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13 passos para o futuro ex-presidente cair fora

Outdoor pró-Bolsonaro instalado no município de Ibitinga-SP é retirado por decisão da Justiça (Foto: MPSP)

I.

Esquecer. Do latim, excadescere, “perder a lembrança, olvidar”. Que por sua vez, segundo o Dicionário Etimológico de Língua Portuguesa do filólogo Antônio Geraldo da Cunha, é frequentativo de excadĕre, formado pelo prefixo ex, “para fora”, e pelo verbo cadere, “cair”. Cada fato, informação, dado, nome, rosto, ideia, pensamento, sentimento, emoção que esquecemos, portanto, é como se “caísse fora” de nossas cabeças.

II.

Há um trechinho de “Girança”, peça de José Luiz Ribeiro, que todas as pessoas que passaram pelo Centro de Estudos Teatrais — Grupo Divulgação já ouviram e até sabe citar de cor: “A vida é uma sucessão de idas e vindas, chegadas e partidas, rostos que se perderam, nomes que ficaram na memória”.

III.

A origem etimológica traduz a exata sensação que tenho quando tento me lembrar de algo que, de repente, me escapa. É comum com palavras, às vezes prestes a chegar à ponta da língua, mas perdidas pelo caminho, despencadas dos bolsos rasos da memória. É comum com afazeres também. Entro no quarto e o que foi mesmo que vim buscar? Conecto-me ao Google e o que foi mesmo que precisava procurar aqui? Olho ao redor e por que mesmo 57,8 milhões de pessoas votaram nesse ser abjeto?

Nem tudo é esquecimento, porém. Essa última resposta não caiu para fora da cabeça, porque nunca foi capaz de entrar.

IV.

Passei a última segunda-feira mergulhada em esquecimento. É quase um contrassenso paradoxo, porque não gastei o tempo de um dia me esquecendo, mas, sim, me lembrando do que é esquecer, para escrever sobre o conceito para um projeto de dicionário de memória. Descobri, por exemplo, que Léthe, o Rio do Esquecimento, é um dos cinco cursos d’água do Hades, o submundo da mitologia grega. Das águas do Léthe, as sombras, aquilo que os vivos deixaram de ser, deveriam beber antes de reencarnar. O contrário do lema “Para não esquecer, para nunca mais acontecer”. Nas águas do Léthe, o objetivo é esquecer para, então, repetir.

V.

Memória e esquecimento não existem um sem o outro. Somos indivíduos que se lembram e, portanto, também que se esquecem.

VI.

O filósofo Henri Bergson diferencia dois tipos de memória: a memória-hábito e a memória-recordação. A primeira é a que se nutre da repetição. Meu filho de 11 meses aprende a falar repetindo os sons que ouve (embora ainda os traduza para uma língua bastante própria), aprende a andar repetindo o movimento de escorar-se enquanto desloca os pezinhos de uma ponta a outra do espaço, aprende a ouvir e assimilar histórias pedindo para que leiamos o mesmo livrinho, repetidamente de novo e de novo e de novo.

Falar, andar, escovar os dentes, guardar os brinquedos, amarrar os sapatos são tarefas que as crianças aprendem pela repetição sistemática, de modo que ninguém precisa se recordar racional e conscientemente de como realizá-las a cada dia. De acordo com Bergson, esse tipo de memória não representa o passado, mas o encena. Sua função não é conservar imagens antigas, mas prolongar sua utilidade no presente.

A memória-recordação, por outro lado, seria a memória propriamente dita, a representação, pelo que Bergson chama de imagem-lembrança, do passado no presente. Ouço “Sem medo de ser feliz” e, automaticamente, me lembro da minha infância. Assim como sei que, ao ver a foto do candidato na urna, me lembrarei da minha juventude e do meu primeiro voto para presidente do Brasil. Na mesma pessoa.

VII.

Em 2018, tive uma discussão acalorada com um primo emprestado às vésperas das eleições. O motivo foi o mesmo de todas as discussões acaloradas às vésperas das eleições de 2018 e que, para minha incredulidade, seguem acaloradas quatro anos depois. Na opinião do meu primo, que prosperou em seu próprio negócio em algum momento do recorte temporal que vai de janeiro de 2003 a abril de 2016, este também foi o período em que o país e sua economia foram completamente destruídos. (É tão paradoxal quanto eu acionar a memória para me lembrar do esquecimento.)

Isso me faz pensar, no entanto, que a compreensão de Bergson talvez seja uma das questões em pauta em 2022. De um lado, memória-hábito, o discurso antipetista que, transformada em sombra às margens do Léthe, parcela da população aprendeu a repetir e que repete porque assim aprendeu. De outro, memória-recordação: como de fato era a vida lá e então, para usar os mesmos termos que tenho escrito aqui sempre, e o que ela se tornou aqui e agora.

VIII.

Eu me lembro bem. De janeiro de 2003 a abril de 2016, minha vida — econômica, política, social — foi muito melhor.

IX.

A memória é um passo importante para a consciência e tanto o esquecimento forçado quanto a manipulação da lembrança são instrumentos que podem ser usados para a manutenção de uma ordem estabelecida. Em sentido inverso, a ruptura com o poder dominante pode se dar a partir do desenvolvimento da capacidade de memória.

Toda a história do Brasil, a despeito de diversas iniciativas individuais e/ou comunitárias, é acompanhada de processos de extermínio, de gentes e de recordações. A eleição de 2018. Antes, o golpe contra Dilma Rousseff. Antes, a ditadura civil-militar. Antes, a perseguição de Vargas aos comunistas. Antes, a proclamação da República que manteve os interesses das oligarquias. Antes, a abolição inacabada e o apagamento do protagonismo dos negros que lutaram incansavelmente por sua liberdade. Antes, a independência que preservou as vontades dos escravocratas. Antes, os séculos de tráfico negreiro e de escravidão. Antes, o genocídio indígena. (E tantos outros fatos nas brechas dos antes, durantes e depois.)

X.

Era para não ser esquecido, era para nunca mais ter acontecido.

XI.

Somos um povo que se lembra, mas que também (muitas vezes forçado a, ou habituado a) se esquece.

XII.

A primeira imagem-lembrança que tenho da infância é de, aos 2 anos, atirar fora chupeta no quintal. Não sei se é uma recordação de fato ou uma cena montada a partir do que me contaram. Porque lembrar e esquecer também são construções narrativas. Ambas são necessárias, porque é humanamente impossível lembrar tudo, assim como narrar tudo.

Meu filho de 11 meses aprende a falar repetindo sons: “abí” para abrir portas ou tirar qualquer coisa do caminho; “abô” quando termina o almoço ou alguém vai embora; “petê, petê, petê”, aleatoriamente (ou não?). Ele se esquecerá disso logo, mas, a depender das narrativas que construirmos juntos (ele, o pai e eu, mas também nós, como sociedade, coletivamente), poderá se lembrar depois.

XIII.

Em “O perdão pode curar?”, Paul Ricœur escreveu que, nos “antípodas deste esquecimento de fuga”, esse que nos trouxe aonde chegamos, é “preciso colocar o esquecimento activo, libertador, que seria como que a contrapartida e o complemento do trabalho de lembrança”.

Esse é o esquecimento que desejo ao futuro ex-presidente. Não para que ele se repita, como mau-hábito que se alastrou em mais de 30% do eleitorado, mas para excadĕre; para que caia fora.