall do prédio. Poderia ter encontrado o porteiro, um vizinho ou até um xixi de cachorro de vizinho, mas encontra uma árvore de Natal. Numa segunda-feira, feriado da Proclamação da República.

Fato 1: Proclamação é, como Revolução em 1964, eufemismo pra golpe. Tava a monarquia lá de boa, mesmo com uma série de crises, com Pierre the Second curtindo a intelectualidade parisiense, esbanjando o conhecimento de diferentes línguas e o know-how numa penca de ciências e veio o Deodoro, Marechal situado entre a Mister Moore e o Calçadão da Halfeld e, na falta de um piriri à margem do Ipiranga, não gritou nada, porque o latim já tinha sido usado por Tiradentes e o Gabinete de Ouro Preto nem queria montar os pedaços. Depois foi o Deodoro que se viu chateado, porque achava D.P.2 um grande cara, que morreu em Paris, como outro Grande, o Otelo.

Fato 2: por que havia uma árvore de Natal e não uma estátua do Marechal no hall do prédio? Porque ninguém sabe que a árvore precisa ser montada no domingo do Advento e, na falta de uma estátua apresentável do Deodoro, lançam logo no meio do caminho aquele monte de lampinhas com bolinhas e vidro espelhado e lacinhos que parecem com laquê.

E nas varandas, janelas, sacadas, postes e onde quer que haja tomada na cidade tem um pisca-pisca. Todo mundo que tem uma lampinha colorida na cidade acende essa porra pra depois reclamar do governo e do apagão anunciado não é de hoje. Só que é tempo de paz, amor e foda-se, então foda-se. Mas que é cafona, é. Ainda mais aquelas que têm umas programações aleatórias… Calma, Jesus no coração, bora mudar de parágrafo.

Galera monta arvrinha cedo pra poder vender arvrinha, lampinha e presente cedo, afinal, Jesus ganhou presente até de três desconhecidos que seguiam a lampinha no céu, então o capitalismo precisa dele. E tem gente aí dizendo que ele era comunista… Malditos leitores da Bíblia!

E o troço vira paisagem. Toda a sacralidade de montar a árvore no dia certo, o ritual cristão da família reunida em prol de algo maior, que também acontece no dia de montar o presépio (não é no mesmo dia, muito trabalho prum momento só, tem que parcelar) vai por água abaixo porque quem viu a cafonice do vizinho pronta quer fazer maior. Parece competição de quem tem… de quem come mais cachorro-quente, o resultado nunca é bom.

Quando chega o Dia de Reis, a Décima Segunda noite do Shakespeare, as árvores ficam ou já se foram. Passou o Natal, manda tudo de volta pro saco com bola de naftalina, porque no Ano Novo ninguém quer saber daquela velharia na sala. Ou deixa lá, porque não tem festa em casa e o troço acaba parecendo membro da família.

No meio dessa confusão toda, outra tradição tipicamente brasileira acaba se dando mal também. A Black Friday, que acontece em ligação direta com o típico Dia de Ação de Graças, no qual toda família que não depende de ajuda do governo que não ajuda ninguém além da própria família come seu gordo peru. E troca presentes. (Nem preciso explicar o que é o Dia de Ação de Graças, todos nós, brasileiros, o vivemos espiritualmente todo ano.)

E o cara que saiu de casa na segunda-feira, dia 15 de novembro, dia da Proclamação da República que foi um Golpe Militar, viu no hall do prédio uma árvore de Natal e não uma estátua do Deodoro com lampinhas na lapela, recebe um panfleto na calçada anunciando que a Black Friday da farmácia, tudo com 50% off de desconto, vai ser imperdível na próxima quarta-feira.

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