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Colunas

Bolsonaro falou, Bolsonaro avisou

Presidente da República Jair Bolsonaro, durante videoconferência com Governadores do Sudeste.

Quando Jair Bolsonaro foi eleito presidente, em 2018, muita gente votou nele acreditando na novidade, no candidato de fora da política. Se a um grupo de eleitores falta informação, estudo e o que manda é a propaganda, aos leitores informados falta discernimento e, muitas vezes, caráter.

Quatro anos depois, votar no Bolsonaro mostra nítida falta de caráter pra esse tipo de eleitor, seja por interesses pessoais (se não escusos, pelo menos egoístas) ou por negacionismo. Um negacionismo que vem de antes e que, mesmo ignorando a vida política pregressa do vereador, deputado e deputado e deputado Jair Bolsonaro, está presente em frases que proferiu em 2018, quando pré ou já candidato de extrema direita.

Separe o Epocler e acompanhe algumas:

“Como eu estava solteiro na época, esse dinheiro do auxílio-moradia eu usava pra comer gente.” (Folha de São Paulo, 12 de janeiro)

“O mercado sempre me achou um rinoceronte. Vou me dar por feliz se sair daqui com vocês me achando um homem das cavernas.” (encontro com investidores, 11 de fevereiro)

“Há excesso de direitos no Brasil.” (O Globo, 2 de abril)

“[O ministro da Educação] tem que ser alguém que chegue com um lança-chamas e toque fogo no Paulo Freire.” (O Globo, 30 de abril)

“Errar, até na sua casa, todo mundo erra. Quem nunca deu um tapa no bumbum do filho e depois se arrependeu? Acontece.” (sobre assassinatos na ditadura, O Globo, 11 de maio)

“Chega de frescura, quando eu era criança brincava de arma o tempo todo. Nas favelas, tem gente de fuzil por todo o lado.” (O Globo, 21 de julho)

“Dirigentes do Centrão são a alta nata de tudo que não presta no Brasil.” (UOL, 21 de julho)

“Se eleito, vou dar uma foiçada na Funai, mas uma foiçada no pescoço.” (UOL, 1° de agosto)

“O ECA [Estatuto da Criança e do Adolescente] tem que ser rasgado e jogado na latrina. É um estímulo à vagabundagem e à malandragem infantil.” (O Globo, 23 de agosto)

“[O policial] entra, resolve o problema e, se matar 10, 15 ou 20, com 10 ou 30 tiros cada um, ele tem que ser condecorado, e não processado.” (Jornal Nacional, 28 de agosto)

“Tá, e daí? Já tá feito, já pegou fogo, quer que eu faça o quê? O meu nome é Messias, mas eu não tenho como fazer milagre.” (sobre incêndio do Museu Nacional, O Globo, 4 de setembro)

“Eu não aceito resultado das eleições diferente da minha eleição.” (Brasil Urgente, 28 de setembro)

Todas as frases frases foram retiradas do livro de Walter Barreto Jr., Bolsonaro e seus seguidores: o horror em 3.560 frases. Nesta nova edição, revista e ampliada, o jornalista traz para o leitor 3.562 problemas. Os dois que não aparecem no título vêm logo depois.

O primeiro deles está numa carta ao leitor, que sugere, quase no final da página, que o livro é desaconselhado para menores de 18 anos. Na Introdução, o autor retrata o erro, sugerindo às crianças e aos adolescentes que sejam mais perspicazes pra identificar esses discursos no futuro.

O outro é, infelizmente, mais grave:

“No conteúdo do livro, bastam as frases de Bolsonaro e de seus seguidores? Sim. Afinal, não é necessário explicar a você, caro(a) leitor(a), o que significa e representa cada uma das 3.560 frases. Cada uma delas fala por si, sem a necessidade de qualquer mediação por parte deste autor.”

Walter, as frases estavam lá o tempo todo. É provável que seu livro caia nas mãos de leitores mais críticos, mas um livro, depois de escrito, sai a vagar sem quem o defenda, sem pai, como disse Sócrates no Fedro, de Platão. Estamos em tempos de desenhar e colorir pra garantir que, no futuro, nem exista mais material pra um livro desses.

Enquanto existir, é importante que pessoas com aparelho digestivo resistente como você sejam capazes de organizar tudo. É desse tipo de jornalismo que a História precisa.

Aos acompanhados de bons gastroenterologistas, o livro pode ser baixado gratuitamente até dia 1° de janeiro. Nas palavras do autor: “desejo, dentro do possível, uma boa leitura”.