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Nada será como antes

Tudo muda. Cedo ou tarde, muda. Isso o mundo sabe desde seja lá qual a sua origem, mas o Heráclito tem o panta rei mais legal, aquele do rio em que não se entra duas vezes. Se tudo muda, algumas coisas que têm um significado num momento podem ter outro significado dias, anos, séculos depois.

É igual gíria. Um dia falar “manêro”, “vênas”, “brou” foi descolado; hoje é jagodes. Só que a gíria nasce nos clãs, nos grupos pequenos de afinidades comuns, e cresce a partir de quem é próximo a esses grupos, chegando ao mainstream já na bica de morrer. Algumas mudanças acontecem em coisas que duraram muito tempo e pareciam imutáveis.

A semiótica fala de ressignificação. Isso pode acontecer porque a coisa mudou de verdade, o contexto da coisa mudou ou quem usa a coisa mudou. Um exemplo de cada:

A coisa mudou: cair a ficha é uma expressão que ainda funciona no cotidiano e muita gente repete sem saber o que significa (como vira e mexe ou cuspido e escarrado), mas o telefone de ficha virou de cartão e alguns já até sumiram, porque o celular chegou.

O contexto mudou: merda no teatro é sinal de sorte. Segue sendo, mas a origem disso não funciona mais. Na época do Molière, quando esse desejo de boa sorte surgiu, as pessoas iam ao teatro em cavalos e carruagens, então ter merda de cavalo do lado de fora significava muito público. Hoje as pessoas mal vão ao teatro, o que é a verdadeira merda, mas o jeito de desejar bom espetáculo em meio ao grupo segue o mesmo.

Quem usa a coisa mudou: a pochete. Tem gente que já parou de ler o texto, nem quer saber. A pochete, em suas tantas modalidades, chegou aos anos 90 arrasando. Prática, cabia nas festas, nos bares e no trabalho. Quem usa hoje, como cantam os Zecas Baleiro e Pagodinho, pode até ser cool, mas tem passado trash.

Quem usa a coisa mudou também quando se fala em governo. Instituições que deveriam servir ao povo acabam por se tornar aparelhadas. A EBC, Empresa Brasileira de Comunicação, tinha liberdade pra trabalhar a informação, mesmo sendo parte do Estado, como destaca Eugênio Bucci. Depois do golpe de 2016, se tornou agência de comunicação do governo, mais assessoria que jornalismo em certos canais, se não agência de propaganda em momentos apropriados.

O contexto mudou também no Paraná, quando uma festa de aniversário de 50 anos se transformou em velório. O que seria uma celebração em contexto democrático se tornou um assassinato porque “aqui é Bolsonaro!” E esse crime de claro contexto político deixou de ser porque a polícia que investiga simplesmente quis assim.

A coisa mudou também no que concerne ao parto. Sempre se repetiu que a dor do parto é a pior que existe, mas o médico Giovanni Quintella Bezerra reconfigurou a definição de pior. Como ele não pode parir, que a Lei de Talião seja deixada de lado pra que ele possa ressignificar, em si, ainda mais o conceito de pior. Sem anestesia.

Em tempo: hoje (sexta-feira) Bolsonaro esteve em Juiz de Fora e seria um prato cheio pro texto da coluna, mas a coisa que era político profissional em 2018 ainda vai deixar de ser, o contexto antidemocrático pós-golpe ainda precisa ser superado e a faca só o atingirá novamente em outubro e será usada pela esquerda.