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Colunas

Foi só uma bolinha de papel

Foram anos dando aula no Instituto de Ciências Exatas da Universidade Federal de Juiz de Fora até resolver se aposentar. Tempo contado, o professor descobriu que estava devendo uns meses de aula no estado do Rio de Janeiro para encerrar com salário integral e foi lá cumprir. Pode ter algum detalhe diferente nessa história, mas o Zacaron morreu em 2007 e não vai poder corrigir o relato.

Morreu fora da sala de aula, embora ele temesse o contrário.

Nesses meses em que precisava voltar a lecionar no estado do Rio, foi alocado numa escola da baixada fluminense e deu aula para ensino médio ou fundamental, outra recordação que falha a quem escreve, mas que pouco muda no resultado da história. Foram poucas semanas em sala, essa é  parte que interessa.

Certo dia, depois de uma explicação para a turma, virou-se para escrever no quadro. Foi atingido em cheio por uma bola de papel. Uma bolinha bem planejada, espremida, dura, feita para acertar alguém. Bem diferente de um papel amassado que mira o lixo e erra o alvo.

Sem sequer olhar para a turma, sem a mínima disposição para saber de onde veio o disparo, Zacaron pegou suas coisas e saiu de sala para nunca mais voltar. Pediu as contas, por assim dizer: aposentou com o que tinha direito até então e explicou que quem desrespeita um professor assim pode dar um tiro. Ele não queria se arriscar.

A professora Elizabeth Tenreiro não pôde pegar suas coisas e sair. O estudante de 13 anos tinha uma faca na Escola Estadual Thomazia Montoro, em São Paulo. Em imagens repetidas à exaustão durante a semana, a cena de violência na escola traz semelhanças às de confrontos entre policiais e detentos em prisões.

Darcy Ribeiro profetizou: se não fossem construídas escolas naquele momento, em pouco tempo precisaríamos de mais prisões. E cá estamos, com prisões abarrotadas e mesmo as escolas precisam de grades porque perderam a sacralidade e professores passarão a precisar de coletes.

Com a cabeça baixa, mirando o próprio bolso, as administrações pouco alteram no projeto de mais de meio século do sucateamento da educação pública. Desconhecem, ou ignoram, que o nível puxa também o das escolas particulares, que hoje se espalham pelas bolsas de valores e pela maioria dos cargos importantes no Ministério da Educação.

A banda segue no mesmo tom quando o ministro Camilo Santana diz aos empresários do Ceará que revogar o Novo Ensino Médio é “voltar ao passado”. Fala de projetos para uma reforma a partir do que está, mas se o Novíssimo Ensino Médio for tão velho quando o Novo (como o partido homônimo) já chega de andador.

As disciplinas que ensinam a pensar a sociedade vão se afastando da formação básica e o custo se paga em menos de uma geração. Essas crianças vão fazer uma faculdade, se formar e voltar para a sala de aula como professores, no ciclo vicioso de cada vez menos. E fiquemos com o que temos, porque melhorar gera investimentos em várias frentes e que vão bem além do financeiro.

Mais do que formar professores, a educação precisa formar cidadãos, ou em breve os espaços de trocas de saberes se tornarão cada vez mais panópticos de uma sociedade da disciplina. Um professor não precisará mais virar as costas para escrever no quadro ou se esquivar de uma facada, estará também adestrado para vigiar e punir.