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Na manhã em que o futuro ex-presidente esteve aqui

I.

No fim da manhã de 16 de agosto de 2022, uma terça-feira, o futuro ex-presidente esteve aqui. Apesar da iminência de sua chegada, o dia amanheceu ensolarado, o céu num tom pálido de azul. Não um azul forte, é certo; não um azul celeste deslumbrante dos céus de inverno. Mas azul ainda assim. Um azul bem clarinho que, mesmo esmaecido, prometia ganhar outras nuances, mais intensas, ao longo do dia. Ao longo dos dias. Um azul que diz: “Eu amanheço, você vê? Abra os olhos e espere, que eu amanheço”.

II.

Nessa manhã em cujo fim o futuro ex-presidente esteve aqui, meu filho Tito se deslumbrou com a caixa vazia, vermelho brilhante, de uma pasta de dente. Ele tem, aos dez meses, a fascinante e “manoeldebarrosiana” capacidade de se encantar com coisas miúdas: uma florzinha, também vermelha, encontrada no meio do grama; o som que uma folha seca faz ao se esfarelar em suas mãos; a própria habilidade de, num só golpe, derrubar a torre de bloquinhos coloridos que eu empilho no tapete; sua imagem no espelho e a nossa, olhando para ele; nossa chegada quando, com o queixinho apoiado na beirada do berço, de pé no colchão, ele aguarda que o peguemos no colo depois da soneca.

O futuro ex-presidente esteve aqui e, mesmo assim, Tito é capaz, com uma caixinha vermelha nas mãos, de sorrir como se conhecesse a felicidade inteira.

III.

Na manhã em que o futuro ex-presidente esteve aqui, me peguei imaginando quando foi que perdi essa capacidade, se é que alguma vez a tive. Há diferentes inocências, é verdade. A de um bebê que descobre o mundo é mais delicada e absoluta, mas existem outras, talvez mais conscientes; talvez, por isso mesmo, mais frágeis.

IV.

Na manhã em que o futuro ex-presidente esteve aqui, me lembrei do meu primeiro voto para presidente, 20 anos atrás, naquele que, num futuro breve (que assim seja!), deixará de ser ex. E me lembrei também do primeiro pleito presidencial que cobri como repórter, do qual saiu eleita a primeira presidenta, que anos depois se tornou ex à força, como se a democracia fosse um conjunto de frágeis bloquinhos coloridos empilhados à mercê de quem, como que a brincar de testar paciências, lhe golpeie.

(De que democracia estamos mesmo falando se o futuro ex-presidente pôde ser eleito presidente um dia?)

V.

Na manhã em que o futuro ex-presidente esteve aqui, recordei essas tantas primeiras vezes, essas inocências quebradiças e esfarelentas — da jornalista política e da cidadã que sente prazer em apertar um número seguido de outro na urna eletrônica — que a esperança não cansa de tentar colar.

VI.

Na manhã em que o futuro ex-presidente esteve aqui, constatei que certa obsessão por Rubens Paiva (quem escutou o podcast Retrato Narrado, na Rádio Novelo, deve saber da parte que o toca) é algo que nos é comum. E isso me indigna em diferentes níveis. Estamos em lados opostos. O do futuro ex-presidente é o de quem posa ao lado de um cartaz ironizando as famílias dos guerrilheiros executados no Araguaia dizendo “quem procura osso é cachorro”. O meu é o de quem amanheceu se perguntando, mais uma vez: onde está o Amarildo?

VII.

No fim de manhã em que a visita do futuro ex-presidente me traz esse cartaz à memória, traz também o pensamento de que é com essa mesma tendência à desumanização que ele deve encarar as pessoas na fila do osso da fome trazida de volta por seu governo.

VIII.

Na noite que antecedeu a manhã em que o futuro ex-presidente esteve aqui, meu filho Tito não dormiu bem. Acordou chorando, a barriguinha doendo, demorou mais de hora para se acalmar. Gases, diferentes daqueles soprados pelos canos de descarga das motocicletas, mas que são capazes de provocar mal-estar em igual medida. No entanto, pela manhã, muitas horas antes que o futuro ex-presidente chegasse, Tito amanheceu com o mesmo sorriso solar. Porque meu filho tem o poder (ainda tem!) de se esquecer do que lhe fez sentir dor. A dor passa. As motocicletas e o futuro ex-presidente também.

IX.

Quase todas as manhãs, meu filho Tito escala a cabeceira da minha cama e acende a luz. A fascinante e “manoeldebarrosiana” capacidade de se encantar com coisas miúdas inclui observar a luz se acender. Na manhã em que o futuro ex-presidente esteve aqui, a luz ficou apagada, mas é certeza que ela vai se acender amanhã.

X.

O Tito também se deslumbra e tenta pegar com a pontinha dos dedos a réstia de sol que se insinua pelas frestas mesmo no fim da manhã em que o futuro ex-presidente esteve aqui.

XI.

O futuro ex-presidente esteve aqui no fim da manhã. Esteve na minha cidade que ele insiste em chamar de sua. Esteve na rua mais famosa, onde teima em dizer que nasceu. Esteve na minha cabeça, ocupando-me os pensamentos menos ensolarados, mais nebulosos. Pensamentos dos quais Manoel de Barros teria vergonha. Sobre os quais jamais escreveria poemas.

XII.

Na manhã em que o futuro ex-presidente esteve aqui, porém, louvo a sorte da língua que nos dominou, mas que dominamos de volta, tomando para nós. Em alguns idiomas, não existe diferença entre os verbos ser e estar, mas, no português, sim. Estar é transitório, ser é permanente. O futuro ex-presidente esteve aqui, mas não é daqui. Não é aqui. Não pode ser. Nunca será.

XIII.

“Votar é verbo”, insiste um colega de trabalho. É ação.

Este texto não tem divisão de atos porque, no fim das contas, tudo está entrelaçado num ato só.