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Colunas

Fé em Bolsonaro

A Semana do Saco Cheio, assim mesmo em maiúsculas, é uma instituição quase tão louvável quanto a Semana Santa. Nem é pelo feriado nacional de Nossa Senhora Aparecida, no qual os ateus não reclamam e os evangélicos ficam em casa numa boa (se não tiver um troço incitando o ódio em Aparecida do Norte ou na TV Record). É pela supresa. Porque Semana Santa tem no calendário todo ano, é esperada, com ou sem emenda. Semana do Saco Cheio pode ter ou não, e quando tem é um alento.

Geralmente essa benesse pedagógica inusitada varia conforme a vontade das instituições em punir ou não seus corpos docente e discente. As que emendam, conhecem Marx, Keynes, De Masi… estudiosos do mundo do trabalho e da necessidade do ócio pra que ele seja melhor desempenhado. As que insistem nas aulas quando outros podem descansar são contra o aprimoramento pedagógico, o desenvolvimento da economia e o discurso favorável à própria escola. E acham que lucram mais assim.

É um pouco o pensamento do bolsonarismo: farinha pouca, meu pirão primeiro. Aquela coisa de partir o pão porque tem pouco trigo é coisa de comunista. Melhor acuar o outro do que tentar trocar com ele. Mesmo que pra isso o sujeito precise invadir o espaço do outro, que tá lá quieto oferecendo a hóstia na fala contra a fome. O texto de Frei Betto foi escrito antes das ações de intolerância da última quarta-feira, mas parece feito no calor de Aparecida do Norte.

O Saco Cheio acontece porque na mesma semana tem um feriado das Crianças (é o argumento laico) e outro dos Professores. E ambos são sagrados, mesmo que o segundo seja abençoado pela Convenção Coletiva de Trabalho. Outro ponto em comum entre as crianças, neste caso alunos, e professores é a capacidade de se testarem mutuamente. Segue um exemplo, sintético e verídico.

Na discussão em sala, um aluno perguntou pra professora qual era a posição política dela. Ela explicou que não diria (pausa 1: porque falou numa escola religiosa e foi demitida em seguida), mas o menino afirmou:

            – A senhora é de esquerda, nem precisa dizer.

            – Você não pode afirmar isso.

            – Posso sim, por causa da prova da semana passada.

            (Pausa 2: texto de autora negra versava sobre machismo e racismo.)

            – Por que diz isso?

            – Quem se preocupa com o racismo é a esquerda.

            – A direita não se preocupa com o racismo?

            – Não.

            – Então a direita é racista?

            – É! (pausa do aluno) Não, não quis dizer isso, professora…

A força motriz do bolsonarismo, ou sua fundamentação, está em descartar essa possibilidade da dúvida, principal função de um educador. Os bolsonarentos têm certezas, objetividades, convicções sem a menor necessidade de provas. Eles agem, falam, repetem, ofendem com a garantia de que alguém vai respaldá-los. Alguém que fez a mesma coisa sem titubear.

Ofender uma pessoa, seja uma liderança religiosa ou outra, que prega contra a fome é ser a favor da fome. Divergências podem ser resolvidas pelo diálogo, mas quem não sabe ouvir tem apenas certezas, segue sua divindade imbrochável intocável. E o ditado é conhecido: nunca vi um imbecil hesitar.