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Feliz ano novo

Parecia celebração de ano novo no domingo, quando o TSE anunciou o resultado da eleição presidencial. Do mesmo modo que na virada de ano, houve festa na virada de percentual, e dali em diante criou-se o clima de contagem regressiva: a cada parcial, já na cada dos 90% das urnas apuradas, um grito ou outro escapulia das gargantas e dos carros.

Feliz ano novo é também o título do livro de contos do Rubem Fonseca, autor nascido em Juiz de Fora e que viveu no Rio de Janeiro até falecer, no início de 2020, às vésperas de completar 94 anos. Morreu dormindo, em casa, logo no início da pandemia. Justo ele, autor recluso, quando todos precisavam ficar em casa, resolveu não ficar mais.

Lançado em 1975, quando os anos de chumbo tinham acabado de terminar, o livro foi proibido pelo ministro da justiça Armando Falcão, acusado de atentar contra a moral e os bons costumes. No documento que recolhia os livros e suspendia a venda (depois de dezenas de milhares já em circulação), eram levantadas questões sobre violência, palavras de baixo calão, pornografia e outros pontos que marcaram a obra do escritor.

Rubem Fonseca revidou, processando a União, e o embate se tornou o mais duradouro relacionado à censura da ditadura civil-militar. Somente 14 anos depois o autor venceu a disputa e o livro voltou a ser publicado, em 1989, levando ao público 15 contos que, graças aos bastidores da balbúrdia universitária e suas máquinas de estêncil e fotocópias, jamais ficaram ausentes dos leitores brasileiros.

O conto que dá nome ao livro tem, sim, violência. Nada novo naquele momento ou diferente do que ocorre hoje nos subúrbios. Bandidos que pegam em armas pra assaltar grã-finos em sua celebração de réveillon. Entre mortes, brincadeiras com uma espingarda que cola as vítimas na parede e um estupro, o grande movimento de protesto dos invasores à classe abastada é um cocô feito no lençol de cetim.

Isso remete ao último conto do livro: Intestino Grosso. Nele, um jornalista entrevista um escritor que nos presenteia com três pérolas que, quase meio século depois, soam bem atuais:

“Já foi dito que o que importa não é a realidade, é a verdade, e a verdade é aquilo em que se acredita.” As comemorações de domingo se deram porque desde pelo menos 2013, quando as pessoas foram para as ruas acreditando que “o gigante acordou”, houve uma demonização do vermelho, das bandeiras, das esquerdas, dos movimentos de rua que não fossem pelo Brasil. Assim mesmo, genérico: pelo Brasil. Mas, como no título do livro de Roberto DaMatta, não se perguntava o que faz o brasil Brasil.

O autor entrevistado menciona o gradual desaparecimento da “morte pornográfica, a morte na cama, pela doença — e que se torna cada vez mais secreta, abjeta, objecionável, obscena. A outra morte — dos crimes, das catástrofes, dos conflitos, a morte violenta, esta faz parte da Fantasia Oferecida às Massas pela Televisão” e, pode-se completar, pela internet. É como ignorar mais de 700 mil mortes em uma pandemia e justificar a manutenção da vida pela facilitação do acesso a armas de fogo. Que chegam, claro, aos bandidos que assaltam grã-finos, que justificam o próprio arsenal pre se defender de bandidos que assaltam grã-finos.     

Por fim, ou no início, o escritor do conto diz ao jornalista que daria a entrevista pedida por ele, mas cobraria por palavra. No governo que finalmente finda, embora com ainda dois meses pela frente, o chefe do Executivo manteve-se coerente e emanando o que lhe foi extraído do intestino grosso desde a facada eleitoral realizada na cidade em que nasceu Rubem Fonseca. Em suas poucas palavras de derrota, sem a deixar assumida, com pouco mais de dois minutos mostrou que o Brasil pagou muito caro por cada palavra.