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Entra o Sandman

Neste final de semana começa a tão esperada série do Sandman, herói dos quadrinhos que ficou famoso com a proposta do Neil Gaiman. Nem é a série que é tão esperada, qualquer adaptação dessa obra prima dos quadrinhos é aguardada desde o final dos anos 1980. Havia até a esperança do Tim Burton no comando (ou no papel principal, seria fácil de maquiar).

A série vem pela Netflix, dentro do hall de destaques entre as fantasias que aportam na casa dos apreciadores neste semestre, disputando atenção com Game of Thrones e Senhor dos Anéis, nas versões da HBO e da Amazon, respectivamente. Foi-se o tempo em que tudo virava filme. Agora o negócio é série. O conto virou romance. Essa reflexão vale um ensaio.

O Sandman, personagem, antecede Gaiman. Era um herói que, como a maioria dos personagens de histórias em quadrinhos, caiu no esquecimento. Gaiman propôs à editora Karen Berger uma outra versão de Sandman, sem anular a anterior. Na época, o autor era um quase ninguém, porque não estava nas manchetes, não tinha fama além do pequeno nicho de leitores de alguns quadrinhos específicos e não tinha seguidores nas redes sociais, porque nem internet na casa do povo tinha direito.

Quando o Sandman do Gaiman surgiu, foram ainda algumas edições no ostracismo da fama, até que veio a saudação maior: Shakespeare mostrou ao escritor dos quadrinhos do Sonho que a noite de verão era uma solução. O capítulo com o mesmo nome da peça do bardo chegou a conquistar prêmio de literatura onde não havia a categoria pra HQ. Até onde vai a literatura?, convém sempre perguntar.

A grande sacada do escritor inglês (de Portchester, não o de Stratford-upon-Avon) foi colocar o Sonho num contexto bem mais amplo do que as ações de que ele era capaz. O senhor dos sonhos pode tudo no reino dele, mas já começa a história aprisionado (não é um spoiler, é o primeiro dos 75 capítulos dos quadrinhos). Depois passa por crises que vão das relações políticas com o mundo às relações familiares.

Falando assim ele parece um Bolsonaro, que mistura as coisas, mas não é nada disso, pode ler.

A família do Sonho (Dream, em inglês) é toda com D: Desejo, Desespero, Destruição, Delírio, Destino e Morte (Death). São chamados de perpétuos, porque existem sempre em tudo no mundo. Igual o Sarney para quem tem menos de 50 anos, embora ele não seja perpétuo, mas imortal. E se ter família já é um problemão, imagina ter presença em toda a história da humanidade?

O Sonho tem contatos no Inferno e na Terra (isso é literal), além das figuras estranhas em seu reino. Faz parte de momentos da mitologia, é afetado por magia negra, se envolve em situações criminosas (indiretamente, mas tem o dedo lá) e tem representante da Era de Latão dos quadrinhos. Parece uma colcha de retalhos, mas são 75 capítulos que costuram a trama com primor até o último deles.

Quem começa a ler os quadrinhos sonha com eles. A série pode vir a ser o pesadelo desses leitores. (Observa-se aqui que o autor do presente texto ainda não viu sequer um capítulo, mas leu todos.) Há grande chance de a série ser uma porcaria, principalmente se tiver a pretensão de ser igual aos quadrinhos. O contexto é outro, como a linguagem, o público (parte dele) e os valores.

Uma adaptação é um novo texto, por isso o Sandman que o público pode ver agora em casa precisa trazer uma releitura do Sandman que os leitores conhecem. A literatura amolece na tela, requer ritmo e elementos próprios pra ser vista, e não lida. Nem é juízo de valor, esse negócio de “o livro é melhor que o filme” é clichê. O que vale é entender a linguagem, o contexto e as condições de cada uma no tempo em que vêm à luz.

Parece o governo Lula, o próximo. Muita gente achando que vai ser como os anteriores, que ocorreram em tempo de bonança mundial. Ou mais ainda, que foram consequência de uma democracia em gestação, impactada pelo impeachment do Collor, amparada na ética do Itamar, desenvolvida pelos altos e baixos das oscilações econômicas do FHC. Com o Lula o povo finalmente teve acesso às coisas, foi incluído na sociedade, embora pela economia, não pela educação. Ou não teria deixado a Dilma cair, o Temer ficar e o Bolsonaro se eleger.

Agora o Lula (espera-se) volta em outro contexto. Como a adaptação de Sandman, pode ter tudo pra dar errado, mas é melhor ser assim assim do que não ser. Se estiver ruim, alguém faz melhor depois se aprender.