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Quem diabos é Nelson Piquet?

O título é a tradução livre da proposta que um Harry (@formularaducanu) postou depois da declaração de Nelson Piquet: “What if Lewis Hamilton just tweeted ‘Who the fuck is Nelson Piquet?’ then closed twitter”. Hamilton simplesmente comentou: “Imagine”. Em seguida, tuitou: “Vamos focar em mudar a mentalidade”.

De onde vem essa polêmica? Da fala do Piquet chamando o Hamilton de “neguinho”. Pra quem conhece o histórico de Piquet, sabe que esse “neguinho” é menos Marcelo D2 (“Essa onda que tu tira qual é, neguinho, qual é?”) e mais uma forma de diminuir o negro, que para muitos já é menor por ser negro. Entre tantos comentários racistas que se fez sobre Lewis Hamilton em mais de 15 anos de Fórmula 1, por que esse de Nelson Piquet gerou tanta discussão? Convém saber quem é Nelson Piquet e quanto Lewis Hamilton deve a ele.

E não é pouco.

A ele e a qualquer piloto que registrou o nome na história da Fórmula 1, com títulos, vitórias ou até participações em momentos importantes, das emoções em pista às tragédias. Nelson Piquet foi um desses pilotos, como tantos, e que podem ser divididos em categorias diferentes, seguem três exemplos.

Piloto espetáculo é o Ayrton Senna. Sujeito que entra no carro e ninguém vê, mas não tira o olho dele quando as luzes vermelhas se apagam. Ou as verdes se acendem, como era antes. Nessa categoria tem também o Nigel Mansell, o Leão, capaz de fazer da curva uma reta se o asfalto não corresponde às suas expectativas.

Tem piloto que é técnico, como Alain Prost, capaz de calcular estratégias dentro e fora da pista pra tirar o melhor de cada negociação, com equipes ou contra adversários. Não é em vão chamado de Professor. Outro europeu que entra nesse grupo é Fernando Alonso, mas ainda está na pista, requer mais distanciamento pra ser julgado.

Há a categoria do piloto completo, que conhece o potencial do carro na pista e na oficina, entende antes da primeira volta o que pode ser feito com cada máquina e ainda se envolve nas questões políticas de bastidores. Niki Lauda é dos mais brilhantes, Michael Schumacher dos mais premiados e Nelson Piquet dos mais polêmicos entre estes.

Em função dessas qualidades, Piquet é lembrado por fazer parte do primeiro pit stop planejado (justamente na Áustria, corrida deste final de semana, mas 40 anos atrás) e pela invenção do aquecimento de pneus (com controvérsias). Vai dizer que Hamilton não deve agradecer? A Piquet e aos demais.

Desde sempre a Fórmula 1 se pautou em números. Tempos melhores, voltas mais rápidas, pontos, vitórias, pódios (Hamilton bateu outro recorde semana passada) e títulos. Pode colocar no paredão: Piquet tem 3, Hamilton tem 7 (e tá na ativa; mesmo que não ganhe outro, vai incomodar e este ano ainda, pode anotar).

O primeiro título de Hamilton, aliás, foi conquistado no Brasil em 2008, depois que o Felipe Massa ficou campeão do mundo por meio minuto. Sem tirar o mérito do campeão, o ponto que deu o título não faria diferença se Massa tivesse, com a ordem natural das coisas, vencido o Grande Prêmio de Cingapura no mesmo ano. Só que teve aquela polêmica toda, que Reginaldo Leme chama de “Maior escândalo da Fórmula 1” em seu AutoMotor número 18. Adivinha quem estava nos bastidores do acidente que favoreceu um apagado Fernando Alonso, vencedor da prova? Não era culpado, mas voltou à berlinda ao revelar ao jornalista a trama que envolvia a chantagem sofrida pelo filho.

Hamilton tem o melhor início de temporada de um piloto na história da F1 (e sofreu com xingamentos racistas naquele ano, 2007, na Espanha, quando era companheiro de Alonso na McLaren), tem quase todos os recordes da categoria e ainda segue na pista. Há quem diga que se o Schumacher tivesse ido pra Williams ao invés de seguir pra uma Ferrari a ser construída, teria mais títulos. Há quem diga que se Senna não tivesse morrido, seria imbatível. Há quem diga que se o Jim Clark ou que se o Fangio… Há quem diga, e é um professor, que na História não tem se.

Hoje, temos um piloto na ativa com um carro de crescente potencial e um piloto aposentado que teve seus momentos de brilho na Fórmula 1. Em outras palavras, temos o pai da namorada do campeão (não chega ao status de mãe de miss) usando racismo por falta de argumentos contra o piloto inglês. Quando vier ao Brasil, Sir Lewis, o piloto, pode pedir um Rolls Royce de Uber e ser conduzido por Seu Nelson, o motorista.