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O bagulho da amizade

Tem umas histórias na literatura que ficaram famosas por personagens, momentos, linguagens nas quais a amizade é o que move toda a trama. Das amigas da Tetralogia Napolitana aos mineiros do apocalipse de O encontro marcado, em que a amizade parece ser a protagonista, parecem afastar-se outras em que o holofote aponta para outros pontos, mas é ela, a amizade, quem faz a história acontecer.

O senhor dos anéis é mais que a aventura para libertar a Terra Média de Sauron, o que pode ser conseguido pela destruição do Anel. Se Harry Potter ficou famoso não foi somente pelo conflito marcado pela cicatriz que carrega na testa. Sem as amizades semeadas, regadas, podadas e cuidadas ao longo das histórias nesses mudos de fantasia, as narrativas provavelmente teriam sido esquecidas (ou as missões não teriam tido sucesso).

Via Ápia, primeiro romance de Geovani Martins, entra nesse grupo que não divide a mesma prateleira na livraria, mas compartilha do laço emocional com os demais. Sem varinhas de condão, os moradores da Rocinha (protagonista da história) mostram pelas suas relações o que é viver numa cidade que só não é autônoma porque está cercada pelos asfaltos do Rio de Janeiro.

São os amigos que falam do Nem, o Mestre, e da paz que permite, na primeira parte do livro, cada personagem seguir sua vida, entre trabalhos e cigarros, todos lícitos por lá. Os problemas eram outros: o emprego ruim, a novinha que será que vai rolar, o bagulho para fechar o dia e dormir tranquilo.

Quando a UPP entra na Rocinha, acaba a paz. É tiro, porrada e bomba, mas a vida não para por isso. É a parte da floresta de aranhas: elas estão lá e o cidadão tem que atravessar para cumprir a missão. Documento na mão, mostrar que é alistado vale brinde, mas, se não tem confirmação, vale porrada. Para o P de Pacificadora funcionar, o governo teria que entrar no morro somente naquele momento, mas já estava antes, negociando em tempos de paz, só mudou a forma de agir e quem leva é o morador.

Fumar o baseado na rua se tornou problema, até a mãe quer os filhos fumando em casa. A qualidade da maconha caiu, o preço subiu, o jeito é buscar mais trabalho e melhor, desviando dos vermes pelo caminho para não tomar na cabeça. É o retrato de um sistema fechado, mas que mostra além dos limites da favela. Indução literária, Via Ápia não precisa inventar para mostrar as magias de quem mora no morro: o poder de se apoiar nos amigos garante a sobrevivência. Ou assim se espera.

Prum mineiro, de vez em quando os véi da história, que são neguim, falavam uns trem que era de parar e dizer nu! Mas bastava lembrar de um rap aqui ou de uma conversa de primos ali e o bagulho virava logo um puta que pariu! O livro do Geovani Martins puxa o leitor para cima do morro, para o comércio na Via Ápia, para as casas de cada amigo ali, pra dar um rápido um dois no baseado.

A amizade funciona para tornar mais natural na literatura o que é realmente natural na realidade brasileira, escondida por grandes canais de informação, mas presente e negado nas festas, nos encontros, nas paredes ou janelas que o poder público finge não poder transpor. Livro vênas (que o Douglas não sabe o que é porque foi para São João del Rei, não veio para Juiz de Fora).

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