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Entre o gestar e o nascer em tempos de pandemia

"O medo de que a Covid me arrancasse o filho ou me arrancasse a vida acabou me arrancando o tempo, o convívio, a presença" (Foto: Camila Cordeiro/Unsplash)

“Ninguém nascido de mulher poderá, em nenhum tempo, fazer mal a Macbeth.” Não sei quando exatamente foi que passei de achar a frase mais uma genialidade shakespeariana a senti-la como uma violência. A citação é uma das profecias das três bruxas ao personagem título da tragédia, vaticínio que o faz se pensar imbatível. “A vida tenho assegurada contra qualquer homem nascido de mulher”, é o que ele diz a Macduff. A resposta, porém, não tarda, em forma de palavra e de lâmina: “Perde a confiança em tal encantamento, e que o mau anjo a que serviste até hoje te declare que do ventre materno foi Macduff tirado antes do tempo”.

Não, esta não é uma crítica de teatro, nem uma análise literária daquela que é considerada a peça maldita do dramaturgo inglês. Também não é, porém, um relato de parto, embora minha mudança de compreensão sobre os versos se deva, em parte, ao meu. Na interpretação de maior consenso entre os estudiosos, Macduff é capaz de derrotar Macbeth porque nasceu de cesariana. A referência me dói intimamente quando penso no meu próprio filho Tito (que, embora não por isso, tem o nome de outra tragédia de Shakespeare). Dói quando penso no corte que me abriu o baixo ventre há pouco mais de dois meses para tirá-lo de lá. “Ninguém nascido de mulher”: são as palavras que ecoam. Fracassei eu como mulher quando, depois de quase 24 horas de trabalho de parto, sentindo todas as dores e fazendo todas as forças possíveis, ele precisou de uma cesárea para nascer?

Na reportagem “Para mudar a forma de nascer em Juiz de Fora”, publicada por O Pharol no último dia 21 de dezembro, a jornalista Flávia Lopes apontou que o índice de cesarianas realizadas na cidade em 2020 foi de 57,19%, bem acima dos 10% a 15% recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Sei, por tudo que estudei para ter um parto normal, que a cesárea pela qual passei era necessária. Mais do que isso, era de indicação absoluta. Além disso, foi, como deveria ser, uma cesárea intraparto, ou seja, numa situação em que o trabalho de parto começou espontaneamente, com contrações e dilatação (no meu caso, contrações frequentes e dilatação completa), mas, por algum motivo, o parto normal deixou de ser indicado.

A cesariana, para mim e para tantas, foi uma cirurgia fundamental; e que salva vidas. Mesmo assim, a frustração existe. Se, de um lado, a realização massiva de cesáreas eletivas pode ser considerada uma violência — à mãe, porque muitas vezes é vítima de uma má prática médica guiada, muitas vezes, por questões financeiras; ao feto, porque, como Macduff, “tirado antes do tempo” —, para a mulher que idealizou um parto normal que, por desventura, não foi possível, a sensação de fracasso também é uma agressão. “Ninguém nascido de mulher.” Meu filho nasceu, mas eu não o pari, é o que martela na cabeça. Como se, ao contrário de tantas, eu não tivesse sido mulher o suficiente.

Para a mulher que idealizou um parto normal que, por desventura, não foi possível, a sensação de fracasso também é uma agressão

É preciso que todo o importante ativismo pela humanização do parto nos livre desse pensamento e dessa culpa. Parto humanizado não diz respeito à via de parto, mas ao respeito tanto ao protagonismo da mulher quanto ao momento em que o bebê dá sinal de que está pronto e maduro para nascer. E é isso que O Pharol se propõe defender quando levanta essa discussão. Mudar a forma de nascer. Humanizar a forma de nascer, qualquer que ela seja.

