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Colunas

Por um tempo de laranjas mais doces

ATO I, cena 1

São dois irmãos. Um tem 5 anos; o outro, provavelmente, entre 2 e 3. O mais velho reboca o pequeno pela mão. Mais cedo, vestiu o caçula com a melhor roupinha, a menos cerzida, e assentou-lhe os cachos negros com um bocadinho de banha de porco usada na cozinha. Liberados pela irmã mais velha, que não pode levá-los, mas se compadece de seus olhinhos pedintes, os dois caminham, sozinhos, uma longa distância, em busca do caminhão que distribuirá brinquedos às crianças do bairro naquela manhã. As perninhas curtas do menor retardam-lhe os passos; o maiorzinho carrega-o por um trecho no colo. Mas é criança também, tão miudinho quanto, o tamanho inversamente proporcional ao tempo que se alarga. Quando os dois chegam ao ponto da distribuição de presentes, só papéis coloridos restam no chão.

Cena 2

“Trabalhe enquanto eles dormem”, eles dizem. “Estude enquanto eles se divertem. Persista enquanto eles descansam. E então, viva o que eles sonham.”

Não sei se uma confissão como esta, bem pouco delicada, cabe aqui, mas tenho ganas de encher a cara de quem inventou essa merda e fez tanta gente, mas tanta!, acreditar.

Cena 3

“Ano que vem vocês precisam vir mais cedo, seus dorminhocos”, é a versão que os dois irmãos escutam, com os olhos boiando n’água. Foi a primeira cena que me fez chorar, nos meus 11 ou 12 anos, quando li, para a escola, “O meu pé de laranja lima”, relato de infância publicado, em 1968, por José Mauro de Vasconcelos. Houve outras, muita. Quando assisti, em 2012, a última adaptação da obra para o cinema, dirigida por Marcos Bernstein e José de Abreu, as lágrimas começaram a rolar ainda nos créditos iniciais. Relendo o romance estes dias, por indicação minha para o módulo do grupo de estudos narrativos do projeto Hupokhondría sobre literatura infanto-juvenil, elas caíram por quase todas as páginas.

ATO II, cena 1

Contei esta história no ano passado, na comemoração dos 40 anos do jornal Tribuna de Minas: “No fim da Vila Esperança, numa invasão margeada pela linha férrea de um lado e pela rodovia federal de outro…”. Era assim, exatamente com essas palavras, idênticas em ambas, que começavam duas reportagens que escrevi para a Tribuna em 2010, acompanhada do saudoso repórter fotográfico Antonio Olavo Matos, mais conhecido como Cerezo.

A primeira matéria foi feita no período da disputa eleitoral presidencial daquele ano. A pauta era discutir o impacto do Bolsa Família e o voto dos eleitores beneficiários do programa federal de transferência direta de renda direcionado às famílias em situação de pobreza e de extrema pobreza em todo o país. A segunda reportagem, por sua vez, foi publicada às vésperas do Natal, tendo as (des)esperanças da Vila Esperança como mote. O que mudava com a perspectiva de um novo ano e um novo governo?

Cena 2

Há uma outra confissão, bem mais vergonhosa que a cometida há pouco, que só contei, disfarçada de ficção, num conto publicado no site do Hupokhondría: “No fim da Vila Esperança, numa invasão margeada pela linha férrea de um lado e pela rodovia federal de outro, Papai Noel não consegue chegar…”.

Uma das entrevistadas daquelas duas reportagens era uma jovem mãe de dois filhos, moradora de um barraco dois por dois, paredes de placas de muro, telhas de amianto, chão de terra batida, um vaso sanitário do lado de fora, só a louça, sem esgoto ou água encanada.

No dia da segunda visita, perto do Natal, comprei dois presentes para levar: um para o menino, que devia ter a idade de Zezé ou de Luís, os dois pequenos irmãos de “O meu pé de laranja lima”, e um para a bebezinha de colo, que talvez nem no peito mamasse se a própria mãe dela mal tinha o que comer. Levamos nós dois, Cerezo e eu. Quando tirei os pacotes coloridos do carro, no entanto, uma enxurrada de crianças apareceu. Muito mais que duas. Muito mais que duas dezenas. E eu, com a prepotência de quem faz caridade para resolver mais seu próprio vazio que o dos outros, não tinha presente para mais ninguém.

Cena 3

Poucos anos atrás, meu amigo Tiago Vitor, na campanha anual dos Correios, viu uma criança pedir uma cesta básica de presente na cartinha endereçada ao Papai Noel.

ATO III, cena 1

São 33 milhões de pessoas passando fome no Brasil atualmente, conforme apontou, em junho deste ano, a segunda edição do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, elaborada pela Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania Alimentar e Nutricional), patamar semelhante ao que havia sido registrado há três décadas.

Mas, se for a qualquer padaria, segundo o futuro ex-presidente, não há ninguém pedindo para comprar pão.

Cena 2

Quando escolhemos o tema do módulo atual do nosso grupo de estudos narrativos, a opção pela literatura infanto-juvenil se fez pela leveza. Irônico. Quem já leu “O meu pé de laranja lima”, na infância ou na vida adulta, sabe que há um tanto de ternura, sim, mas de vida muito, muito, muito dura também. Uma vida que era dura na década de 20 do século passado, quando se passa a história, mas que, em tantos aspectos assustadoramente idênticos, continua sendo duríssima nesta década de 20, exatamente hoje.

Ter sido publicado em 1968 faz do romance, sem o ser, um manifesto profundamente político. Porque, falando da miséria de e então, também contribuía para denunciá-la no contexto de um dos mais emblemáticos anos de um governo repressor que, com seus supostos e fajutos milagres econômicos, negava que ela existia em seu tempo.

Exatamente como faz o suposto e fajuto governo que nos desgoverna aqui e agora.

Cena 3

Laranja lima, por essas bandas mineiras, é mais conhecida como laranja serra d’água. Tem um pezinho delas na chácara da minha mãe. São famosas por não serem ácidas e por terem sabor adocicado e suave.

Na semana passada, vi um menino sorridente, de um 5 ou 6 anos, fazendo malabarismo com laranjas no sinal. Malabarismos com laranjas, aliás, parecem ser moda nestes tempos. Tristemente, porém, tenho certeza de que para o garotinho, que poderia até se chamar Zezé, elas não eram doces.