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Quem primeiro apontou os caminhos foi Godard

Jean-Luc Godard, o grande mestre da nouvelle vague no cinema, morreu nessa terça-feira (13) aos 91 na Suíça

Houve um tempo, há muito tempo atrás, que a cena cultural era ditada pelos cineastas-pensadores: Glauber, Antonioni, Kurosawa, Truffaut, Visconti e sobretudo Jean-Luc Godard.

Nesses tempos, os jovens cinéfilos, ainda no ensino médio, sem cultura e domínio de idiomas para ler o Cahiers de Cinéma, recorriam às páginas dos jornais locais. O Estado de Minas (hoje um jornal de manchetes bolsonaristas, em um passado recente defensor intransigente de Aécio Neves, com Andreia Neves circulando pela redação – motivo que levou o senhor Jair Alves a cancelar uma assinatura de trinta anos) tinha a sua seção de cinema, às terças-feiras. Na fria Santa Bárbara, pós-Galiléia, a ansiedade pela edição semanal era colossal, e mais ainda pela noite, no Bar do Alfredo, onde era possível retirar a cerveja no freezer vertical e anotar o próprio consumo.

Nessas noites de terça-feira, o assunto saia do futebol e de amores impossíveis e entrava no cinema. E invariavelmente alguém dizia algo como “Segundo Godard, a arte não é o reflexo da realidade e sim o reflexo desse reflexo”. Ou, diante da absurda polêmica de “Je Vous Salue, Marie”, alguém lembrava: “Sabe o que o Godard disse do seu filme? Que quem primeiro caluniou foi José, que teve que esperar a Vara de Jessé confirmar a gravidez inesperada de Maria”. Ou diante da perplexidade de “A Chinesa”, uma informação adicional seguida de uma pergunta: “Alguém tem o livro vermelho de Mao, visto com Godard durante as filmagens?”

Sabíamos todos que quem primeiro apontava os caminhos era Godard. De forma explícita (se essa palavra pode ser usada ao se referir a alguém com a estatura de Godard) em “Vento do Leste”; velada, com “Adeus à Linguagem”; como é mais conhecido, o criador da Nouvelle Vague, uma nova maneira de fazer cinema, com “Acossado”, “Viver a Vida”, “O Demônio das Onze Horas”; na releitura do cinema noir (“Alphaville”) ou nos filmes-crônicas (“Duas ou Três Coisas que Sei Dela”, “Weekend à Francesa”).

Porém, essa tentativa de classificar a obra de Godard por fases era “coisa de cinéfilos amadores”, como dizíamos com uma petulância quase juvenil. O cinema de Godard tem uma característica rara nos dias de hoje: nunca provocar indiferença. Todos sentiam o seu reflexo e cada um defendia – mais com paixão do que com argumentos – o seu filme preferido.

Era da turma defensora de “O Desprezo”, o espetacular ensaio sobre a arte. Tem Michel Piccoli e Fritz Lang, roteirista e diretor de uma adaptação da Odisseia de Homero, e tem Brigitte Bardot e Jack Palance, como o produtor do filme, que “ao ouvir a palavra cultura sacava o talão de cheques” – descontada a característica mercantilista da época, hoje saca-se o revólver.