O que a pandemia arrancou antes do tempo

Passar por uma cesárea que, a princípio, eu não queria foi só o desfecho de um longo processo de dificuldades e medos e culpas e dores trazidos por gestar uma vida entre tanta morte. Não foi fácil estar grávida e dar à luz uma criança no meio de uma pandemia que devastou tanto. Em 2020, tive receio de ser contaminada pelo vírus da Covid-19 e passá-la para alguém. Em 2021, isso se transformou num pavor absoluto de pegá-lo e morrer. A citação de Macbeth também traz essa dor. Em outra interpretação corrente, Macduff foi “tirado antes do tempo” porque a mãe não seria mais uma mulher, mas um cadáver. Essa foi, infelizmente, a realidade de muitas mulheres e crianças no Brasil.

Dados do Observatório Obstétrico Brasil da Covid-19 entre março de 2020 e outubro de 2021 demonstram que o vírus e a falta de gerenciamento adequado da pandemia fizeram como que a taxa de letalidade, que entre a população geral foi de 2,8%, saltasse para 11,7% entre gestantes e puérperas. Até outubro, haviam sido registrados 1.912 óbitos maternos apenas por Covid-19, 1.453 dos quais em 2021. Antes da pandemia, a média anual registrada no Brasil de 2015 a 2019 havia sido de 1.692 óbitos maternos por todas as causa obstétricas diretas e indiretas. Vale destacar que o levantamento não incluiu os óbitos maternos por síndromes respiratórias agudas graves (SRAG) não especificadas nem as mortes maternas tardias, de 43 dias a um anos após o parto, por sequelas e/ou consequências da Covid-19.

Só em julho de 2021 é que o Ministério da Saúde publicou nota técnica preconizando a vacinação de todas as gestantes e puérperas, com exceção das adolescentes. Como destacou a obstetra Melania Amorim (conhecida por quem assistiu ao documentário “O renascimento do parto”) em suas redes sociais, isso fez com que a partir de meados de julho (mês em que tomei minha segunda dose!) o número de casos e de óbitos maternos por Covid-19, felizmente, caísse. Entretanto, a médica ressaltou que, até agora, apenas 55% das grávidas e puérperas receberam a primeira dose e 45% o esquema vacinal completo, um ritmo mais lento do que o verificado na população não gestante, em parte devido a médicos antivacinas e, em alguns lugares, à exigência de prescrição.

O medo de que a Covid me arrancasse o filho ou me arrancasse a vida acabou me arrancando o tempo, o convívio, a presença, e tornando a gestação do Tito profundamente solitária. Fez também com que eu tomasse decisões pessoais que, no momento em que o trabalho de parto deixou de evoluir, me fizeram questionar o que eu poderia ter feito de diferente. Foi o ioga para gestantes que amigas me recomendaram fazer presencialmente e eu não fiz? Foi a falta de fisioterapia pélvica, por eu ter ficado reclusa em casa e não ter procurado um fisioterapeuta de forma presencial?

Na verdade, nada disso alteraria o desfecho, mas tudo se soma às tentativas de responsabilização individual da mulher quando a humanização do parto e a saúde materno-infantil deveriam ser pautas coletivas. Como se, num cenário de cesarianas desnecessárias excessivas, fosse responsabilidade da mulher estudar e se preparar para cobrar o direito de ter um parto normal. Como se, tendo condições financeiras para tal, fosse responsabilidade da mulher contratar toda uma equipe multidisciplinar para acompanhá-la na gestação e no parto (e como ficam aquelas que não têm a mesma condição?). E como se, diante da criminosa gestão do governo federal no enfrentamento da pandemia no país, fosse responsabilidade da mulher distanciar-se de tudo e cuidar de não morrer. Cheguei a chorar de raiva e desespero quando, no mesmo dia em que informei no trabalho que estava grávida, o Ministério da Saúde recomendou que as mulheres adiassem os planos de gravidez por causa da pandemia. Ou quando li gente supostamente esclarecida e progressista escrever nas redes que era absurdo e egoísta alguém cogitar ter um filho enquanto o mundo colapsa, como se planejamento familiar também devesse ser baseado apenas em vontades pessoais e não pauta para discussão de políticas públicas.

Que me perdoe Shakespeare, mas a profecia é absurda. É preciso ser muito mulher, sim, para parir, qualquer que seja a via de parto, no Brasil.