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Colunas

Meu amigo oculto é…

Não é incomum se sentir constrangido por ter medo de ter medo e não se sentir enlouquecendo ao experimentar o pânico que o acompanha. Demorei muito tempo para ter coragem de assumir em voz alta esse receio. A falta de competência para lidar com a essa luzinha vermelha que pisca dando o alerta para a sensação de medo de que o medo possa estar chegando.

O fim de ano é o momento no qual essa luz fica mais forte. Época de pensar no ano que passou, no que aprendemos e nas perdas que tivemos. E este ano, em especial, fez questão de ensinar que, ao contrário do que insistimos em acreditar, temos muito pouco controle sobre nossa vida. Inclusive sobre a duração dela. Ela pode terminar de repente e nos obrigar a reorganizar nossos sonhos, reinventar nossos papéis e seguir de pé quando a maior das vontades é desabar.

Mas é nesses momentos que percebemos a sorte que temos ao encontrar, ao longo da vida, o melhor dos presentes, tão bem detalhado pela brilhante jornalista Eliane Brum: “O mundo é salvo todos os dias por pequenos gestos. Diminutos, invisíveis. O mundo é salvo pelo avesso da importância. Pelo antônimo da evidência. O mundo é salvo por um olhar.”(Em seu livro “A vida que ninguém vê”).

Já parou pra pensar quantas vezes, ao longo dos últimos 365 dias, sua vida foi salva por esses pequenos gestos? Eu resolvi fazer esse inventário.

Reconheço agora o quanto as mensagens de carinho que recebi de amigas e amigos, que o mercado de trabalho levou pra longe, me fizeram pensar: como é bom alguém disposto a saber como você está sem ter absolutamente nenhuma necessidade disso além de manter os laços de afeto. Alguém que você já não vê, ouve ou encontra faz anos… Mas faz questão de fazer parte da sua vida. Essas mensagens salvam.

Assim como salvam os abraços de acolhida que vi funcionários da escola do meu filho ofertarem na retomada das aulas presenciais. Como salvou o depoimento da diretora da escola reconhecendo nele a gentileza e afetividade que fazemos questão de cultivar ou a lágrima que escorreu no olhar da professora que pôde sentir o cheirinho do perfume que ele fez questão de passar para reencontrar os amigos.

Minha vida foi salva, sem alarde, ao abrir a porta de casa às 6h30 da manhã e encontrar a cadeira de escritório do meu pai depois de comentar com ele que a minha estava ruim; na broa de fubá quentinha que minha mãe fez em poucos minutos depois de me ouvir choramingar que tinha ido ao mercado comprar os ingredientes para fazer uma porque estava com vontade de comer e, ao jogar os ovos na tigela, eles estavam velhos e estragaram a massa toda…. É salvo nas 35.987 ligações que minha irmã me faz diariamente só para que eu possa, mesmo do outro lado da cidade, acompanhar cada travessura que meus sobrinhos fazem incansavelmente. Ela foi salva por aqueles alunos maravilhosos que não só topam o que a gente propõe, mas dobram a aposta. Estimulam, incentivam, demonstram o prazer em aprender.

Gestos diminutos como um pote de biscoitos feitos em casa, que foram separados pra mim; como uma troca de confidências com a comadre que também segue tentando aprender como é que a gente faz pra seguir em frente; com o depoimento de fé da tia que não esmorece diante das dificuldades; ou do sorriso da avó que, aos 95 anos e com muitas perdas acumuladas, segue acreditando que a vida vale a pena.

Dentre os gestos invisíveis está a cumplicidade de quem topou gastar o dinheiro que não tinha pra tirar meu sonho do papel e vai passar horas comigo, dentro da piscina, pensando em como vamos fazer para ajustar as contas. Estão também as inúmeras mensagens nos grupos de família e amigos que, embora nem sempre a gente responda rapidamente, nos confirmam que fazemos parte de um grupo que está lá por nós, lembrando de onde viemos.

E, nessa última coluna do ano, tenho a ousadia de convidar você: salve a vida de alguém hoje! Não será preciso subir em um arranha-céu, entrar em uma casa em chamas ou se aventurar em manobras de primeiros socorros. Certamente na lista de desejos que muitos nem ousaram pedir nesse Natal estão: se enxergar em um olhar que de fato o vê em sua humanidade; uma escuta genuína que não se preocupa mais com a réplica do que com o que está sendo dito; uma companhia que se sente silenciosamente ao nosso lado apenas para oferecer a segurança da sensação de que não estamos sozinhos; uma mão estendida que resolva um problema possível sem perguntar se a ajuda é necessária, apenas resolve e segue seu caminho.

Sinta-se neste momento meu amigo oculto. Receba meu desejo de Natal de que você também tenha a sorte de ganhar um desses presentes e seja capaz, assim, de viver um ano realmente novo.