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Nem sempre a pedra fala

Quando Michelangelo martelou Moisés pra ele falar a situação estava fácil: o Moisés já estava ali, faltava só a voz. Como o próprio escultor dizia, ele estava na pedra desde antes de os excessos terem sido tirados. Depois, diante do cara de pedra que apresentou as pedras pro povo, Michelangelo ficou indignado por não ouvir o que queria.

Imagina o Sísifo…

A pedra do Sísifo não tinha cara de Moisés, Abraão ou Jesus. Tinha cara de nada. Era redonda e, depois de tanto ser lustrada morro acima e morro abaixo, ficou bem lisa. A alegria do Sísifo era ter a pedra lá no alto do morro, onde ela deveria ficar, se o alto do morro não fosse pontudo e a pedra, teimosa: rolava.

O Sísifo empurrava exaustivamente a pedra morro acima, usando força e domínio dos calços pra evitar que ela saísse do controle. Depois, disparava morro abaixo atrás da redonda o mais rápido que podia, pra não perder de vista o trambolho e tentar pará-lo o quanto antes.

Sísifo era jornalista.

O jornalista que tem fonte rápida de fala fácil não vai muito alto.

Jornalista bom já teve fonte na mão, fonte bruta, daquela raiz mesmo, e teve que lapidar até falar. Empurrou e empurrou o entrevistado por arestas e apoios, ora jogando pro lado, ora dando mais um toquinho pra cima, até chegar lá.

Jornalista bom corre atrás da fonte sem se cansar, porque fonte que foge muito costuma ter peso. Lá se vai o coitado tropeçando em buracos, dando solavancos e torcendo pra pedra diminuir a velocidade e não se chocar com outra até que seja alcançada. Quando alcançada, lá se vai o coitado morro acima com bloco e caneta na mão.

Há fontes mais fáceis de serem conduzidas, mas tudo depende do equipamento que o jornalista tem, conquistado com o tempo. O cinzel é a língua; a lixa, a retórica. Uma ou outra martelada de figuras de linguagem e o que-quem-quando-onde-como-porque vira literatura. Com reflexão, vale dizer.

Sísifo foi condenado e empurrar a pedra (e correr atrás dela) por toda a eternidade. Jornalistas morrem, geralmente por consequência da profissão, ou fariam o mesmo. A curiosidade do jornalista não fica velha, decanta. O jornalista de verdade, mesmo sem a lide diária do jornal, não resiste a um pneu cantando, ao sussurro no pé de ouvido visto do outro lado da mesa, ao óbvio demais.

O jornalista, como Sísifo, persevera.

Como Sísifo, às vezes perde o ponto de equilíbrio e erra. Mas aprende e persevera.

Se a pedra voltar, Sísifo deixa de ser Sísifo. Se a mentira atropelar o jornalista, ele deixa de ser jornalista. A verdade sempre está lá no alto; na falta de uma verdade absoluta, a pedra sobe e rola pro outro lado. E o jornalista corre atrás, buscando entender.

Alguns se lamentam no cigarro (morrem mais cedo), outros na cachaça (morrem mais felizes), mas todos lamentam. Raramente chegam numa mesa de bar com a pedra no alto da montanha, dificilmente saem de lá sem vontade de empurrá-la de novo.

Voltam pra casa esbodegados, aguardando a ressaca e a força do dia seguinte pra começar tudo de novo, mas jamais do mesmo lugar. A informação circula, como a pedra, e o jornalista precisa encontrar novos caminhos pra levá-la ao alto do monte.

É em casa que aprende, com os seus pares, o valor da insistência e os tapas e beijos que pode colher com ela. A casa do jornalista é o jornal. A cada dia essa casa está em reforma, ou a cada minuto, nesse universo on-line da pedra cada vez mais veloz. Há um ano O Pharol insiste, persevera, coloca novos tijolos em seus links, pedra sobre pedra. Eis mais uma.