Colunas

Meu desejo de Ano Novo já nasce com 73 anos

Meu desejo de Ano Novo tem a face de uma avó. Uma avó negra, de cabelos brancos, celebrando 73 anos de resistência. Meu desejo de Ano Novo se assemelha à Dona Maria Helena, a quem conheci neste início de dezembro, em um episódio que tinha todos os ingredientes para ser triste e desolador. Mas não foi. Porque Dona Maria Helena não permitiu.

Ao adentrar uma Mega loja de produtos de beleza, na Avenida Getúlio Vargas, percebi uma movimentação estranha ao ver uma das vendedoras, que chamou o segurança e lhe ordenou buscar alguém. Minutos depois, a altiva Dona Maria Helena entrava na loja ainda aturdida, acompanhada por dois seguranças.

Surpresa, mas com a força e gentileza de uma Candace, ela explicava que o produto que guardara em sua bolsa era seu, levado para mostrar a cor à vendedora, buscando um similar. Ao ser abordada de maneira agressiva pelo segurança na rua, que ameaçou chamar a polícia se não retornasse para “devolver o que roubou”, ela pensou estar diante de um assalto, tamanho absurdo da situação. Não era. Não costuma ser.

Essa abordagem não é um caso isolado, como infelizmente já sabemos. Tentaram ludibriá-la ao perceberem o erro crasso, argumentando que a haviam seguido para oferecer um “brinde”. Sim, tiveram essa coragem.

Mas, Dona Maria Helena não nasceu ontem. Nasceu há 73 anos, como me contou quando me aproximei para oferecer o telefone e o que mais ela precisasse. Na loja cheia, apenas eu e outra cliente não conseguimos relevar mais esse absurdo. Todas as demais seguiram suas compras como se fosse esse o tratamento correto a ser dado a uma senhora negra e idosa. Mas, Dona Helena não precisava de plateia nem de suporte. Ela é do tipo de mulher que não se dobra diante das injustiças. Exigiu a presença da polícia para registrar, ela mesma, um boletim de ocorrência pela forma como foi acusada e abordada.

Estava sem telefone. Oferecemos o nosso. Ligou e solicitou a viatura que estava envolvida em outra ocorrência. Eu pensei em ir e deixá-la aguardando a viatura. Mas o exemplo de fato inspira e arrasta. Atravessei a rua apressada e fui, eu mesma, procurar uma viatura. Achei, expliquei a situação, e lá fomos nós: eu e os policiais mostrar que, embora haja muitos que insistem em não ver, nós vimos e íamos documentar a injustiça cometida com Dona Maria Helena.

Assim que um familiar de Dona Maria Helena chegou, e eu contei ao policial o que tinha presenciado, tive o sossego de deixá-la registrando a ocorrência. Não sei como a ocorrência terminou. Mas sei que Dona Maria Helena, com sua fortaleza, mudou meu dia. E minha vida.

Me lembrou que, embora vivamos cercados por injustiças, convivendo diariamente com o desrespeito, com o racismo, com a falta de empatia, isso não pode nos tornar quem não somos.

Ela não se exaltou. Ela não agrediu. Ela não se descontrolou.

Ela exigiu respeito, respeitando todos os trâmites.

Ela me ensinou que não só o processo de aprendizagem dói, como também o processo de ensino.

Minha cabeça doeu o resto do dia. De tensão, de preocupação com o que fizeram com aquela senhora que poderia muito bem ser minha mãe, minha avó. Mas, meu coração se encheu de gratidão por ter conhecido essa mulher. Por ter-me lembrado que devo muito a muitas mulheres como ela. Que não esmoreceram, que não se curvaram, que não abriram mão de “causar um mal-estar” para se fazer respeitar.

Dona Maria Helena, quando eu crescer, quero ser como a senhora. Que não precisa de companhia para ser forte. Que não acredita que luta por respeito tem prazo para terminar. Enquanto se respira é tempo.

Publicidade