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Histórias que minha avó não contava

(Foto: Sandra Oliveira)

I.

Na Rua Antônio Passarela, número 309, bem na esquina com a Rua Antônio Maria de Souza, no bairro São Mateus, em Juiz de Fora, Minas Gerais, tem uma livraria. Fica numa casa de fundos, parcialmente oculta por um prédio baixo, mas de cujo portão é possível entrever o muro recém-grafitado. Uma casa pequena, quase escondida, que, bem antes de ser livraria, já foi casa de vó.

Eu frequentava essa casa quando criança. Já desci correndo, muitas vezes, a rampa que leva a uma varandinha minúscula, que por sua vez leva à porta da sala (quando ainda era uma sala), um pouco abaixo do nível da rua. Minha avó — que não era minha, mas que tomei de empréstimo dos meus irmãos — às vezes se deitava bem ali, no cimento mesmo, corpo inclinado no aclive, para aquecer as pernas doídas sob um pouco de sol. Já dormi no quarto cuja janela baixinha, gradeada, fica na altura dos pés de quem desce a rampa. Já dormi em todos os quartos, na verdade. Já joguei Detetive no chão da sala que já não é mais. Já me empoleirei no muro branco (que ainda não tinha grafite), para usá-lo de escada até a laje, quer na preguiça de usar a estreitinha que já existe nos fundos, quer na aventura de testar um caminho novo.

Essa casa que hoje é livraria, mas que antes era só casa, já guardou histórias da minha família, a minha mesmo e a que ganhei por tabela. Hoje, transformada na livraria que não era, mas que parece sempre ter sido, guarda um tanto de outras.

II.

Na adolescência, ficava na Rua Braz Bernardino (e depois da Batista de Oliveira) a loja onde eu comprava os livros que precisava ler para a escola. Os que não precisava, mas queria, também. Lembro especialmente de, aos 13 anos, sozinha, pedir lá um exemplar de “A marca de uma lágrima”, do Pedro Bandeira, autor para quem escrevi uma cartinha. A resposta dele está guardada em alguma caixa repleta de afetos; o livro, dei para uma aluna de redação uns dez anos depois.

Nessa época, tive o devaneio nunca confessado de que, quando eu estivesse na faculdade, trabalharia meio período nessa livraria do Centro. A faculdade veio, o delírio se foi. As incursões também. Passei a frequentar mega bookstores alguns anos mais tarde (se é que as de Juiz de Fora podem ser chamadas assim). Dei também minha cota de contribuição nada social à concorrência desleal da Amazon e seu negócio bilionário que quebra pequenas editoras e livreiros. A Angela, moça que às vezes me atendia naquela pequena loja da Braz/Batista, porém, continuou firme, sendo a livreira competente que eu jamais teria sido. Por um tempo ainda, seguiu como funcionária de lá; depois, abriu sua própria livraria. No meio do caminho, também por histórias de família, a gente se reencontrou.

III.

No dia 25 de novembro, o escritor Benjamín Labatut, holandês radicado no Chile, defendeu na Flip (Festa Literária de Paraty) que há coisas mais importantes que a literatura. “Reduzam sua biblioteca a, no máximo, dez livros”, declarou, conforme noticiou o jornal Folha de S.Paulo. “É como uma dieta, é preciso parar de comer porcaria.”

Se até minha nutricionista, mulher preta e incrível, me ensinou a não chamar nenhuma comida de porcaria, não é com livros que vou fazê-lo. Talvez, como a própria Folha cogitou, a fala de Labatut tenha sido apenas uma provocação. Ou talvez seja só um discurso confortável a um homem branco que se sabe pertencente a um grupo que não está entre os costumeiramente excluídos. Quantas mulheres estarão nessa tão enxuta biblioteca? Quantas delas negras?

Sem ouvir a fala de Labatut inteira, contudo, tendo a bocejar e concordar com a editora Flávia Iriarte fundadora da Editora Oito e Meio e da comunidade on-line Carreira Literária, sendo o autor homem branco nascido na Europa ou não: “Se fôssemos reduzir aos dez cânones mais importantes, o livro que ele autografou na Flip não estaria em nenhuma biblioteca”.

IV.

É por bibliodiversidade, o exato oposto do que parece ter defendido Labatut, que livrarias como a da Angela — a mulher preta e igualmente incrível que me vendia livros na minha adolescência e que agora transformou em livraria a antiga casa da minha (quase) avó — existem e resistem. É também pelo estímulo ao pensamento crítico e pela formação de leitores conscientes do que leem ou querem ler. E seguem fazendo isso ainda que a crise intensificada pela pandemia, os aluguéis impraticáveis, as megas bookstores, a concorrência desleal da Amazon, a taxação dos livros que os torna praticamente artigos de luxo, as expulsem das lojas do Centro e as transportem para casinhas de fundo, quase escondidas por prédios, por tédios ou pelas durezas da vida.

V.

Nesta terça-feira, 29 de novembro, o Fred Vázquez, meu colega de trabalho “uruguaio, branco, publicitário, produtor gráfico-digital e encantador de sonhos para crianças”, como ele mesmo se definiu”, escreveu um artigo sobre o podcast Calunguinha — “Histórias para ninar crianças pretas, memórias para acordar pessoas brancas”. Roubei dele o título deste texto. Lendo-o, imediatamente pensei na Angela e no tanto de histórias de gente preta, contada por gente preta, para gente grande e pequena, preta e branca, que a Ca d’Ori, sua casa-livraria (cheia, de fato, de ouros) guarda. Pensei também na foto que ela me enviou anteontem, mostrando a plateia da Flip, que, num país tão desigual, continua, lamentavelmente, sem ter tanta gente preta assim.

Labatut está certo num ponto: há coisas mais importantes que a literatura. Mas a literatura pode contribuir para mudar. Talvez não o mundo inteiro, talvez não todo o país de uma só vez. Mas quem sabe a cidade, o bairro, a rua, a casa da avó?

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