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Pequenos incêndios por toda parte

Em 2019, o Grupo de Estudos Teatrais Divulgação foi reconhecido como “Bem Cultural de Natureza Imaterial de Juiz de Fora” (Foto: PJF)

ATO I, cena 1

O título deste texto é também o de um romance da sino-americana Celeste Ng, transformado em minissérie pela Hulu alguns anos atrás e disponível na Amazon Prime. Li a obra por indicação da minha amiga Mônica Calderano, que estava morando na mesma cidade onde se passa a trama e  que eu iria visitar em março de 2020, mesmo mês do lançamento da adaptação audiovisual. Em março de 2020, contudo, o incêndio metafórico provocado pela pandemia da Covid-19 se alastrou pelo mundo. E, em consequência, queimou também minha passagem de avião.

Cena 2

Acabo de roubar o título na cara dura porque é daqueles que eu amaria ter escrito. “Fogo”, e não “incêndio”, é o nome de um conto que escrevi há mais de 20 anos e cujo arquivo digital se perdeu em inúmeras formatações de computadores e trocas de máquinas ao longo dessas duas décadas. Nele, um velho diretor de teatro, num casarão cultural assombrado onde acaba de faltar luz, dá vazão à melancolia de uma vida dedicada à arte (e nem sempre reconhecida) e, no meio do palco, derruba uma vela acesa, que faz as chamas se alastrarem pelas cortinas.

Cena 3

Era, para deixar claro, uma ficção, mas obviamente inspirada na minha rotina de frequentadora diária do Forum da Cultura, no número 1.112 da Rua Santo Antônio, e integrante apaixonada do Centro de Estudos Teatrais — Grupo Divulgação. Uns três anos depois de o conto ter sido escrito, contudo, enquanto se soldavam algumas roldanas das varas que compõem o maquinário do teatro e as faíscas pegaram na cortina de veludo amarelo, consumindo boa parte dela no fogo. “Cai o pano”, se poderia dizer, mas não havia mais pano para cair.

ATO II, cena 1

“Incêndios” é o título de uma peça encenada em 2014 por Marieta Severo, com direção de Aderbal Freire Filho, na qual a atriz interpretava uma mulher que, em seu testamento, pede aos filhos gêmeos que encontrem o pai e um irmão do qual eles nunca haviam ouvido falar. Foi o primeiro espetáculo que eu quis assistir no Teatro Poeira, no Rio de Janeiro. Mas não fui.

Cena 2

No Teatro Poeira, minha amiga Mariana Virgílio assistiu na última terça-feira (4) a uma leitura dramática da obra de Simone de Beauvoir, lida e interpretada por Fernanda Montenegro. Mariana estava a pouquíssimos metros de Fernanda e diz que chorou. Mais ainda não disse, mas tenho certeza de que também ardeu por dentro.

Cena 3

No teatro do Forum da Cultura, a poeira deixada pelo fogo era resto de veludo amarelo e fuligem.

ATO III, cena 1

Enquanto acompanhava aturdida as notícias sobre o estado de saúde de Zé Celso — e, agora, sobre sua morte, essa tão grande perda —, lembrei que o incêndio que atingiu o apartamento do Teatro Oficina não foi o único que ele teve de enfrentar. O caso foi recontado na quarta-feira (5) pelo jornal O Globo: “O espetáculo ‘A criação do mundo segundo Ary Toledo’, de Augusto Boal, estava em cartaz no Teatro Oficina, em São Paulo, no primeiro semestre de 1966. Mas, felizmente, não havia quase ninguém no prédio naquela manhã de segunda-feira, 31 de maio, quando um curto-circuito no teto deu origem a um foco de incêndio. De acordo com uma investigação posterior, o fogo se espalhou pelo forro de lâminas de fibra e fagulhas caíram sobre as poltronas. A partir daí, as chamas consumiram tudo”.

Cena 2

Um mês e uma semana depois daquele mesmo 1966, há 57 anos, nascia, em Juiz de Fora, o Centro de Estudos Teatrais — Grupo Divulgação, que guarda com o Oficina a semelhança da longevidade e a coragem dos dois Josés, o Celso Martinez e o Luiz Ribeiro, de acenderam pavios e se tornarem reis da vela.

Cena 3

Foi num dos Josés, o Luiz, em que pensei quando li, quase dois meses atrás, a notícia de que o diretor Gerald Thomas jogou no lixo acervo pessoal com 40 anos de história do teatro. O mesmo Zeluiz que sempre se corrói de dor ao falar de como a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) despejou o Grupo Giramundo e Álvaro Apocalypse se viu peregrinando pelas ruas com seus pobres bonecos repentinamente sem lar. O que aconteceria com os “bonecos” e todo o acervo do Divulgação fosse o grupo desalojado do espaço que há 50 anos cuida como casa? Uma fogueira de Santo Antônio no meio do Parque Halfeld, fazendo, literalmente, o coração e a memória da cidade queimar?

Por ora, parte do acervo está sim no Parque Halfeld, mas para outro tipo de ardor: o do afeto e da celebração. Não me espantaria se, na exposição “Grupo Divulgação: Patrimônio da Cidade”, em cartaz no Espaço Cidade até o dia 16 de julho, encontrasse os resquícios daquela cortina queimada, mais tarde transformados em cenário (porque o teatro é devoto de Dionísio, mas também de Lavoisier). E confesso que me emocionaria com isso. Para renascer, dia a dia, a gente tem que honrar nossas cinzas.