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O câncer e o óbvio

(Foto:Reprodução/Twitter)

Neste ano de plebiscito, é importante dizer o óbvio.

Muita gente não entende o óbvio, é óbvio, nem quando vê o filme da Netflix que coloca o óbvio em vários andares. (O poço, filme espanhol que ficou conhecido pelo velho do óbvio.)

O velho do óbvio volta no penúltimo parágrafo.

Qualquer cidadão medianamente informado, ou menos informado ainda, sabe um pouco da história recente do Brasil. Tudo passa por política, porque, se as coisas dão certo, é por causa dos políticos e, se dão errado, a culpa é deles.

O Plano Real, por exemplo: deu certo. Depois teve uma crise grande, quase como na Argentina, inspiradora do plano, na tentativa de manter o dólar pareado. Parabéns à equipe de economia escolhida pelo presidente Itamar Franco pelo Real, porque foi uma equipe e não apenas um homem o autor do projeto, óbvio. O autor da crise também não foi só o presidente Fernando Henrique Cardoso, óbvio.

Como não basta uma moeda nova pra uma economia forte, o Brasil foi aprendendo a se estabilizar. Com políticas sociais, o governo do presidente Lula fez a crise mundial se tornar marola por aqui. Mais importante do que a imagem internacional do país, fez melhorar a vida do brasileiro. Todo brasileiro teve a vida melhorada durante o governo Lula, óbvio.

Nem tão óbvio pra alguns, questão de senso da realidade. Como as crianças, que brincam e acreditam em tudo o que fazem: voam, cavalgam montarias lindas e jogam raios pelas mãos. Quem olha de fora vê moleques correndo, cabos de vassoura e braços estendidos. Quem nega ter tido melhoras na vida no governo Lula voa, cavalga e raia. Pra quem tem senso de realidade e olha pra essas não-crianças vê um pouco do ridículo, óbvio.

Essas crianças adultas foram as que não conseguiram acompanhar o pouco desenvolvimento da jovem democracia brasileira. Enquanto países de democracia madura podem se permitir debates mais profundos, nas jovens a prosa ainda se movimenta bastante com amparo no óbvio. As maduras também usam o óbvio, mas as mudanças no sistema não costumam ser radicais. Nas jovens, qualquer desconfiança que recaia sobre um governante, amparada em fatos ou não, recai sobre o sistema. Quem fala que a culpa de tudo que ocorreu em 2016 foi da Dilma deixa de reconhecer o óbvio. Num país sem regulamentação da mídia, os motivos pra isso são óbvios também.

Exceto os saudosistas dos tempos de Sarney, ninguém gosta de pagar pra abastecer o carro três vezes mais do que cinco anos antes, menos ainda sem receber três vezes mais. Isso pra não falar no gás, na cesta básica, na fila do osso, no preço da passagem de ônibus (porque avião só de papel, e de rascunho, pra não desperdiçar). O cenário deixa claro que a situação não está boa, óbvio.

A situação não está boa no mundo. Pessoas continuam morrendo de tudo e de Covid, tem um monte de guerras que sempre ocorrem e a da Rússia na Ucrânia, as tecnologias continuam avançando cada vez mais e as pessoas ficam aliviadas quando se desconectam, as crises financeiras do capitalismo são cada vez menos constantes e a culpa nunca é do capitalismo, óbvio.

O Brasil não vai melhorar de repente, óbvio.

Nem se uma liderança experiente assumir o poder e tentar desfazer alguns males das metástases recentes. O que não se pode é deixar de tentar.

Quem quer milagre reza, quem tem fé no homem vota.

Muito se poderá discutir num futuro democrático do país, se a democracia voltar a amadurecer, as instituições recobrarem a credibilidade e a autocratização deixar de ser, junto com falácias, o modo de governar. Por enquanto, precisamos do óbvio.

Eis que retorna o velho do óbvio. Bote fé no velhinho, o velhinho é demais. Bote fé no velhinho, ele sabe o que faz. Vai o mudar o Brasil do Oiapoque ao Chuí? Pelo menos acabar com a molecagem que tem por aí.

Quando ao outro assunto do título, quanto antes for extirpado, melhor.