Publicidade
Colunas

A piada Brasil

Tem gente que não entende piada. Dessas piadas bestas, de papagaio, ou até umas mais elaboradas e maliciosas. Ri por educação, porque todo mundo riu, mas não entende.

Tem gente que não entende piada e por isso acha que estão falando sério. Leva a piada a sério. Uma piada levada a sério vira uma desgraça.

Veja o caso do palhaço. Onde há palhaço há riso. O palhaço foi feito para fazer graça. Mesmo que faça rir usando o lado perverso dele: dando tapas, molhando a cara do outro que vai cheirar a flor, dando choque com um aperto de mãos. Esses são os clichês, o palhaço é bem mais complexo que isso, emocional e tecnicamente, mas sofre para fazer graça.

Quando essa equação se inverte, ele acha graça de quem sofre. Como a piada Bolsonaro, apresentada ao Brasil pelo CQC. Antes do programa ele era conhecido pela sua caserna de eleitores e mais os que eram obrigados a vê-lo na propaganda eleitoral dizendo suas bobagens ou na Câmara fazendo nada.

Esse foi o primeiro momento da comédia, que funcionou sob o mote do palhaço Tiririca: pior que tá não fica.

A base simples da piada é a seguinte: uma situação é apresentada, repetida e, na terceira vez, rompida, gerando o riso pela surpresa. Henri Bergson diz que, quanto maior a expectativa quebrada, maior a altura da queda, ou seja, maior o riso. Na comédia às avessas do Brasil, a queda machuca.

O segundo momento, em que a situação foi repetida, se dá quando o deputado Jair Bolsonaro exalta um torturador para votar a favor do golpe, em 2016. A omissão daquele dia mostrou que muita gente não entendeu a piada, sobretudo do setor jurídico do país, e deixou passar rindo para acompanhar quem estava na sala.

Em 2018 veio a quebra de expectativas. Qualquer um ganha dele, se dizia por aí. Quem dizia isso conhecia a piada, mas muito mais gente levou a piada a sério e tivemos um punch-line: a quebra de expectativas.

Uma apresentação de stand up é feita basicamente dessa estrutura: sedup (situação), sedup (situação repetida de outro jeito ou complementada) e punch-line (quebra de expectativa, causando o riso). Não para por aí: quanto mais punch-lines seguidas um comediante conseguir, mais o público ri.

O Rafinha Bastos, por exemplo, até é um comediante de stand ups. Consegue fazer boas sequências de punch-lines, uma pena ter dado um punch-line errado na Vanessa Camargo anos atrás, o que lhe custou, além da cadeira na bancada do CQC, muitas críticas pelo nível beeeem baixo da piada.

Outro que ocupava a bancada do CQC era o Danilo Gentili, que deu punch-lines beeeeem mais baixos na Dilma e não sofreu nada por isso. O patrocinador não tinha vínculo pessoal com a Dilma. Mas o nível CQC já foi superado e nada que venha de lá deve ser levado a sério para a política. Nem o MBL.

Uma piada, da mais simples à mais elaborada, requer noção de contexto. Uma piada é uma narrativa e quem conta deve saber o quanto quem ouve conhece dessa narrativa. O riso só se faz pelo conhecimento. O senso de humor requer inteligência, ou tudo passa a ser levado a sério. Quando uma piada é lavada a sério o contexto narrativo se torna um mundo invertido e até a foto de capa da isenta e democrática Folha de S.Paulo se torna motivo de debate.

“O homem é o único animal que ri”, disse o sábio Millôr Fernandes. E complementa com o que explica os escatólogos do Planalto Central: “e é rindo que ele mostra o animal que realmente é.”