Colunas

Carta ao Papai Noel

Querido Papai Noel,

só te chamo de querido porque todo mundo escreve assim e acho que você não vai ler uma carta que comece com mais sinceridade. E vou jogar a real: você é vermelho por causa da Coca-Cola, não me venha com essa de comunismo porque não cola mais. Já sei que nem toda criança no mundo ganha presente dia 25 quando acorda ou dia 24 se ficar de vigília. Só criança que tem dinheiro, cujos pais estão inseridos no mercado, ou até quem tem pouco dinheiro e ganha um trocado porque alguém se preocupa mais com a luta de classes.

Papai Noel, você sabe o que é luta de classes? Na sua casa deve ter duas classes: você e a Mamãe Noel, que são os patrões, e os duendes e as renas, que são os empregados. Como pouca gente conhece a Mamãe Noel, ela deve ficar lavando suas roupas grandes e vermelhas enquanto você investe no marketing pessoal, e isso também faz parte da luta de classes, porque ela deveria ter o direito de sair com o trenó enquanto você lava as calcinhas dela.

Queria falar dos duendes que trabalham o ano todo produzindo brinquedos e das renas que precisam treinar bastante pra cumprir o mundo todo em uma única noite. Eu sei, Papai Noel, a professora de Geografia me ensinou que a noite do mundo dura um dia inteiro, mas não pense que isso seja um atenuante: trabalhar uma noite dessas é coisa pra caramba, nem o porteiro aqui do prédio dá conta sem tirar um cochilo. Imagina se uma rena cochila!? Cê cai e morre! E vai falar que a culpa é dela! Vamos repensar isso aí e começar a distribuir os presentes antes da black friday, se quer mesmo acabar com o capitalismo (foi uma piada, Papai Noel, pode fazer HO HO HO).

Aqui embaixo, que você vê quando tá voando e escolhendo as casas com chaminé pra descer com produtos, tem muita gente precisando de ajuda e nem tem chaminé. Se for falar pensando globalmente, aqui no sul (e tudo pra sua casa é sul) tá complicado. Além da crise sanitária, que ficou enfatizada pelo vírus que matou um monte de gente, a crise econômica piorou e nem foi culpa só do vírus, faz parte dos ciclos econômicos do capitalismo. E tem também o preconceito. Não sei se você teve tempo de ler sobre isso, aconteceu já nessas semanas finais do seu planejamento logístico, então vou te contar: um pessoal na África do Sul detectou uma nova variante do vírus e o povo de fora resolveu fechar o país. É o que o Mia Couto e o Eduardo Agualusa chamaram de Duas pandemias. Ser honesto é complicado, ainda mais quando é terceiro mundo e tem muito preto. Nem sei se esses dois termos podem ser usados ainda, mas na realidade é assim que funciona.

Aqui no Brasil tá ainda pior, mas deve ter jornalista que escreve em laponiês pra você. Se tiver alguma dúvida, pode se disfarçar de Papai Noel de shopping ou de supermercado e basta um dia pra entender o que tá acontecendo. Claro que vai ter que disputar vaga, porque mesmo ainda na pandemia tem muito idoso colocando as pelúcias vermelhas pra tirar retrato com criança não vacinada no colo e ganhar um extra pra bancar os meses seguintes.

Pra você não achar que tô mentindo, vou te explicar por que mandei essa cartinha aqui pela internet, pelo jornal O Pharol. Podia te dizer que, como não vou querer um brinquedo, um caderno, um estojo ou uma mochila, algumas das coisas mais pedidas pelas cartinhas enviadas aos Correios, achei que corria o risco de o meu pedido cair nas mãos de algum cidadão de bem que quisesse interpretar esta carta como uma falta de teto, de carro ou de emprego.

Papai Noel, não estou pedindo pra mim!

Por isso mesmo não mandei minha cartinha pelos Correios: fiquei com medo de colocar meu envelope em uma caixa amarela e antes de ela chegar até você não termos mais os Correios. Papai Noel, cadê você!? Todo mundo escreve ou pensa em escrever, pelo menos uma vez na vida, pra você, e onde está você pra lutar contra a privatização dos Correios!?

Papai Noel, se você fosse honesto, vestiria calça azul e camisa amarela, sem marca da CBF, e levaria presentes na porta de cada pessoa do Brasil, até nas cidades mais longe de tudo, sem jogar pela chaminé e sair correndo. Você tinha que ter vergonha de usar vermelho. E também dessa barriga gorda de tanto beber Coca-cola. Cuide da sua saúde e pense melhor nas crianças.

Papai Noel, de todo o meu coração, crie vergonha na cara. Ou se foda aposente pelas leis brasileiras.

Com carinho,

Cidadão.

Publicidade