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Botando a casa abaixo

Tenho perdido as noites de sono ao reler, com a atenção que ele merece e que agora posso dar, o best-seller “Casta: As origens de nosso mal-estar”, escrito pela jornalista Isabel Wilkerson, vencedora do prêmio Pulitzer. Em suas reflexões, a autora nos faz reconhecer o sistema de castas sobre o qual nossas sociedades foram moldadas com tamanha rigidez que, ainda hoje, é capaz de nos dividir.

Em determinado momento do livro, Wikerson faz a analogia entre a realidade do seu país (e que li utilizando o nosso como referência) e uma casa velha construída de forma improvisada e que já apresenta uma série de problemas, como as goteiras que aparecem em cada cômodo, sendo acompanhado por um balde a cada chuva forte; o degrau que range e que, por isso, passa a ser evitado; a mancha de mofo na parede com um vazamento que vem não sei de onde, mas que é tapado com um móvel velho que arrastamos de lugar. Como ela brilhantemente sintetiza, em muitos casos, “o desleixo se torna aceitável, e o inaceitável se torna apenas inconveniente”.

Me assusta termos passado a considerar o inaceitável como inconveniente. Como desagradável, como ordinário ou simplesmente idiota. Quem dera o problema tivesse só esse tamanho.

A realidade que vivemos em nosso país atualmente só pode ser descrita com uma palavra, em minha opinião encharcada de desespero e angústia: inaceitável!

É impossível descrever a sensação de assistir a cena de estupro cometido por um médico contra uma gestante em trabalho de parto, sua paciente, diante de uma equipe de profissionais de saúde, em um hospital referência em atendimento às mulheres. Passamos de incrédulos a enojados e raivosos em questão de segundos. Para terminar, anestesiados. E, infelizmente ao contrário do que sempre acreditei, parece ser a única forma de se viver no Brasil atual.

A sucessão de barbaridades a que somos submetidos diariamente está nos adoecendo. Não dá mais para ser ingênuo e tratar cada problema como um caso isolado. Definitivamente não é.

Me pergunto quais comportamentos e discursos ao longo da vida fizeram com que esse estuprador, formado em medicina, se sentisse autorizado a cometer um crime como esse diante de uma equipe profissional dentro de um hospital? O que pensam as pessoas que imediatamente correram para criar algumas dezenas de perfis fakes com as fotos do criminoso e que ganharam, em minutos, milhares de seguidores? Até quando será preciso que seja uma equipe formada exclusivamente por mulheres, enfermeiras, a desafiar a hierarquia, criada para manter a nossa velha casa de pé, a se responsabilizar por defender outras mulheres?

Será que vale a pena reformar essa casa? É possível edificar sobre esse projeto malfeito e injustamente pensado uma estrutura que caiba, de forma saudável e justa todos e todas nós. Tem dias que parece impossível acreditar que sim. Hoje é um destes dias nos quais não imagino futuro melhor do que darmos de cara com uma retroescavadeira.