Publicidade
Colunas

Lúcifer já foi um anjo

O 8º Círculo do inferno, da "Divina Comédia", em representação de Sandro Botticelli. (Imagem: Reprodução/Wikimedia)

Este não é texto pra passar pano pra ninguém. E esse Lúcifer do título não é figura de linguagem pra Bolsonaro, outros militares maus que governaram na ditadura ou o Fleury. Todo mundo sabe que mau mesmo é o Pica-Pau. E nem é sobre ele. Sejamos literais: é o Lúcifer mesmo, o anjo decaído.

Quem lembrou que ele era um anjo foi o Neil Gaiman, no roteiro do capítulo em que o capeta desiste do Inferno. “Lúcifer não é necessariamente uma pessoa má.” Assim o escritor apresenta o personagem pro desenhista Kelley Jones e explica que ele teve uma eternidade pra pensar no que fez e se arrepender.

Talvez seja essa a proposta, menos do Inferno e mais do Purgatório, que é ali do lado: pensar até o arrependimento e ir pro Paraíso. No caso de Lúcifer, que não estava no Purgatório, quando tomou a decisão caiu fora, cortou as asas e veio curtir a vida no mundo real. E se isso é um spoiler, é um spoilinho, porque dá início ao arco Estação das brumas da maravilhosa criação de Gaiman pros quadrinhos: Sandman. Pra deixar com mais vontade: Lúcifer fecha o Inferno e entrega as chaves pro Sonho. Ele que se vire, porque muita gente vai querer o latifúndio.

O tempo pro arrependimento precisa ser corrigido, não foi tão eterno assim. James Ussher, bispo de Armagh, na Irlanda, fez as contas e confirmou, em 1658, que o mundo foi criado no dia 22 de outubro de 4004 a.C. Calculou (e não foi o único, mas o mais aceito entre os contabilistas) com base nas gerações e no tempo de vida dos constantes na Bíblia. Ainda levou em conta que, como disse o moço que criou, os dias se equivaliam às noites, ou seja, equinócio de outono.

Outono porque o mundo foi criado no hemisfério norte, terra dele, onde quase tem o sol da meia-noite. E tendo em conta que o deus da Bíblia é sueco ou alemão, porque o filho é louro e de olhos azuis. Voltando às contas, o mundo tem pouco mais de 6 mil anos. Hora de falar de turismo.

O Inferno deve ser um lugar legal. Se não pelas torturas, orgias ou pelo calor (tem praia, tá no Dante), pelo menos pelas companhias. Nem tanto pela lista do Dante Alighieri, mas pela do Woody Allen, que coloca um andar (lotado) só pro pessoal da mídia no Desconstruindo Harry. Fala-se mais dele no dia a dia do que no Paraíso, Dante começou por ali sua Commedia ou não venderia tantos livros e até Jesus deu uma passada lá. Foi Pedro que disse.

Inferno é pra onde vão os pecadores, os injustos, os errados. Os que têm dúvidas param no Purgatório, isso quando há Purgatório, depende da referência consultada. Se não há Purgatório, há Inferno e fila na porta do Paraíso, e ninguém conhece melhor essa fila do que Pedro, que tem a chave. Por isso ele escreveu (ou ditou pra alguém, é o mais provável, porque o governo de esquerda de Jesus ainda não tinha emplacado e pescador tinha que viver do que pescava, sem incentivo pra estudar):

Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito, no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão, os quais, noutro tempo, foram desobedientes quando a longanimidade de Deus aguardava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca, na qual poucos, a saber oito pessoas, foram salvos, através da água

Pois se J.C. foi pro Inferno, mesmo que só de escala, por que não gostaríamos de passar todos por lá? Nem que fosse por uns anos, talvez uns 6 mil, pra gerar um arrependimentozinho. É só não ler a frase na porta, que o Dante contou pra todo mundo: Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate. Tem esperança, até Lúcifer conseguiu dar o fora.

Por isso que o intelectual Olavo de Carvalho ir pra lá não é uma notícia ruim pra ele. Ele vai ter tempo pra se arrepender. Prum anjo demorou só os ditos 6 mil anos aproximadamente. Pra ele talvez demore um pouco mais, levando em conta também o que falou e como tratou as pessoas. E se ele foi um bom mestre, fez com que seus discípulos, mais literais que reflexivos, entendessem o que são. Parem de propagar o que não entendem de verdade e, como bons seguidores, sigam.

Justiça moveu o meu alto criador.