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Colunas

A gente não quer só comida

(Foto: Jez Aznar/Getty Images)

A gente quer comida, diversão e arte, mas não dá pra ter os outros dois sem o primeiro. O brasileiro tá passando fome, tá na fila do osso e em breve vai ter crescentes dados de inanição infantil, agravados com o tempo pra problemas mais sérios de saúde, sobrecarregando o SUS que tem teto de gastos.

Aos poucos o Brasil vai morrendo.

As negligências em relação à Covid-19 não foram suficientes pro governo de Jair Bolsonaro, ele agora que cortar na base, na merenda escolar. Não adianta aplicar Paulo Freire em barriga vazia, taí o subtexto da proposta. Foram anos apedrejando o patrono da educação brasileira pra no final ele morrer de fome. E bem no final do governo Bolsonaro, já que até o auxílio emergencial eleitoral de agora vale menos do que em 2020, quando o presidente assumiu as rédeas da pandemia pra deixá-la ainda mais chucra. Vale lembrar das vacinas rejeitadas no início, que culminaram em mortes evitáveis que se converteram em processos contra ele. É a versão jurídica de voltar dos mortos pra puxar o pé na cama.

Tá tudo caro, deve ser por isso que o Bolsonaro não quer comprar comida pras crianças: economia nacional pra gastar em churrascaria. Só que ele foi expulso da churrascaria, então pode devolver a verba pra merenda.

Muita criança vai se sentir expulsa da escola sem merenda. E pra onde irão? A resposta clichê é “pro tráfico”. Com dose de otimismo dentro do pessimismo, algumas vão trabalhar. Sub-empregos, afinal, são crianças. Algumas até vão se virar bem e conseguir ajudar em casa. Outras vão roubar, dos pequenos furtos aos assaltos em motel à mão armada (isso é de Cidade de Deus, do Fernando Meirelles, mas nada longe do que uma realidade descuidada é capaz de gerar). E tem a prostituição também, profissão antiga e sem preconceito de idade pra começar.

Nada disso acontece de uma hora pra outra. Alguns efeitos vão sendo sentidos aos poucos, mas o resultado mais amplo e visível na sociedade não vem agora. É o Bolsonaro dizendo que pode até ser preso, mas quem vai levar a culpa de todos os males da sociedade vai ser o Lula ou até quem vier depois. É como aqueles que só hoje, com gasolina mais cara que bicicleta, lamentam a venda do Pré-Sal. Pois é, deu tá dado.

Com fome, 2 + 2 = 5, como no 1984 de George Orwell. Num país em que se plantando tudo dá, os ventos do golpe se tornaram tempestade e quem não entendeu até agora o que tá acontecendo dificilmente entenderá. Foram muitos tapas na cara e, em tempos de Lei Maria da Penha, nem mulher de malandro gosta de apanhar.

Não basta dar ração pra criançada encher o bucho e entrar em sala. Tem que dar comida de verdade, a Rita Lobo ensina que nossa alimentação, pautada no pê-efe, é suficiente e repleta de variedades. É simples comer no Brasil, mas tá ficando caro.

Isso avacalha as prefeituras e os Conselhos de Alimentação Escolar. As empresas ganham licitações anuais de fornecimento de comida pras escolas, mas num país com (agora) mais de 10% de inflação anual não conseguem arcar com os acordos. Sem contar que mais pais, em função da crise, tiraram os filhos de escolas particulares e levaram pras públicas, aumentando as bocas nas merendas.

A diminuição da renda e do padrão alimentar em casa também levou as crianças a comerem mais, quantitativamente, na escola. Pra muitas, só se come ali. A comida já estava faltando nas refeições escolares, a qualidade e a quantidade já vinham sendo prejudicadas pra compensar os aumentos. Com o novo corte, tá osso.

O que a gente quer? Diversão e arte, e por elas a luta continua. Se tem diversão e arte, se tem gente se divertindo e frequentando ou fazendo arte, é porque tem comida no prato e educação de qualidade. Feliz Dia dos Pais, país bastardo.